Um sonho

DEPOIS DE COROA, SOBRE CORONAS E COROAS

Há uns anos – por volta de uns 8, talvez mais – eu tive um sonho ao dormir. Sonho medonho: eu estava na África como uma espécie de voluntário e, ao mesmo tempo, cientista. De repente, dei-me conta de que uma peste muito poderosa – causadora de uma eventual pandemia – estava em ação a partir daquele epicentro. Era gravíssima, dei o alerta; as pessoas começavam a morrer aos montes e o único refúgio era o interior de uma casa – agora já em Brasília – que, dou-me conta agora, é muito parecida com a casa que construí nestes anos, lugar de onde escrevo neste momento. Lembro que ainda tive que correr para poder fechar, a tempo, todas as portas e janelas e nos trancarmos, eu e minha companheira, lá (aqui) dentro. Foi nesse momento que acordei, perturbadíssimo.

Fã do Freud que sou, passei horas e mais horas tentando interpretar esse sonho. Foram anos de intepretação até que, num certo ponto, sem nem perceber, o tal pesadelo caiu no esquecimento. Sonho premonitório, indicando que eu talvez tenha uma veia profética? Não, não me deixo arrastar por uma sereia tão canastrona. Um amigo me informa que há um bom tempo esta ameaça, agora tornada realidade, estava no radar da ciência, respondendo pelo nome de Evento 201 – ou seja, aquele evento para além dos duzentos casos de surtos virais que, todo ano, vinham, nos últimos tempos, pipocando pelo mundo, e que não tinham empuxo suficiente para sair do regional. Uma hora, tinha que acontecer, como efeito colateral desta facilidade que hoje vivemos de, junto com os nossos vírus familiares, circular pelo globo.

Neste momento, o que me resta, além de aguardar, em casa, que consigamos vencer esse SARS-CoV-2? Bom, quem sabe, uma vez que há tanta semelhança entre o presente e esse passado que ficou para trás, retornar ao sonho medonho em busca de um possível significado.

Recordo a todos que eu passei anos estudando a obra de Michel Foucault, e que isso redundou na minha tese de doutorado, sobre o conceito de liberdade segundo esse pensador. Dentre as conclusões que tirei dessa empreitada, uma das principais tomou forma, plenamente, somente a posteriori: Foucault foi um pensador, acima de tudo, político e a sua obra ficará para os séculos por vir tal qual a de Karl Marx (que alguns – talvez a começar dele próprio –  por muito tempo julgaram ser um pensador da economia). Só que, diferente do alemão, ele tomou para si tentar entender aquilo que está no olho do furacão da política: o poder.

O poder é um fenômeno social, o que significa que, para que ele exista, precisa haver mais de uma pessoa envolvida. E uma segunda característica é a de que ele não é substância, mas sim verbo: ele não é algo para alguém possuir, mas sim para alguém exercer, dando sempre lugar a uma relação (ou relações). Essa forma de enxergar esse fenômeno, permitiu a Foucault historia-lo, ou seja, reconta-lo em sua variação ao longo do tempo e do espaço: em tal lugar e em tal momento, ele era assim exercido. A sua metodologia de pesquisa, portanto, era de natureza histórica.

Houve, porém, um pequeno (sic) parêntese antes que se tenha chegado a esse ponto, que só ocorre no início dos anos 1970 – e ao qual foi dado, pelo próprio Foucault, o nome de Genealogia do Poder. Foucault fez uso das técnicas de pesquisa dos historiadores antes disso naquilo que chamou de Arqueologia do Saber; e que tem como objeto, não o poder, mas os saberes em sua pretensão científica. Com esse método (mais ou menos) em mãos lançou-se em fins da década de 1950 e ao longo de toda a década seguinte a explicitar, em diversos campos (inclusive na medicina), a produção da verdade no Ocidente moderno. O método serviu-lhe para que ele pudesse sair de dentro desse turbilhão onde a verdade é gestada e administrada, e, em seguida, pudesse descrever, como “historiador”, a “verdade” desse processo! Há enorme novidade aí, não sei se notam, posto que, até então, a verdade sempre foi algo que, a rigor, se descobre – não algo que se fabrica! Foucault deslocou, com sua Arqueologia, o próprio estatuto, ou lugar, da verdade, deixando essa de estar onde sempre se supôs que estivesse (os sábios).

A Genealogia do Poder também é um método, que se espelha precisamente no quê? Exato: no seu trabalho da década anterior, a Arqueologia. Só que agora, o que se trata de capturar é o poder. E uma vez que se sai de dentro do poder com a capacidade de descrevê-lo em seu exercício, em todas as suas artimanhas, adquire-se o quê? Ora, um poder de outra ordem, um não-poder, talvez. Entra-se num outro campo, num outro território para essa forma particular de exercício relacional – aquilo a que, a certa altura, em mais um dos seus belíssimos textos, Foucault deu o nome de heterotopia.

Pois bem, o que eu descobri na minha tese defendida em 2008 é que isso de conseguir, à la Foucault, se deslocar em relação ao poder é um recurso que as sociedades ameríndias que habitam a Amazônia já dominam há séculos: boa parte da sua ciência nisso consiste. Pra você mandar num índio, só com motivos que lhe sejam muito bem explicitados e que ele aceite após muita consideração – e olhe lá[1]. E, em paralelo, que um dos ramos da psicanálise, aquela que deriva de Jacques Lacan – e, mais particularmente, aquela que reconhece as formulações da sua Clínica do Real (que se iniciou na década de 1970) –, a qual parte do pressuposto de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, consiste numa forma de fazer com que os indivíduos que a ela recorrem alcancem, face ao poder que essa estruturas exercem sobre ele, uma libertação. São dois métodos análogos, em seus pressupostos e objetivos, ao de Foucault – não sendo à toa, que um dos seus principais exegetas, Paul Veyne, concluiu que o principal legado desse pensador foi uma sorte de “decisionismo individual”, algo da ordem da práxis, não da teoria.

Venhamos e convenhamos: tudo isso é bem próximo de ir trabalhar na África na condição de pesquisador e voluntário.

[1] É claro que a explicação para a semelhança com a Arqueologia foucaultiana é bem mais complexa, passando pela cosmovisão desses povos, onde vige o perspectivismo.

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Parasita, de Bong Joon-Ho

POR QUE NÃO GOSTEI (TANTO) DE PARASITA

Algo me deixou cabreiro da primeira vez que assisti a Parasita, filme vencedor do Oscar, do coreano Bong Joon-Ho. (A história) “não é o que você pensa” dizia alguma propaganda à época; e, de fato, assim é. Há surpresa, bem grande – a qual quase todos, a esta altura, devem conhecer.

Mas, não creio que tenha sido isso o que me incomodou. Primeiro, porque reviravoltas como a que nele ocorre podem ser atrativas, funcionar como alavancas a nos propulsar para outros estados ou ambientes do pensamento, atingindo, assim, o objetivo primordial de toda obra de arte. Segundo, porque o essencial desse filme não está nessa cambalhota do seu roteiro.

Parasita possui todos os elementos de um grande filme. Ele, de fato, é um grande filme. Tem a agilidade, tem o ritmo desses saborosos filmes que põem em cena a uma trupe de vigaristas. Gente que necessita iludir, gente que esquematiza planos, concatena acontecimentos em série a fim de conseguir uma determinada proeza. Questão de planejamento. De imediato, penso num Nove Rainhas, mas são inúmeros os (bons) títulos: é todo um filão no cinema, com direito a refilmagens e tudo –  pense-se na série dos Onze homens(acrescida recentemente de um grupo x de Mulheres) e seu um Segredo, ou então da Truque de Mestre e seus Atos (até agora somente dois).

Porém, ai porém, neste Parasita, os vigaristas acabam levando uma rasteira, como poderia eu dizer… arquitetônica. Teriam eles – uma família formada por pai, mãe e um casal de filhos –, uma vez instalados clandestinamente no novo território (uma fabulosa, moderníssima casa, suponho que em Seul), plenas condições de escapar, feito “baratas”, caso algo desse errado (e, de fato, algo disso eles conseguem, quando o imprevisto se instala); mas nada, em absoluto, poderia leva-los a prever a existência do parasitismo que dá nome ao filme…

E eis que se veem obrigados a resvalar de volta, do usufruto de um alto luxo, de até mesmo um horizonte que se descortina de “encaixe” nesse (outro e quase afetado) padrão, para o agreste e bruto universo da carência. Conseguem, em seguida (e no limite), alguma recomposição, mas o tombo havia sido tão feio, a distância entre um mundo e outro de tal magnitude, que tudo termina mal. Temos aí algo de novo, um twist no gênero “vigaristas pra lá de espertos conseguem…”. Eles (nossos heróis) já não conseguem; e a culpa disso estaria, para alguns, na desproporção entre aquilo a que ricos e pobres têm acesso.

Mudança, vital, de clave, que se confirma no diálogo pós-débâcle entre pai e filho vigaristas, quando o primeiro pontifica: todo planejamento sempre dá errado, o melhor é não planejar (mas, também, não deixar de fazer). Acho que foi essa sutil inflexão o que ocasionou o meu engasgo estético. Contudo, é daí que provém a genialidade desse filme. Não: ele não é um libelo contra a desigualdade social. Ele é a mutação de um dialeto particular da linguagem cinematográfica, de um certo padrão já consolidado. Precisei ver uma segunda vez pra sacar.

E o que ele fala para o nosso mundo presente é: precisamos reinventar o que existe. Aquilo que nos divertia, que nos fascinava, perante a complexidade da vida atual, já não dá mais conta. O planejamento tem que ser de outra ordem, incorporar novos princípios.

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O cinema de Spike Lee e o Brasil de hoje

BOLSONARO X.?

Malcolm X.(1992), do diretor norte-americano Spike Lee, é um filme de três horas e vinte e dois minutos. Na sessão da retrospectiva desse cineasta que ora ocorre no Centro Cultural do Banco do Brasil local, bastante cheia, não ouvi ninguém sequer tossir: todos vidrados na história desse líder do movimento negro norte-americano dos anos ’60 do século passado. Parece que algo, nela, ressoa no nosso presente brasileiro, final de segunda década do século XXI. Deu-me essa impressão; o que será?

O filme conta a história de Malcolm do começo, de pai vítima da Ku Klux Klan e mãe enlouquecida pela perda da guarda dos filhos à assistência social estatal (em função da falta de condições econômicas), ao fim, trágico, de ser assassinado, na frente da esposa e filhas, em um comício. Muito esperto e destemido, o rapaz que, tendo recebido educação da família branca que o adotou, mas se visto impossibilitado de seguir uma almejada carreira de advogado (porque isso não era para um negro, conforme lhe avisou um orientador escolar), acabou aderindo ao crime nas ruas de Boston. Por pouco não foi morto, por desconfiança, pelo chefe bicheiro; mas não conseguiu escapar das mãos da Justiça, que, para além dos furtos, não gostou nada do fato de ele e seu comparsa, também negro, se relacionarem amorosamente com mulheres brancas.

Na cadeia, viu-se salvo do aniquilamento moral inerente a esse tipo de instituição por um outro detento, que o introduziu aos preceitos do islamismo sob a ótica de uma seita, a Nação do Islã, comandada por um líder religioso negro, a quem, assim que saiu da cadeia, veio a conhecer e a seguir com máxima devoção. Malcolm se tornou, com o passar do tempo, o principal porta-voz dessa seita, que adquiriu, por sua vez, abrangência e relevância nacional. O que pleiteavam não era a mera melhoria das condições de vida da população negra nos EUA, a sua integração à sociedade em termos menos desvantajosos: pregava-se um verdadeiro desmembramento, a refundação da América em duas nações distintas: uma branca e outra negra, regida pelo islã; um apartheid levado às últimas consequências.

A tensão racial nesse país atingiu, nesse período, um ápice. E quem estivesse à frente do movimento negro, desde que soubesse conduzir a enorme revolta em face à desigualdade, representaria uma força política do tamanho da que aparece na cena em que um exército de militantes dessa seita, liderados por X., se posta, primeiro, diante de uma delegacia de polícia onde está detido um companheiro espancado brutalmente e, depois, diante do hospital para onde essa mesma polícia se viu obrigada a leva-lo, exigindo um tratamento digno. Muito poder ali se evidenciava.

E exatamente por esse motivo as demais lideranças da Nação do Islã se voltam, a certo momento, contra X., planejando, inclusive, o seu extermínio. Ele passa a se tornar o principal inimigo dessa entidade, em vez da nação branca, cujo líder, JFK, acabava de ser assassinado – fato esse que X., publicamente, não faz questão de lamentar, pelo que recebeu, em seguida, uma forte reprimenda dos “colegas” de seita. Pouco a pouco, também começa a ficar evidente que a retidão moral dos demais líderes da NDI, tão estrita e propagada, não passava de fachada. Malcolm então a abandona e decide fazer um mergulho presencial no islã, indo ao Oriente Médio atrás das raízes dessa religião. De lá, volta transformado, abdicando da ideia de separação, de segregação entre seres humanos em função da cor da pele.

O filme não deixa claro quem foi que matou Malcolm X.. A CIA já o monitorava em sua peregrinação a Meca e posteriormente, quando teve que se esconder num hotel depois de ter sua casa queimada em atentado que quase o matou junto com esposa e filhas. Ao sair desse esconderijo para proferir um discurso em local público, foi alvejado pesadamente e morto. Representava, certamente, uma ameaça.

O que é que isso tem a ver com o Brasil atual? Muito pouco, quase nada ou definitivamente nada: essas seriam as respostas-padrão, as de quem tem “juízo” e entende de “política e história”. Seria, igualmente, muito provavelmente, a resposta do próprio Spike Lee.

Entretanto, nada impede que sejamos um pouco loucos e assumamos, momentaneamente, uma contramão. Afinal, não existe um certo ou errado categórico no que diz respeito a política – e a história, essa fica cada vez mais claro ser intrinsecamente  da ordem do político –; e, no que tange à arte, os bons manuais de crítica nos ensinam que a visão do autor quanto à obra por ele criada é somente uma a mais. Ao adentrarmos essa via, temos algumas similitudes entre o biografado no filme e o nosso presidente eleito; quais sejam: 1. um sujeito destinado a ser um marginal (Bolsonaro, no caso, foi descrito pelo generalato da ditadura como um “mau militar” e, não à toa, foi “reformado”), mas que conseguiu se reposicionar (para usar uma palavra atual) na vida, pela política; 2. que entrou em cena nacional num momento em que havia enorme pressão popular por uma espécie de justiça que não é uma que se inscreva pacificamente no capítulo do econômico, mas sim das relações pessoais, microfísicas, ainda que em contraposição a frutos de padrões culturais (o racismo, a corrupção); 3. que desafiou a morte ao percorrer candidamente recantos de um país que é habituado a dar pouco valor à vida, ocasionalmente extirpando-a por meio da violência.

Uma cena do filme em particular me despertou para essa linha de percepção. É quando Elijah Mohammed, o líder supremo da Nação do Islã, tenta demonstrar a Malcolm, servindo-lhe um copo d’água, a diferença de sabor entre uma água cristalina e uma outra, que ele acabava de turvar com uma substância. As pessoas, diz-lhe então, vão saber distinguir entre um sabor e outro e, se tiverem a chance de optar, vão preferir a original; a sua sede vai se inclinar por ela, não pela que foi maculada. Havia esse tipo de sede (ou um vácuo concomitante) nos EUA na década de 1960. E, acho eu, que também a houve no Brasil que elegeu Bolsonaro.

Os filmes de Spike Lee são, todos, filmes políticos e, ao mesmo tempo, filmes que portam e transmitem doçura. São filmes que tematizam valores relativos ao convívio social: a amizade, a confiança, o parentesco. Malcolm X. é o retrato de um ser admirável, que atraiu para si paixões e ódios, esperanças e temores: alguém que, em suma, se carregou de história sem abdicar de um apego, de ordem pessoal, ao que julgou ser verdadeiro. Como teria sido caso não o tivessem matado? Talvez algo próximo a um Obama?

Não sabemos, por outro lado, o que esperar de Bolsonaro. Só o que se sabe, até agora, é que é uma alma que se achou nesse terreno selvagem da política, enxergando, a certa altura, o enorme vácuo deixado pelo turvamento reiterado e difuso de suas águas.

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Decifrando as urnas

EXISTE ÉTICA NA (SENSAÇÃO DE) SUPERIORIDADE?

Em breve faremos um mês com presidente e governadores (alguns) eleitos. Tempo suficiente para se afastar um pouco do espanto e tentar entender, com o auxílio da razão, o que de fato aconteceu nessa eleição. As forças democráticas foram derrotadas? Essa me parece ser a pergunta crucial, posto que é do lado delas que me vejo situado e disposto a seguir caminhando – e foi por isso que julguei, a certa altura do segundo turno, que a melhor opção seria o voto em Fernando Haddad.

Um primeiro dado a ser levado em conta é o fato de que Bolsonaro se elegeu de forma limpa, dentro dos critérios preestabelecidos. Uma maioria expressiva de cidadãos brasileiros e aptos a votar foi às urnas e manifestou, livremente, a sua crença de que era essa a melhor opção. Pode-se alegar que houve fake news, jogo sujo, disparos ilegais em redes sociais: ok; porém, lembre-se o quanto essa mesma estratégia, baseada na difusão de mentiras, não foi utilizada contra a candidata Marina Silva na eleição de 2014. Imprensa e tribunais eleitorais noticiaram e fizeram e fazem a checagem que, até o momento, não apresentou fatos robustos o suficiente – e esses, a esta altura, teriam que ser de uma flagrância superlativa – para uma anulação do resultado.

Consideração mais grave diz respeito à, digamos, plataforma sobre a qual esse candidato se elegeu: um conjunto de valores distantes do que se entende como sendo aqueles que corresponderia a uma democracia moderna abrigar, dada a liberdade individual que lhe é inerente. Bolsonaro, há anos, é porta-voz de visões retrógradas e preconceituosas no que tange aos costumes: foi através dessa atuação que ele acumulou fama em meio ao Congresso Nacional e à mídia. E o fato de que um contingente tão expressivo de brasileiros tenha, agora, lhe dado o voto é algo que deixa enorme perplexidade, conduzindo à pergunta: somos intimamente tão desumanos – a ponto até de dar crédito (e logo esse, de líder da nação) a quem defende a tortura? Desconhecíamo-nos à larga em nosso pendor autoritário?

Acho que temos que ir com calma em relação a esse tipo de conclusão – note-se que nem sequer entro na falácia de achar que tudo isso não passa da consolidação de um “golpe” que, evidentemente, não existiu. Não me parece que os que votaram em Bolsonaro o tenham feito fundamentalmente em função da visão de mundo estampada nos seus discursos cheios de ódio e crueldade, mas sim de ter ele, com eles, condensado na sua figura o inconformismo difuso e, ao mesmo tempo, furioso com a política e, em especial, com o PT. Num ambiente saturado por mentiras – como ficou claro a partir das revelações da Lava Jato e da posterior e renitente recusa, inclusive da militância petista e seus satélites, nas redes sociais e demais foros, em reconhecer os erros cometidos –, alguém que passava um mínimo de autenticidade (ou um máximo, se formos levar em conta o conteúdo explicitamente ofensivo e degradante das suas falas) passou a adquirir as feições de boia de salvação, por mais improvável que isso parecesse.

Voltando às forças democráticas, parece-me que um primeiro passo a ser dado é reconhecer que, até o momento, Bolsonaro jogou e joga o jogo da democracia, inclusive com perspectiva nenhuma de cometer algo como um novo e já patenteado “estelionato eleitoral”. Em seguida, olhar para si mesmo à procura da eventual existência de atitudes perante o outro e até de falta de honestidade para consigo mesmo que tenham provocado uma tamanha desconfiança por parte de tanta gente. Sim, a roubalheira do Petrolão é fato incontestável, mas será que, para além dele, não haveria também outras barreiras de cunho ético que foram se estabelecendo ao longo dos anos – ética aqui entendida sob o duplo aspecto de uma situação na qual não há respostas prontas (ou fáceis), tanto quanto uma em que o que está em jogo é a liberdade no seu sentido essencial, de algo que se exerce nas relações?

Não haveria uma certa – e antipática, para dizer o mínimo – superioridade daqueles que supostamente, detém a verdade (como se essa existisse) da política? Um certo elitismo, uma diferenciação suspeita, estabelecedora de um “nós” e de um “eles”? Uma certa obrigação de pensar dentro de determinados parâmetros, a partir de certas visões e com o uso de exclusivos conceitos? Em que medida se está assim tão imune a formas de autoritarismo? Em suma, se perguntar até que ponto a denominação de “democráticas”, por parte dessas forças, não incorpora um descabido ufanismo, não realiza uma apropriação demasiadamente apressada.

Bolsonaro e os governadores que saíram eleitos das urnas terão quatro anos pela frente e o rol de estragos que eles poderão deixar pode ser grande. Porém, esse é um risco inerente a todo e qualquer governo, eleito ou não. Como disse acima, Haddad foi minha opção de segundo turno. Foi escolha difícil, tendo em vista a minha descrença em relação não à sua pessoa, mas ao seu partido. É bem provável que, caso eleito, os riscos à democracia fossem de igual tamanho aos atuais, ainda que de natureza inteiramente diferente; quem sabe, até maiores – eis que me declaro aqui e para todo o sempre, falível nas minhas escolhas, como qualquer ser humano, porém, sem arrependimentos.

Em suma, a decisão está tomada; não creio que seja papel das forças democráticas, daqui em diante, dificultar as saídas engenhosas ou pródigas que possam vir a surgir, pois estamos bastante necessitados delas, mas, sim, se contrapor a tudo o que não tenha amparo na lei, que não seja justificado perante escrutínio público e que produza angústia, ignorância ou sofrimento – de preferência, contrapondo-se a tudo o que não mitigue esses três quando existirem – aos que aqui habitam.

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Eleições 2018

MARGEM HOJE ESTREITA (MAS NAVEGÁVEL)

O escritor Enrique Vila-Matas, em entrevista o outro dia na Folha (https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/08/o-artista-deve-ser-nao-original-diz-enrique-vila-matas.shtml), fez uma afirmação muito interessante: a de que tanto o direito de se contradizer quanto o de cair fora deveriam fazer parte da Declaração Universal do Direitos Humanos. Dizia isso à luz de sua literatura, que é da órbita da “ficção crítica” e se apropria da repetição no intuito de, paradoxalmente, criar o novo, de sair de uma exigência “fossilizada” de originalidade.

Cair fora foi o que meu compadre Mário fez no começo deste ano, indo morar – assim como milhares de outros brasileiros – no exterior, levando consigo (e sendo levado por) mulher e filhas adolescentes. A tecnologia do mundo atual tem permitido que sigamos nos falando, ouvindo e vendo com uma frequência quase igual à de antes, de modo a que a saudade, numa imaginária Lei de Responsabilidade Amorosa, seja mantida abaixo de um “limite de alerta” – o mesmo ocorrendo com a extensa rede de outros fieis amigos que aqui ele deixou. Enfim, em tom de blague, digo que não duvido que o Mário em breve se torne amigo do Vila-Matas, que é espanhol e, imagino, vive logo ali, atrás do monte.

Mas é sobre esse outro direito humano universal reivindicado pelo autor de Dublinesca e Viagem Vertical, o de se contradizer, que gostaria de discorrer a seguir. E fazer isso sem abandonar o tema do amigo emigrado, posto que, dessa mexida, ainda restou o seu filho, meu afilhado, jovem e amável jornalista e vídeo maker, que optou por aqui ficar; e que, em recente e franco post do Facebook – e peço-lhe perdão pela inconfidência –, manifestou o sufoco que está sendo a escolha de candidato(s) para a próxima eleição. Noves fora os fundamentalismos, essa agonia é geral, eu diria, sendo ainda mais aguda para quem tem pouca experiência de vida. Meu conselho, no caso, é o de ser capaz de se assumir como navegante no Estreito da Contradição.

O que é que vem a ser isso? Creio ter condições de explicar, tendo em vista ser o que tenho feito, ultimamente, ao ter me disposto a contribuir com duas campanhas de candidatos, uma para senador, outra para deputado distrital, ambas do Partido dos Trabalhadores. Eu, que nunca militei (a não ser no âmbito sindical). E eu, que, cada vez mais, me sinto partidário, no espectro político, de um centro, em vez de uma esquerda – e que, em função disso, estou certo de que não votarei, nem para presidente, nem para governador, nos candidatos desse partido.

Votarei naqueles dois únicos candidatos petistas porque tenho tido a oportunidade de conhece-los mais a fundo – em especial um deles, Wasny de Roure, que, como presidente da comissão onde atualmente estou trabalhando, no âmbito do poder legislativo local, tem tido a sensibilidade e feito uso, por primeira vez ao longo de tantos anos de carreira nesse órgão, do meu potencial profissional. Tenho aprendido a admirá-los, em grande parte em função de ter notado neles um grau de humildade, bastante raro nesse e em demais meios, que faz com que consigam prestar atenção a seres tão inquietos e um tanto fora de padrão como eu. Claro está que não comungo com 100% de suas convicções – a algumas delas, até, sou definitivamente refratário –, mas isso não é empecilho para um apoio, quando posto numa balança em que também entram qualidades pessoais e histórico de vida e de posicionamentos. E quando se leva em conta esse dom de ouvir. (A outra candidata sendo Arlete Sampaio).

Às margens do Estreito da Contradição, o que encontrar? Muita “terra firme” que, no entanto, tem ficado cada vez mais claro ter o inconveniente de ser o berço de ódios. Ou será que são os ódios que acabam se cristalizando em ilusões de terra firme? Não sei, só sei que escrevo no dia seguinte de um atentado contra um candidato a presidente. Tudo indica que esse candidato, que, por sinal, é um dos principais patrocinadores do ódio, se recuperará – o que é de se esperar – e, inclusive, sairá disso reforçado – o que não é de se esperar –, mas o crucial a notar nisso é o quanto que o que já era espinhoso para um jovem eleitor e cidadão como o meu afilhado ganha contornos ainda mais assustadores.

Por isso, minha recomendação, que vale para mim inclusive, é a de não exigir demais desses postulantes, mormente quando se trata dos principais cargos, os ditos majoritários. Eles podem estar na mesma situação que nós eleitores, de terem que ser um pouco contraditórios, de não terem respostas engatilhadas para todo e qualquer problema. Claro: se estão se apresentando como líderes, haverão de ter programas, rumos claros que indiquem suas intenções e o firme empenho de que seguirão o que estão prometendo – tudo o que não precisamos, a esta altura, é de um novo estelionato eleitoral. Mas espera-se que também possuam a habilidade de contornar icebergs na medida em que eles se apresentarem, de aglutinar forças de modo a ter suficiente empuxo na hora que uma Moby Dick resolver dar uma estocada conclusiva.

Estamos todos num mesmo e único barco. Existe uma arte de navegar e, creio eu, temos gente capacitada para tal, o que equivale a dizer: lideranças, analistas, especialistas e generalistas e uma boa dose amor por esta pátria e pela vida. O que atrapalha, o que tem atrapalhado bastante, é a noção de que tudo tem remédio – seja esse as armas, seja a utopia (que, não raro, desemboca no primeiro). Não tem: nós é que temos que inventar. Aprender a trocar, desde pequenos, a roda em pleno movimento – e a nos conhecer mutuamente.

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O ocaso da esquerda

CAMINHOS CRUZADOS

Meu trajeto pro trabalho, todo dia, possui um grau de civismo difícil de ser equiparado. Passo por três palácios (Planalto, Justiça e Buriti) um Congresso Nacional, uma esplanada inteirinha de ministérios, dois tribunais (de Contas e de Justiça do DF, para não falar do Supremo, que avisto de longe), duas praças cívicas e dois memoriais (JK e Povos Indígenas) e, só então, adentro a Câmara Legislativa, o parlamento local, onde “ganho o meu pão”. Mas civismo não é só o lado estatal, dos poderes instituídos, com seus choferes e cerimoniais; ele também engloba aqueles que ralam dentro de ônibus apinhados, os que vendem pastilhas de menta no sinal e os que dormem debaixo de viadutos ou marquises. Vejo-os igualmente, além dos rostos dos que, como eu, manejam manivelas, pedais e volantes nos bancos dos seus automóveis até os estacionarem nas garagens das repartições ou conjuntos comerciais.

Foi em meio a isso tudo que me veio à mente, o outro dia, o Chico Buarque e a sua obra musical. Uma obra, como todos sabemos, vasta, onde figuram inúmeras pérolas da canção brasileira. Um verdadeiro colar, de onde jamais se poderia tirar a canção sobre o pedreiro que cai de cima da construção, morre e, ainda, atrapalha o trafego. Uma ode talvez insuperável a esse outro lado da moeda cívica a que me refiro acima; o resultado admirável de uma inspiração poética muito próxima dessa que me ocorre nesse trecho, inicial, das minhas manhãs.

Diante dessa proximidade, surge-me a pergunta: o que é que me distancia desse compositor, que assume, na atualidade, uma linha de frente de defesa do lulismo – a ponto de muitos dos que titubeiam nesse tema o terem como espécie de fiel-da-balança na hora de se verem forçados a assumir uma posição? Por que não o acompanho, também, no quesito visão da política? Vem-me à cabeça o termo “festa”: a figura de Chico Buarque seria a quintessência daquilo que ficou conhecido como “esquerda festiva”, um termo que eclodiu numa época em que havia, para a esquerda, uma outra alternativa, uma outra forma de existência: a luta armada.

Hoje, a luta armada – felizmente – é algo descartado. A maior prova disso – e, de quebra, de que a história de “golpe” no caso da queda de Dilma Rousseff não passou/passa de uma tremenda bravata – foi o fato de que, durante o impeachment, a própria chefe das Forças Armadas, uma ex-guerrilheira, sequer cogitou de algo como uma decretação de Estado de Sítio, um instrumento, aliás, constitucional – e legítimo, frente a uma ameaça real à ordem democrática. Teria restado, para a esquerda, nada mais do que sua vertente festiva?

Tendo – ainda nesse meu trajeto rumo à “roça” – a achar que sim; e, em seguida, me pergunto se não será essa a fonte principal da minha reticência ao filho do Sérgio Buarque de Holanda e, por tabela, ao lulismo. Estranho, porque, até onde sei a respeito de mim mesmo, sou alguém bastante afeito a festas – ou, ao menos, nada tenho contra! Onde estará, efetivamente, o cisma? Creio que é aí que a coisa – a minha reflexão –  começa a ganhar legítimo “corpo”: a questão não está no adjetivo, “festiva”, mas no próprio substantivo, a esquerda.

Acho que a esquerda tal qual se entende nessa expressão que a vincula à festa, essa esquerda que vive nos anos 1960 mas que insiste em frequentar a festa sempre hic et nunc do pensamento, está, na verdade – e apesar da visibilidade e hegemonia que possui na academia e na para-academia –, morta. Intelectualmente morta, tanto do ponto de vista teórico quanto daquele, prático, que diz respeito ao discurso.

No que tange ao primeiro, acredito que o embate esquerda-direita, tal qual se configurou a partir de Marx, já deu o que tinha que dar: não tem a capacidade de nos levar a canto nenhum mais. O socialismo real nos deu exemplos fartos de que, em nome de valores bastante belos e importantes, o que acaba por emergir das suas revoluções são estruturas de poder tão medonhas quanto (ou mais do que) aquelas que os comunistas vivem a denunciar. Uma nova grade de leitura da política necessita vir à tona. De fato, creio que ela já veio, através de Michel Foucault: foi o que tentei evidenciar em minha tese de doutorado, que está completando, nestes dias, dez anos de sua defesa.

No seu pensamento, que tem o exercício do poder como fulcro, Foucault ensaiou o deslocamento do eixo do entendimento da política para aquele, ubíquo, que separa os governantes dos governados. Os primeiros sempre a terem que ser suficientemente convincentes para estarem nesse papel; e, para tal, apoiando-se fortemente em saberes (variáveis no tempo, o que não os distancia muito de meras “narrativas”), dentro de algo a que ele deu o nome de governamentalidade. Os segundos sempre a portarem consigo a chispa da liberdade, por meio da capacidade crítica – daí, por exemplo, que Foucault nada tivesse contra a injunção kantiana que, aos súditos do rei de plantão, recomendava: “obedece; e assim poderás criticar o tanto que quiseres”.

No que tange ao segundo ponto de vista, parece-me que a utopia socialista, perpassada pelo valor da igualdade, vem sofrendo um progressivo descarrilhamento frente a um mundo onde a diversidade já se instaurou de forma irreversível. Uma diversidade que se calca em direitos que, malgrado tudo, só emergiram no contexto onde surgiu o capitalismo: os regimes, democráticos, ditos liberais. Há coerência nisso, bastando, para se dar conta dela, que se tome a doutrina liberal a sério – tal como fez Foucault, que dedicou a ela um ano inteiro de pesquisa e ensino no Collège de France – já que, tendo a concorrência como princípio regente e a noção de que não existem valores absolutos, nada diz sobre a obrigatoriedade dos indivíduos terem que competir nos mesmos e limitados campos de atividade. Esses podem ser inúmeros, nada impede que se diversifiquem ad infinitum; e foi a partir disso que a economia mundial conseguiu dar o salto que deu e não para de dar.

A utopia mais interessante nos dias atuais – uma utopia que está em via de se concretizar, se formos olhar para o que acontece atualmente no âmbito da prática pedagógica em alguns países ou localidades do mundo – reside no reconhecimento da singularidade dos sujeitos. Nas comunidades de aprendizagem, por exemplo, tal como propostas por um José Pacheco (um pensador não está, de modo algum, sozinho) – uma das quais se inicia em breve bem perto de onde escrevo – trata-se, ao contrário do que se propunha nas pedagogias dos séculos passados, de formar pessoas, por meio do respeito às idiossincrasias – não modelos ou padrões a serem seguidos ou contingentes a serem controlados com maior facilidade.

Recentemente, organizei um seminário a respeito desse tema: o reconhecimento de diferenças na escola. Convidei brilhantes estudiosos de duas questões centrais dentro dessa perspectiva: gênero e relações étnicorraciais. Foi algo revelador do ponto de vista daquilo que está em jogo e que é o fim da violência e do preconceito (algo politicamente muito relevante). Mas também ficou bastante claro pra mim o quanto a pluralidade é algo de difícil digestão para os representantes sindicais, para os militantes de esquerda, também convidados para o debate.

Alguns dos próprios pesquisadores, por um lado tão agudos e imbuídos na defesa da diferença, acabam cedendo a esses últimos e suas afirmações que priorizam, como elemento a ser combatido, a “violência de classes” frente a esses outros tipos específicos de violência. Eles, estudiosos, aquiescem, aceitam uma hierarquia teórica desnecessária, mesmo quando não está 100% provado (muito pelo contrário, como se depreendia do que alguns deles mesmos acabavam de mostrar) que essas formas particulares e definitivamente palpáveis de violência tenham vínculo com esse outro gênero todo-englobante e de caráter teórico. A sensação que fica é a de que uma natação intelectual intensa e muito promissora – porque em sintonia com a utopia que surge do “chão de escola” – pode estar sendo feita pelos pesquisadores da diferença, para virem, em seguida, a morrer nas praias do discurso massificador e heteronomista de uma esquerda agonizante. Um discurso tão obtuso quanto o da “escola sem partido”, igualmente heteronomista – e que, no fundo, era o vilão implícito do seminário.

Uma pena. Porém, a lição que fica, ao menos pra mim, é a de que a intuição foucaultiana de conhecer os pormenores do liberalismo – e, inclusive, do neoliberalismo – à luz da governamentalidade, estava correta. O neoliberalismo conclama a um passo adiante na direção já aberta pelo liberalismo, de deixar que a lógica da concorrência prepondere na sociedade, expandindo os mercados: trata-se que também o Estado passe a ser regido por esse princípio. Não implica na não-existência do Estado – como, de resto, é muito propagado – mas na eficiência/eficácia/efetividade desse. Os governantes tendo que provar que estão à altura de lá estarem; caso contrário: tchau. Acho que a academia não deveria temer o liberalismo; assim como a escola, com seus pais e políticos incluídos, não deveria temer (ou “ter pânico”, como foi dito, de) abordar as diferenças. Disso, poderia surgir algo como uma esquerda já não mais defunta, mas vigorosa, a ser alegremente experimentada.

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O último Rushdie e a nossa política

A PROPÓSITO DO NOSSO DESALENTO

The Golden House, o mais recente – recém-lançado – romance do escritor anglo-indiano Salman Rushdie, talvez seja a sua maior realização literária até o momento. Sendo seu assíduo leitor, essa afirmação tem um peso pois, afinal, seus livros têm sido um dos grandes deleites da minha vida. Tinha pra mim que seria difícil ele conseguir superar a sua grande “sinfonia”, Os filhos da meia-noite, escrita quando ainda era um autor desconhecido, quase estreante. Pérolas, em quantidade, vieram depois (O último suspiro do mouro, O chão que ela pisa, Shalimar, o equilibrista, A feiticeira de Florença), bem como o atrevido Versos satânicos, que lhe rendeu a mais estúpida das sentenças – de morte! – por parte de uns poderosos globais que lá viram a sua crença ofendida. Coisas nem tão boas também saíram de sua pluma, como creio ter sido o caso do seu anterior Dois anos, oito meses e 28 noites, ou Luka e o fogo da vida.

O que há na prosa de Rushdie que tanto me encanta? São diversos elementos que se entrecruzam o tempo todo. Ele sabe muito – e nos ensina – sobre o amor, em especial aquele que existe entre um homem e uma mulher. Sabe como ninguém que a sedução é a regra do jogo da vida e que ela, feita de gestos e, principalmente, de palavras, está presente também no momento em que se abre um livro e se começa a sua leitura. Também tem a coisa do desterramento, de como culturas inteiramente estranhas umas às outras se veem obrigadas, por meio dos seus egressos, a se entender porque agora habitam um mesmo e sempre renovado “mundo”.

Mas eu diria que em primeiro lugar está a sua capacidade (imaginativa, mas nem por isso fantasiosa) de nos evidenciar os centros nevrálgicos da atualidade – ou de antanho, como foi o caso em A feiticeira de Florença –, onde precisamente circulam os poderosos. Pipocam em suas páginas personagens que decidem nesse nível concreto que é o das finanças, da produção: banqueiros, empresários, diplomatas, astros do showbusiness, gente que detém, porque precisa, toneladas de informação – um paralelo pode ser feito com a matriarca do filme de Carlos Saura, Mamãe faz cem anos, que, apesar de acamada, sabia de tudo o que ocorria em sua mansão, com seus filhos, netos, noras e genros. Essa elite, por sua vez, não-raro se depara com o mundo do crime, onde despontam tipos que, igualmente, não-raro, se tornam “elite”. (Penso que é bem possível que o desvendamento desse tipo de promiscuidade, estendido ao caso de uma religião em específico – e note-se que se trata do islã, a religião sob a qual Rushdie foi criado – é o que tenha gerado tanta ira por ocasião de Os versos satânicos.)

E em meio a essa fantástica roda giratória sempre há a figura, classe-média, de um narrador. Classe-média porque é onde vigora, de início, uma certa crença iluminista, sempre em contato com uma profissão, um esteio seguro a partir do qual olhar para o que acontece – afinal, narrar já é uma forma de buscar uma ordem, uma compreensão pra esse caos, pra essa voragem do poder.

No caso específico de The Golden House, esse narrador classe-média é um film-maker nova-iorquino, descendente de belgas, que enxerga, na chegada de um magnata oriental e sua família – os Goldens – ao seu micro e exclusivo bairro na ilha de Manhattan, a chance de arregimentar as peças de uma história que virará, possivelmente, seu primeiro longa-metragem. Ele então se infiltra, feito um espião, nessa mansão que acaba se revelando – confirmando o seu faro – um poço de mistérios e dramas pessoais. Só que não, porque, lá pelas tantas, é claro, ele próprio se vê engolido na voragem (trata-se, aliás, de um dos pontos altos do livro, quando chega a autoquestionar sua legitimidade enquanto formulador de uma verdade, digamos, isenta, cogitando em procurar a ajuda de um psi qualquer, talvez abrindo mão, assim, da própria condição de narrador ou dono-provisório-da-verdade).

A crise pessoal vivida por René, esse jovem cineasta, filho de um casal de (impagáveis) professores universitários e nova-iorquino típico do ponto de vista do seu progressismo – uma forma de ver o mundo mais disposta a considerar os diversos aspectos de tudo o que se apresenta como novo – corre em paralelo à eleição de um “palhaço tenebroso” obviamente – porém não nominalmente – inspirado no reconhecidamente insano Donald Trump, o Curinga do desenho de Batman, para a  presidência dos EUA. Essa sacada simétrica talvez seja o que dá a essa última criação de Rushdie o traço da obra-prima: da mesma forma que o narrador corre o risco, ao aderir ao mundo corrompido dos personagens, de se perder de vez, essa nação que, tudo indica, seria a nova casa desse escritor anglo-e-agora-americano-também-indiano, também se encontra, com essa eleição, à beira de um precipício.

Os mecanismos que levaram Trump ao poder – dentre os quais desponta a apatia, reiteradamente lamentada, dos 90 milhões de votantes que não foram às urnas, mas também o impulso dos 60 milhões que nele votaram por conta, precisamente, de sua loucura, bem como a profusão, nos meios de comunicação, de “manufatrovérsias” –  possivelmente não tenham sido descritos, em lugar algum, com tamanha propriedade como agora faz Rushdie nesse romance. A sua escrita, portanto, à parte o fato de contar uma sensacional história – que nada deixa a dever aos seus demais grandes livros –, torna-se uma demonstração de que não cabe abandonar a via da razão: somos ainda capazes de compreender o que acontece e, em assim fazendo, de evitar a total escuridão que se apresenta. É, também, um manifesto!

Mas, para além de dar a conhecer, quase que em primeira mão e de forma tão resumida, essa contundente obra de ficção, o que me leva a tematiza-la diz respeito à nossa política, brasileira, atual, ao estado das coisas neste nosso país. Em especial ao sentimento bastante generalizado de desalento que corre nas conversas das redes sociais do mundo virtual ou não. Um desalento que ronda as eleições gerais que ocorrerão dentro de dez meses, mas que se origina dos últimos tempos, no mínimo, de mensalão e Lava-Jato.

Face ao drama presente nas páginas do livro que acabo de, apressadamente, resenhar, ousaria dizer que não vejo justificativa para um tal desalento. Explico: tanto na vida pessoal do narrador quanto na da nação norte-americana, a ausência da elementar verdade é o que arrisca pôr tudo a perder. A certa altura, o narrador descreve o mundo onde esse Curinga/Trump se torna governante como uma “bolha” em que “conhecimento era ignorância” e onde “o sarcasmo era divertido, mesmo quando o que era chamado de sarcasmo não era sarcástico, e mentir era divertido, e o ódio era divertido, e a truculência era divertida, e a atemorização alheia era divertida e a data era, ou quase era, ou poderia em breve ser, se as piadas viessem a funcionar conforme o previsto, mil novecentos e oitenta e quatro”.

Ora, por mais triste que seja a profusão de propinodutos, em todas as direções, a que já nos acostumamos no nosso noticiário diário, o que temos vivido nos últimos anos na nossa esfera pública não corresponde justamente ao esvaziamento de uma bolha com características muito próximas a essa? O nosso mundo não beirou se condensar em algo parecido à aprisionante, aterrorizante realidade descrita por George Orwell em 1984 – e a qual Rushdie parafraseia nesse trecho acima? Não temos hoje nossos pés mais no chão – por mais que esse seja sujo – do que quando vivíamos grandes, lambuzantes, derrisórias, mentiras? Não se tratará de fazer como o narrador desse The Golden House que, já numa altura avançada de sua narrativa, pede a licença para se ater à força e a algo como a resiliência (dailiness) da “vida tal qual ele a havia conhecido até então”, bem como para “convidar o vitorioso e gigantesco rei dos quadrinhos de cabelo esverdeado e a sua franquia cinematográfica de bilhões de dólares a sentar-se nas últimas fileiras e deixar que as pessoas de verdade toquem o bonde”?

  • Obs.: Traduções minhas.
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Sonâmbulo, por Andrés R. Ibarra

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Super Só & Outros Videoclipes, de Miriam Virna e Cia.

SUPER ACOMPANHADA

São bem diversos os caminhos do músico e do ator ou diretor teatral. Teatro envolve outras pessoas, grupo, ao passo que o músico pode tranquilamente sobreviver a uma rotina solitária; como se, ao ouvir o que sai da sua interação com um instrumento – que pode ser a própria voz –, esse último já conseguisse um suficiente retorno para “seguir em frente” em sua pesquisa. Claro que músicos também formam grupos, sejam bandas ou orquestras: a questão é que, mesmo nesses casos, o que cada um faz depende muito pouco do aporte do outro, o resultado do encontro se concentrando no som – e não na pessoa (ou no corpo) de cada performer. O espaço cênico é um espaço restrito, escasso, que se altera a qualquer piscadela do ator, ao passo que o do som não tem limites, acontecendo na “vastidão” da cabeça de quem o ouve.

Feito o registro dessa distância, gostaria de chamar a atenção para o espetáculo Super Só & outros videoclipes, em que sua autora e codiretora (além de atriz), Miriam Virna, nos apresenta o fruto, extraordinário, de um salto que ela se atreveu a dar entre um e outro desses caminhos artísticos.

Miriam é formada em artes cênicas e, mais significativo que isso, alguém que vive de teatro, que tem uma trajetória teatral de sucesso, tanto como atriz (inicialmente) quanto como diretora e dramaturga. Já encenou inúmeras peças em diversas demonstrações de domínio do fazer teatral. Não sei se ela concordaria – declaro que se trata de uma amiga – se eu dissesse que ela é principal sucessora de um gigante do teatro brasiliense, Hugo Rodas, mas o fato é que boa parte do que encenou ao longo do seu percurso até essa peça (que está em cartaz até dia 29 no Teatro Garagem) levou algo da abordagem e do arsenal de recursos desse genial diretor uruguaio, aqui radicado.

O teatro dionisíaco de Rodas sempre teve conexão com a música, mormente a partir do seu aspecto rítmico, provocador da dança – a tal ponto que muitos o consideram, antes de tudo, um coreógrafo. Miriam Virna explorou essa conexão à saciedade em sua obra pregressa; sempre, porém, inserindo nela um toque pessoal de humor, algo a distanciar sua produção de um certo pendor ao drama presente na obra do seu mestre: necessidade de diálogo com o presente, o atual, o vivo, mais do que com o eterno ou arquetípico.

Super Só conserva toda essa verve. Poderíamos, porventura, destrinchar esse novo espetáculo nesses aspectos antes vigentes – dança, canto, humor, contemporaneidade, algum deboche – sendo acrescidos às geniais projeções de João Angelini – codiretor desse espetáculo junto, ainda, com William Ferreira – numa parceria que já vem de algum tempo. Poderíamos igualmente elencar outras parcerias reeditadas com outros grandes profissionais locais (Marcos Barozzi nos figurinos, Dalton Camargos na iluminação). Não poderíamos, em momento algum, deixar também de notar o trabalho com atores monstruosos (por mais que muito jovens), tal como é o caso de Roberto Dagô e Elisa Carneiro. Em suma: teatro a pleno vapor.

Entretanto, creio que não conseguiríamos entender, na sua plenitude, esse espetáculo se não nos déssemos conta de que Miriam Virna, a certa altura de sua andança, aderiu à música, tornando-se uma compositora. Talvez, adesão não seja bem a palavra certa, dado o fato de que ela estudou música quando mais nova; digamos, melhor, que se trata de uma aceitação agora plena e definitiva. Super Só tem, no seu subtítulo, a denominação de videoclipe; isso porque, no fundo (ou em grande parte) o espetáculo como um todo se trata da encenação de diversas canções, por ela compostas. Tudo bem que há uma trama, que há diálogos e personagens; porém, não se trata de uma peça: a dramaturgia presente é, eu diria, a matéria que escorre, quase como um excedente, das canções, desse conjunto que é estritamente musical.

Canções às quais é preciso dar atenção. São autossuficientes e geniais. E respondem a um universo único, de forma única. Algo que, na minha opinião, só pôde vir à tona a partir da vivência que Miriam teve, por alguns (últimos) anos, fora de Brasília, no Rio de Janeiro. Note-se: a peça (que não é peça) acontece em Brasília. Contudo, sua visada, humana, é uma que dificilmente é acessível a um(a) filho(a) desta cidade vocacionada ao sobre-humano, ao super.

Super Só é um super-herói que, como me explicou a autora antes que eu o assistisse, paira, como algo virtual, ao longo do espetáculo. Eu já conhecia a canção homóloga e sabia tratar-se de alguém com o terrível dom de congelar o sentimento alheio, de destruir o gozo da vida – essa decorrência natural do encontro entre pessoas. De onde saiu esse terrível ser, qual a realidade a que corresponde, do quê é a expressão, o fruto? Para mim está claro que a resposta está nesta cidade tão ordenada, tão repleta de caixas, setores.

Brasília é cidade difícil, em particular para as artes – que precisam de burburinho, de público. Porém, volta e meia daqui surgem artistas, criadores, destinados a nos marcar, por gerações a fio. Pense-se num Renato Russo (a quem tive a oportunidade de conhecer). Miriam Virna, com o seu Super Só, demonstra estar à altura desse ícone da música pop brasileira. A correspondência entre ambos não está, contudo, meramente no fato da mesma origem mas sim no próprio campo em que ambos jogam – ou jogaram, no caso dele – e que, mais do que a música ou a poesia é, como deixa claro a narradora de Super Só, o campo da ficção, da imaginação perpassada pela palavra. Uma diferença, porém – e uma vantagem significativa –, é que ela, por força do teatro, está cercada de gente (e que gente!).

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A Boa Política, de Renato Janine Ribeiro

SEGUINDO EM FRENTE

Renato Janine Ribeiro está com livro novo na praça. Essa é uma informação que concerne a todos os que buscam boas reflexões a respeito do presente, daquilo que cabe ser feito com a liberdade de que se dispõe, seja coletiva, seja individual. Posto de outra forma, a todos os que têm interesse em política e vislumbram alguma conexão entre esse “universo” e aquele das ações individuais. O título do livro já atiça, bastante: A boa política – ensaios sobre a democracia na era da internet (Companhia das Letras, 2017). O que se segue é uma breve resenha dessa obra.

Porém, tenho antes que avisar que, incluindo-me nesse grupo acima, de virtuais interessados, a notícia desse novo livro também me atinge no aspecto particular de que esse autor foi alguém que já teve uma grande importância na minha vida, tendo aberto a porta para meu doutorado em Ética e Filosofia Política no Departamento de Filosofia da USP; uma experiência das mais ricas, mas que acabou se revestindo de frustração na medida em que, no meio do caminho, nos desentendemos quanto às obrigações entre um orientador e um orientando: até onde sei, ele nunca chegou a ler minha tese, que acabou sendo defendida e aprovada “com distinção” por uma banca em que o posto que seria o seu acabou sendo ocupado por um outro professor. Esse episódio aconteceu há cerca de dez anos: tempo suficiente para reacender um interesse que, tendo sido dos mais altos, subitamente se extinguiu, em função do ocorrido.

Janine Ribeiro, por sua vez, assumiu, por um curto período, o Ministério da Educação no final do primeiro mandato de Dilma Rousseff, bem como uma das diretorias da CAPES, por mais tempo, ao longo do governo Lula. Esse é também um dado que necessita ser lembrado tanto por quem vá ler, de forma impessoal, os comentários que teço a seguir, quanto por aqueles que possam se importar com o que pode haver de pessoal, de minha parte, neles. Os que me acompanham nestas páginas e nas redes sociais, bem como no trato diário e direto, creio que já saibam da minha desaprovação tanto desse governo quanto do de seu antecessor e artífice, Lula – e a consequente aprovação da saída dessa da Presidência. A princípio, se já tive um alinhamento político e ideológico com o autor de A boa política, hoje eu me veria no campo daqueles que não veem suas colaborações governamentais com bons olhos.

O espírito, portanto, inicial de leitura desse livro, como pode facilmente se concluir, foi o de um considerável “pé atrás”. Esse espírito, entretanto, talvez seja aquele com que se deve ler toda e qualquer obra. É isso o que faz um bom leitor – e é isso o que todo autor verdadeiramente comprometido com o que escreve, busca.

O impeachment de Dilma Rousseff, com tudo o que o cercou – aquilo que se convencionou chamar de “conjunto da obra”, a corrupção toda que os governos do PT permitiram que se instaurasse, bem como os crimes de responsabilidade que ela de fato cometeu – configurou um grande quebra-cabeças intelectual a que todos fomos submetidos no passado recente. Um termo chave emergido dessa provação coletiva foi e continua a ser o da “honestidade intelectual”. Honestidade essa que se confunde com uma certa liberdade do pensar e a coragem para verbalizar as conclusões a que se chega: carecemos dela para atravessarmos o mar. No caso do livro de Ribeiro, a pergunta quanto à sua presença é inescapável na leitura a ser feita: consegue o seu autor se manter minimamente viável, crível, tendo frequentado, como frequentou, esses governos desonestos? Essa preocupação se apresenta a cada curva dessa imbrincada coletânea de ensaios, tanto na via do leitor quanto, parece ter ocorrido, na do escritor.

Sim, existe o argumento de que os ensaios foram escritos ao longo e cobrem majoritariamente um período anterior ao da “crise”. Contudo, é explícito o propósito de que eles componham um conjunto a ser lido, também, agora, de que falem a um presente (todo um trabalho de atualização foi feito nesse sentido). E eles não só falam, mas também se atrevem a apontar as diretrizes para um futuro.

As questões da liberdade e da coragem quando ligadas ao pensamento são deveras importantes: serviram-nos a todos, nos últimos anos, naquilo a que o autor chama de fog of war, as brumas da guerra ou, se quisermos, a corda bamba. Mas não só a nós: também a esse autor, posto que o livro todo possui aquela qualidade que é uma marca registrada da sua produção: a capacidade de ventilar uma grande gama de temas e hipóteses de forma destemida e inteligente, recorrendo, para tal, a todo o cabedal de conhecimento da nossa cultura ocidental. Impressiona a capacidade desse autor de promover, ao longo dos seus ensaios, deslocamentos entre campos e épocas do conhecimento, ao mesmo tempo em que nunca se deixa tomar pela erudição ostentatória: seu foco sempre é a política; apenas, ele a submete a uma máquina com muito mais recursos do que os de uma ciência ou uma tradição filosófica particular. Uma máquina que estica, encolhe, amassa, repuxa, joga pra um lado e pro outro, faz quicar e também rodopiar esse objeto, essa circunstância perene ao homem.

Pensadores, em meio a brumas, também se enganam: aqui e ali há um lampejo de reconhecimento disso – na menção feita a Thomas Jefferson, que tendo lançado as bases da democracia norte-americana, ainda assim foi bastante desumano no trato com os seus criados (capítulo 5); ou, então, quando, admitindo-se um pensador da democracia, reconhece que essa pode errar, mas, ainda assim, ter validade (capítulo 12).

Olhando retrospectivamente, quais são as credenciais de Ribeiro no campo do livre-pensamento? Talvez a mais evidente – e uma que eu, sociólogo oriundo da mais aguerrida Escola de Frankfurt, custei a captar – seja o fato de que ele jamais foi um pensador antiliberal. O livro atual, para que não restem dúvidas, demonstra isso com todas as letras: reconheça-se, diz ele, ao liberalismo, ser o porta-voz por excelência da queixa pela igualdade de condições. Uma visão assim adulta do liberalismo, convenhamos, já constitui por si só uma distinção em meio à vasta incompreensão – um rigoroso tabu, na verdade – que a academia ordinariamente impõe a essa linha de pensamento.

A receita de Ribeiro, destilada ao longo dos anos, entretanto, chama para uma eventual confluência entre essa almejada igualdade de condições que, como ele diz, deveria se dar no início do processo de produção social, com uma pensada para acontecer, na matriz socialista, no seu final. Ele enxerga isso como possível – numa mescla entre concorrência e colaboração –; e um dos eixos a dar suporte à política que ele entende como boa (o outro sendo o que se estende entre democracia e república).

Mas há também a questão das liberdades individuais, dos direitos humanos – normalmente antepostos a um poder, seja esse o da lei ou dos desígnios dos tiranos. Pela via do estudo de Thomas Hobbes, o pensamento de Ribeiro sempre se manteve em marcha, sempre rendeu frutos. A separação entre direito e dever (ou lei) que esse filósofo da soberania estipulou como essencial, Ribeiro a introjetou, mas somente para poder pô-la, permanentemente, em perspectiva, como se faz com uma ferramenta de trabalho. Hoje, com a consolidação cada vez mais irreversível dos direitos individuais, o espaço para o que diz respeito a todos – e que envolve alguma dose de entrega pessoal, de abdicação de liberdade, de obrigações – se vê sob o signo de uma obsolescência, de acentuado refluxo. Aí reside um perigo; e eis, a meu ver, um dos principais recados que Ribeiro, na senda de Benjamin Constant (que se deu conta disso já no século XIX), nos traz.

Caminhamos atualmente para uma forma de vida em que muito pouco nos obriga a pensar aquilo que podemos fazer em conjunto. No modelo liberal, a defesa do indivíduo – tão importante como é e tão em sintonia com a democracia naquilo que ela tem de ligação com o desejo, força motriz da ação – acaba por fazer com que nos sintamos satisfeitos com o quase exclusivo (não são palavras desse autor) olhar para o nosso próprio umbigo; isso coloca em risco a democracia em si. A boa política, conforme a define Ribeiro, se calca no abandono do preconceito. No entanto, na medida em que deixamos de estar ligados uns aos outros, de nos frequentarmos e nos depararmos coletivamente com o futuro (ficando satisfeitos meramente com o fato de que pagamos impostos) tendemos – e isso não é um raciocínio que ele levante, mas que surge a partir do que ele coloca – a nos alimentar desse mau componente a ser evitado – e que está presente, naturalmente, em cada um. O espaço da ágora está cada vez mais restrito, ainda que possuamos uma ferramenta tecnológica tão propícia à troca como a internet: o “homem sem interlocução”, “destinatário único de mensagens que não lhe permitem dialogar com outrem” (Capítulo 6), que ele cogita, assusta!

Acho que essa é uma questão de extrema validade para o momento presente no nosso país. As tribulações advindas dos governos Lula e Dilma têm estabelecido uma relativa clareza quanto à necessidade de retorno a uma política econômica pautada pela responsabilidade com as contas públicas. Vislumbra-se hoje um modelo econômico que dialogue com as forças do mercado, anulando o capitalismo de compadrio que se instaurou ao longo de mais de uma década de governos petistas[1]. Mas isso implica em que não tenhamos modelo político algum, projeto coletivo de qualquer natureza?

Não sei se comungo com a quarta agenda que Ribeiro propõe (capítulos 17 e 18), principalmente naquilo que ela se concebe como parte de uma história de agendas hegemônicas sucessivas da nossa jovem democracia. Essa história me parece sujeita a questionamentos. Mas estou de pleno acordo em que o Estado brasileiro necessita urgentemente se rearticular enquanto promotor ou facilitador de serviços (educação, saúde, segurança, mobilidade, bem-estar) que não são matéria estranha à democracia em si. Essa ideia, aliás, de um entendimento mais amplo sobre esse regime, em que se vejam incluídas as demandas que ele chama de sociais – não só aquelas da formalidade do rito político –, de caráter plural, é outro ponto forte da teorização empreendida por Ribeiro, presente em diversos capítulos (a exemplo dos de número 2, 3, 7, 11, 13 e 17). Elas apontam para uma questão perturbadora (num bom sentido): a de se a política pode ter para si, em algum instante, o modelo da festa, carregar mais a marca da alegria do que a do aborrecimento.

Essa questão está posta no ensaio “O Brasil e a democracia de protesto” (Capítulo 17), onde Ribeiro analisa os protestos de meados de 2013, tão inesperados a ponto de ele compará-los com os de maio de 1968 na França, mundialmente reconhecidos como tal. Não haveria como um livro sobre a democracia nos dias atuais, sendo escrito no contexto brasileiro, não abordar esses episódios que, por certo, engatilharam a crise política que lhes sucedeu. Confesso que temia, nessa leitura, topar com uma interpretação do tipo “as classes médias reagindo diante da mudança na estrutura de classes, quando os mais pobres passaram a usufruir das mesmas benesses” (Fernando Haddad). Afortunadamente, a interpretação dada por Ribeiro não foi por aí, e sim pela compreensão da queixa generalizada (inclusiva das classes médias) por uma destinação mais eficaz dos impostos pagos. Ou seja: um problema relativo aos serviços oferecidos pelo Estado; não uma questão de “fascismo” ou falta de generosidade da classe média (Ruy Fausto). Bravo!

Um outro ensaio que desnorteia (igualmente num sentido bom) é o que se intitula “Pode existir uma utopia pós-moderna?” (Capitulo 10). Se formos ver, nesse ensaio há sintonia com o que é proposto no tocante à alegria na política como fruto do exercício, tão próprio a uma democracia em sentido ampliado, do que é múltiplo: a partir de Thomas Morus, formulador de uma das duas daquilo que ele chama de aberturas (no sentido enxadrístico) da modernidade política, e da sua Utopia, caracterizada pelo forte planejamento, ele se pergunta se não seria hoje possível um cálculo que estabelecesse um limite máximo de horas de trabalho que um indivíduo necessitaria cumprir ao longo da vida para que todos desfrutassem(os) de um padrão aceitável. Seriam bem menos horas do que as atuais, dando-nos uma carga considerável de tempo livre, de liberdade.

Esse seria, contudo, ainda, um projeto “moderno”. A qualidade pós-moderna por ele aventada consistiria na extensão do raciocínio libertário no sentido de que esse (novo) total de horas poderia muito bem ser cumprido com ocupações diferentes: por que há de haver a obrigação de termos, ao longo da vida, uma única profissão? Algo próximo também poderia se dar no tocante a nacionalidades ou a estados civis: “identidades podem ser, não digo provisórias, porque elas se assumem, provavelmente, como eternas enquanto durem – mas sucessivas, sem maiores dramas.” A quebra do padrão identitário, prossegue Ribeiro, talvez constitua hoje uma ameaça muito maior para a estrutura de poder que sustenta o capitalismo do que uma queda produtiva ou nos lucros, posto que as identidades facilitam o controle. Pergunto: tem como ir mais longe do que isso no pensamento?

Mas se fosse para apontar o principal triunfo do pensamento de Ribeiro eu apontaria para algo que aprendi nos anos em que com ele me relacionei, a lição-mor, digamos, que tirei dessa nossa aproximação e que diz respeito ao sentido da política. Essa lição, que ficou e ficará para sempre comigo, está resumida no quase final do ensaio “Pode haver uma política que não seja democrática?” (Capítulo 12), quando esse autor assim enuncia:

“Quando dizemos que a democracia é o regime da linguagem, aceitamos, portanto, que as pessoas dialoguem, discutam, deliberem, mas o que mais aceitamos é que ela não seja o regime da verdade. Pois renunciamos à pretensão de uma política que diga a verdade. A verdade se refere ao que é, foi ou será. Ora, não há política sem a dimensão do futuro, que sempre é o campo do inseguro. Não temos certeza do que virá. Podemos saber o que é, não o que não é. A política é lugar da opinião, não da verdade – de crenças e valores, mais do que de conhecimento. Evidentemente, os conhecimentos, em especial a ciência, podem ajudar a política, mas o verbo é exatamente este: ajudar. O saber tem, na política, um papel subordinado.” (Grifos do autor).

[1] A certa altura, aliás (Capítulo 8), Ribeiro menciona, elogiosamente, a atuação do BNDES sob Dilma Rousseff – ela teria inspirado um livro no qual ele vê méritos –, um grande escorregão, a meu ver. Ao mesmo tempo, contudo, logo em seguida ele lamenta que a inclusão social (um forte trunfo petista que se faz presente ao longo do livro) tenha se dado, nessa proposta, pelo viés preponderante do consumo (em detrimento da educação e da cultura).

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