Valor Sentimental, de Joachim Trier

PROFUNDOS VALORES 

Valor sentimental, filme em cartaz do norueguês Joachim Trier é preciso em seu título: trata de sentimentos, uma camada (um tanto esquecida, conquanto fundamental) da torta mil-folhas de valores que pode simbolizar nossas vidas. Outras camadas – profissional, informativa, midiática, física – andam mais em alta, mas eis que da suposta frieza escandinava temos novamente (revisitemos Bergman, Strindberg, Kierkegaard?) a abordagem do primordial em nós. 

O filme traz o abandono. De um pai que se ausenta sentimental e semipresencialmente da vida de suas duas filhas e aparece, a certa altura, com uma proposta de trabalho: um roteiro de filme (ele é um renomado cineasta) em que uma delas (a mais velha, atriz de profissão) seria a protagonista. Não só a protagonista: o roteiro é a ela dedicado! Porém, como diz a sinopse (da qual não pretendo aqui me distanciar), eis que surge uma estrela hollywoodiana que se encanta pela obra do pai e acaba sendo chamada para o papel. Mais um na série de abandonos ao longo da vida para as duas irmãs – muito cúmplices uma da outra? É por aí que o filme corre, às vezes até anda, para chegar em algo mantido bem longe do que podemos, de cara, imaginar. 

Creio que para além dos efeitos que essa trama relacional provoca em nós, espectadores, vale a pena reparar em como dois elementos que vemos surgir ao longo das quase duas horas e meia de duração sustentam esse filme; elementos que são fruto de dois afazeres exclusivamente humanos. 

O primeiro deles é a casa onde as irmãs cresceram – e que a mais velha, narradora do filme, aborda de início, aludindo a uma redação dos tempos de escola na qual ela a imaginou como um ser vivo, sujeito a “golpes” e situações diversas ao longo do tempo. A casa tem, de fato, conforme é mostrada em retrospecto, uma história, tendo sido construída e pertencido à linhagem paterna. Quando o pai em questão teve a derradeira briga com a mãe das duas irmãs, deixou-as morando nela. Até que a mãe morre, momento em que o filme começa. Antes disso, as filhas ainda pequenas costumavam abrir a portinha de um dos braseiros do sistema de aquecimento e ouvir as queixas dos pacientes da mãe, que era psicóloga e atendia seus pacientes em um dos seus aposentos. E bem antes, ainda num período inicial, a constatação de que a casa, tão bela por fora, tinha um defeito estrutural com o qual os primeiros moradores e as gerações seguintes haveriam, simplesmente, de conviver (nada de alardes). 

A casa, por direito, ainda pertence ao pai, não se tem ideia do quê ele vai fazer com ela. Só a certa altura ele revela que irá usá-la para o novo filme. E é esse o segundo elemento a ser bem observado. Aliás, como não fazê-lo? O pai, vivido por Stellan Skarsgard, o leva, embrionariamente (enquanto roteiro), pra lá e pra cá, apresenta-o a uma e outra (pois ainda quer que o neto, uma criança, filho da segunda filha, também faça uma ponta). Quando consegue o financiamento, sai atrás da equipe e logo se instala na casa (em que as filhas não mais moram), dando início à ambientação e aos ensaios. O homem é cineasta: sua vida nunca está distante desse “vício” – que lindamente aparece quando ele brinca com o neto mostrando-lhe como editar gravações que ambos fazem no celular. 

Uma casa onde morar, um filme autoral, penso eu, são coisas que uma IA não consegue fazer. Uma IA, em primeiro lugar, não mora, não se levanta todo dia, não faz e toma café-da-manhã (ou qualquer outra refeição), não se deita no sofá depois de um dia de trabalho, não toma uma boa ducha quente e por aí vai. Pode até fornecer uma projeção ou uma planta de uma casa, indicar materiais a serem usados, fazer mil sugestões, mas jamais saberá o que é morar nela.  

E o mesmo ocorre com fazer um filme. Pode ela, hoje, em poucas horas, realizar a partir ou não de um pedido nosso o filme que for, mas jamais saberá o significado daquilo que ela fez ou deixou de fazer: é incapaz da realização em si, um termo tão caro aos que se dedicam a esse meio, o cinema – a ponto de muitos cineastas se referirem a si mesmos como, meramente, “realizadores”. 

Por que enveredo por reflexões tão, digamos, defensivas, quase paranoicas a respeito de algo, a IA, que sequer é mencionado no filme? Bom, talvez seja como o clima, cuja mudança estamos vivendo na pele: em termos espirituais, entramos em uma nova era, não muito alvissareira. É o que nos ronda, vamos evitar falar? Seja isso ou não, parece-me que esse belíssimo filme, ao perseguir e prosseguir com essa tara escandinava do sentimento, apela muito acertadamente para algo artesanal, que requer “mão” – ou toque, ou cheiro, olhos e ouvidos. 

Que não restem dúvidas: o filme de Trier é sobre relações e sobre o quanto somos afetados pela atenção ou falta de atenção do outro. Nessa seara, é inevitável que, por vezes, nos machuquemos; mas sempre haverá o que aprender – nem que seja o “ir mais devagar”, não esperar demais, usar EPI’s. A linguagem, em algum momento, acaba dando conta do sofrimento causado. (Ou, como, filosofava um dos avôs de Amós Oz em seu De amor e trevas, “Mas o que é o Inferno? O que é o Paraíso? Tudo isso é interior. Dentro de casa. O Inferno e o Paraíso podem estar em qualquer quarto. Atrás de qualquer porta. Sob qualquer cobertor de casal. Assim é – um pouquinho de maldade, e o homem é o Inferno do homem. Um pouquinho de compaixão, de generosidade, e o homem é o Paraíso do homem.”). Quando, porém, sequer essa funciona, parece que há ainda uma “sobra”estritamente, exclusivamente humana. Só nós para nos salvarmos uns aos outros – esdruxulamente, por meio dos nossos próprios vícios e eternos “defeitos”. 

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Sobre Andrés Rodríguez Ibarra

Sociólogo e doutor em filosofia, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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