Marighella, de Wagner Moura

O PONTO EXATO EM QUE TUDO SE PÕE A PERDER

Em sua entrevista ao Roda Viva, Wagner Moura, diretor de Marighella, defendeu-se da acusação de maniqueísmo nessa sua estreia atrás das câmeras. Assisti ao filme ontem e tenho a impressão de que concordo com ele: por mais difícil que isso seja, num filme eminentemente político, não há o endosso dessa ou daquela corrente política, não há o traço de uma militância. O que há é uma simpatia por essa figura inconformada com as injustiças à sua volta, ao mesmo tempo que líder por natureza.

Em outros termos, um personagem cuja história há muito já deveria ter sido contada pelo cinema brasileiro – afinal, a sua morte se deu há mais de cinquenta anos. Digo o cinema, mas isso também se aplica a outras formas de expressão e de investigação da verdade. A bela canção de Caetano Veloso, “Um comunista” (2012), a respeito desse personagem, é mais ou menos contemporânea ao início das filmagens (2014), o mesmo ocorrendo com a biografia que inspirou Moura, escrita por Mário Magalhães. Fazendo as contas, são 43 anos, vai – de silêncio.

Como explicar isso? Acho que uma das respostas está no próprio filme, que não edulcora a violência vivida pelo personagem e por aqueles à sua volta. O Brasil é um país violento, historicamente violento, rotineiramente violento, onde se resolve muita coisa a bala, inclusive a política e suas contendas. Há cenas fortes de tortura, espancamentos, tiroteios e assassinatos, como que à revelia das demais (a partir da primeira e culminando com a última), em que temos um pai, um marido, um amigo cioso e brincalhão, um brasileiro genuinamente gentil (mas também destemido). Em suma, é como se a violência, presença palpável e obrigatória em toda narrativa séria a respeito dos acontecimentos que aqui se dão, impedisse (ou retardasse) a tematização, por prosa e verso, de vidas que poderiam ser exemplos.

Vidas são construções complexas. Consequentemente, o seu alcance justo se dá somente por meio de narrativas dispostas a adentrar as zonas cinzas ou, se quisermos, escuras. Nem tudo nelas é luz; mas o propósito de aprender junto a elas é um propósito iluminista, sim. Porém, quando a violência se faz presente, parece que tudo isso vai pro espaço, as águas se turvam, uma contaminação se dá, pondo tudo a perder. Os exemplos ficam só para os próximos, aqueles que tiveram a oportunidade de conviver de modo direto.

Agora, no caso de Marighella, tem duas particularidades que chamam a atenção. A primeira delas é que ele foi um político. Não era um mero guerrilheiro, como eu o classificava, mas sim um deputado federal constituinte, alguém que se elegeu mediante uma candidatura dentro do sistema democrático. Era um parlamentar. A segunda particularidade é a de que ele acabou virando um guerrilheiro, autor, inclusive, de um “Manual de guerrilha urbana”. Ou seja, alguém que, a certa altura, avaliou que não bastavam as palavras e que era preciso recorrer às armas e a atos em que a força física está presente de forma preponderante. 

Acho que esse é justo o ponto em que o Marighella de Moura se descola do referido maniqueísmo (ou da hagiografia, uma outra acusação que ele enfrenta): a opção do uso da violência como forma de luta política não me parece que seja algo a ser subscrito por esse diretor. É (ou foi) algo do personagem do seu filme, ponto. Por conseguinte, poderíamos dizer que essa obra não sofre daquela contaminação a que já me referi – uma contaminação da qual a política dita de esquerda, infelizmente e mesmo que de forma inconfessa, não consegue escapar.

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Sobre o poder da oração

UM INCIDENTE FORA DE LUGAR

Sou ateu e, aos 55 anos e em meio a uma pandemia, me deparo com o fenômeno da morte à minha volta. Sim, eu já tenho algumas mortes impactantes em minha jornada pela vida, a da minha mãe, há 15 anos, sendo a principal. Seu irmão, meu querido mas longínquo tio Juan, a sua esposa, Itna, e dois cachorros (um deles há três dias) também constam dessa penosa lista. Porém, eu pouco me indaguei mais a fundo, até este momento, sobre esse tema. Pra um ateu, tudo acaba nesse momento do último sopro e a pergunta que fica é: você dá conta?

Com a Covid-19 o tema da morte tem frequentado grupos de whatsapp e outras redes sociais. Pessoas em perigo ou com parentes idem solicitam, aos seus pares, orações. Eu mesmo acabo de fazê-lo pelo meu pai, que contraiu a doença e está, neste momento, num leito de hospital. Um outro participante do grupo onde postei essa solicitação, cujo pai também se encontra na mesma peleja, o havia feito antes. E o que me motivou a escrever este texto está na reação de uma das participantes (uma terceira figura) a esse pedido, solicitando-lhe o nome, a fim de poder incluí-lo nas suas preces.

Esse é o ponto em que começa a minha, como dizer, (santa e perene) ignorância. Dado o fato de eu não orar, essa requisição me bateu por um lado que desembocou no cômico. Dou-me conta que, sendo o cinema (como já afirmei anteriormente em algum texto) a minha igreja, eu de imediato iniciei uma cena na minha cabeça: em alguma repartição no céu, um funcionário vestido com terno, gravata e tudo, recebe a mensagem e, tendo a incumbência de fazê-la chegar ao Destinatário – seja por meio de e-mail, fax, whatasapp ou memorando/pergaminho que ele insere em alguma tubulação –, a primeira coisa que faz é verificar se o nome do beneficiário consta ou não da solicitação. Caso não conste, imagino que a mensagem vá para uma espécie de arquivo-morto, não chegando jamais aonde devia. É preciso saber como funcionam as coisas lá em cima; caso contrário, tempo perdido! Há solenidades e protocolos a serem seguidos…

Peço, por essa torpeza, mil desculpas. Na verdade, como pude me instruir ao comentar isso com uma outra pessoa, o que ocorre não tem nada a ver com filmes, mas sim com o ritual da oração. Creio que uma oração em que, em vez do nome, se peça simplesmente pelo “pai de fulano” também tem o seu lugar, mas a forma “correta” – ou, ao menos, a forma que a muitos foi ensinada como tal – de performar o ritual é com o nome

E ritual é algo muito pessoal, que tem que ser respeitado. Quem não tem o seu? São formas de conjurar energias do cosmos em prol de algo, seja o que for: chegar todos os dias na frente do computador (nosso escritório atual) e abrir essa tela primeiro, depois aquela, depois puxar a informação de uma e inserí-la na outra e seguir assim até o final do expediente; ir, na quadra de tênis, para a posição de saque e lembrar de tudo o que há de se fazer (um balanço do corpo, olhar para a bola quando está lá em cima, amolecer um pouco a munheca, girar o braço com rapidez no golpe), tudo isso é uma exigência para que a bola entre e você tenha alguma chance de ganhar o ponto.

Então, é necessário entender que se alguém te pede o nome do teu pai, ou de quem quer que seja, para incluir em sua oração, esse é o sinal de que aquela pessoa está disposta a fazer – vai fazer – , da forma que acredita ser correta e eficaz, uma ação em prol de um ente querido seu; e não há nada de mais valioso que alguém possa fazer por você. Se um ateu não consegue entender isso, então, meu caro, é melhor ele (você, eu) se desfiliar dessa crença sã e aderir a alguma seita fanática, dentre tantas ao seu alcance, porque lá é o seu lugar, entre os parvos.

Mas não quero fugir do espinhoso tema inicial, a morte, e sobre como essa possa pesar sobre um ateu. Primeiro, sempre é preciso dizer que não é algo que eu deseje, nem pra mim, pros meus e nem pra ninguém. Mas se ela vier – o que é inevitável –, ao quê se apegar, como não sucumbir à dor, à perspectiva da solidão e, principalmente, à ausência de porquês no que tange à vida (o desânimo quanto a ela)? 

Quando eliminamos as narrativas (ou os filmes) sobre um além, quando o tempo regulamentar se esgota, de fato, aos 45 do segundo tempo (salvo alguns acréscimos), eis que, parece-me, que surge o valor do presente, ou melhor, eis que o presente surge em todo o seu valor. E, pra mim, o presente é feito primordialmente de ações, ou gestos, enfim, de algo que se assemelha ao que o artista passa o seu tempo a fazer: coisas que ficam, coisas que perduram uma vez inscritas nas nossas memórias, coisas que são… eternas. Não há morte que possa suplantar a variedade, a profundidade e a beleza das ações e dos gestos que nós podemos fazer em vida. A morte é sempre igual, monótona. Nós, não, nós somos criadores, nós somos capazes, dançarinos cósmicos multifacetados; ela, ela é meramente um incidente fora de lugar.

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Lições

CHEGA DE MAUS-TRATOS

É, atualmente, um tema comum, de escrita e de conversa: o que a pandemia tem nos trazido de lição? Digo “tem nos trazido” e não “nos trouxe”, porque ainda não sabemos por quanto tempo mais teremos que ficar confinados (claro, se não formos covidiotas, esse termo tão preciso que ouvi o outro dia, descrevendo aqueles que insistem que é uma gripezinha e circulam por aí sem medo e sem máscaras, contaminando e sendo contaminados).

O estalo para escrever a esse respeito me veio hoje cedo, ao ver uma foto, no jornal, do Paulo César Pereio, um grande ator brasileiro, que encarnou como poucos o cafajeste (o típico macho brasileiro), sendo vacinado. A explicação para essa precocidade – afinal, estamos ainda no raio das 15 milhões de doses em território nacional, quando serão necessárias mais de 440 milhões – vinha na legenda: ele é um dos moradores do Asilo dos Artistas, no Rio de Janeiro. Pra mim, a lição mais evidente tem a ver com essa aparição repentina (ou nem tanto, já que levamos dez meses nisso) de tudo o que maltratamos, antes, bem antes da chegada da Covid-19, todos aqueles pelos quais o nosso presidente da República, dentro da sua necropolítica, não mexeu uma palha: os artistas e os informais, aqueles que vivem, praticamente, do que o dia (ou a noite) lhes apresenta.

Alguns poderão dizer: como assim, e o auxílio emergencial? E a Lei Aldir Blanc? Em resposta, eu afirmo: ambas iniciativas do Congresso, a contragosto do presidente e dos seus áulicos. Cansamos de ver os seus apelos para as pessoas se jogarem de volta à economia, contando, para tal, com a ilusão da cloroquina e similares, bem como com uma lenda de que brasileiro seria naturalmente imune. Além, é claro, do consolo de que “todos morreremos um dia”.

Artistas são, em grande parte, trabalhadores informais. São pouquíssimos os que têm salário. A maioria se vira, dando aula, criando micro e pequenas empresas de prestação de serviços, empreendimentos de porte suficiente para a sobrevivência, muitas vezes, pessoal. A identidade desses trabalhadores – acostumados a, digamos, uma visibilidade – com o trabalhador informal de baixo ou nenhum reconhecimento – todos os invisíveis de que tratam alguns pesquisadores da área social e que, de repente, explodiram aos olhos dos formuladores de políticas – passa, eu diria, não só pelo aspecto da precariedade contratual que ambos ordinariamente experimentam, mas, também, por um certo vínculo que ambos têm com uma necessária – porque humana – liberdade.

Pois por mais precário que esteja, o informal invisível é dono do próprio nariz. No cálculo dos prós e contras de uma carteira assinada e de um salário mínimo, com toda a aporrinhação de chefe e tudo o mais de um emprego formal, muitas vezes opta-se pela alternativa do serviço diário, mais bem remunerado na hora, mas sem direito a coisa outra alguma – só que podendo avisar que “hoje não vai dar, deixamos pra amanhã” ou mesmo, dependendo das condições do mercado, mandar o chefe babaca praquele lugar quando der na telha.

Já a liberdade do artista é um pouco diferente: ela está inscrita no seu próprio fazer, a arte sendo, como já definiu Mário Pedrosa, “o exercício experimental da liberdade”. Posto de outra forma: se o que resulta da sua produção não for algo que contenha, em alguma medida, liberdade, não é arte. É um tanto mais complexo; e essa complexidade é exatamente o que incomoda a tantos políticos da cepa – autoritária – do presidente. A arte incomoda porque ela é democrática por essência, ela nunca se dá por satisfeita com uma única e definitiva resposta às coisas. 

Os autoritários, quando chegam ao poder, se vislumbram nele para todo o sempre (vide o facínora Trump). Eles acham que são a resposta, que têm a resposta para tudo: não cabem mais críticas, não cabem os que pensam diferente ou se desviam do modelo que eles, autoritários, estabelecem. São, por conseguinte, adversários da democracia, esse regime em que o poder passa, periodicamente, de mão em mão – e em que o exercício de emitir opiniões e de ouvir a voz do outro só torna o conjunto mais rico e mais apto para tomar as melhores decisões.

Situada no universo das tecnologias de poder, a democracia, pode ser clichê dizê-lo, é como uma chama, acessa há aproximadamente 2,5 dezenas de séculos e reavivada de forma quase avassaladora há coisa de 2,5 ou 3,0 séculos. E um anti-clichê está em perceber que a sua manutenção no modo “aceso” recai fortemente sobre esses seres que estão colados à liberdade, mas tão longe de se confundirem com os políticos: os artistas. Os primeiros, levam os louros por tal “serviço” – e há de se reconhecer que alguns, de fato, o prestam, honrando a “profissão” – ; mas são os segundos aqueles que, na essência e no dia-a-dia, não se rendem ou se calam – e que deveriam, por isso, ser tratados com muito mais respeito e ser alvo de maior prestígio.

Claro, há momentos em que eles dão bola fora, como o grupo de atores globais que, há uns anos, estrelou, gratuitamente, um filme sobre a vida da deputada Flordelis (vide reportagem na revista piauí nº 172), uma suposta “santa”, hoje sob acusação de ter matado o marido. No geral, porém, o que vemos está mais próximo do ocorrido com o grupo vocal Boca Livre, recentemente dissolvido, após tantos anos, porque somente um entre os seus quatro históricos componentes aderiu às sandices do bolsonarismo, inclusive declarando que não se vacinará. Ou seja, um teto máximo de tolerância, no setor, em volta dos 25% para roubadas.

Estamos errados, como sociedade em busca de pleno exercício da democracia, no desdém que damos à cultura e aos seus principais personagens, os artistas. Essa, a lição número um que eu tiro deste nosso último semi-giro em volta do sol.

Quanto ao devido reconhecimento do bravo povo brasileiro, na figura dos quase 60 milhões de trabalhadores informais e invisíveis – esses que conseguem, não sei como, se virar com R$ 600 ou R$ 1.200 ao mês por domicílio (apinhado) –, a principal política pública é, sem dúvida, a geração de mais e melhores empregos; o que passa, necessariamente, pela iniciativa privada e pela livre-concorrência. É claro, essa é uma equação nada fácil; sabemos o quanto há de falta de escrúpulos nesse setor – mas não temos tido, infelizmente, provas reiteradas de que isso também existe, ao longo de todo o espectro político, no setor público?

Tendo ciência de que em lugar algum há supremacia beatífica, creio que o que este país precisa é apostar no seu povo. Nesses 60 milhões que, todo mês, realizam milagres. São, certamente, muito melhores administradores do que outros tantos com esse título universitário. Por outro lado, na parcela de empreendedores honestos que só não alçam voos mais altos porque não é nada fácil, em absoluto, fazer negócios perante um Estado cartorial e ineficiente, que opera à base de inconfessáveis favorecimentos e demais (e variadas) mutretas.

Ambas essas, acima, são circunstâncias que já estavam postas bem antes da pandemia, mas que saltaram à vista de maneira definitiva no seu decorrer.

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The Crown, seriado

A ARTE DA CARA-DE-PAISAGEM

Rever (com urgência) os seus conceitos, essa máxima gestada nas pranchetas da propaganda e incorporada, desde então, à nossa cartilha mental de sobrevivência diária, talvez nunca tenha tido maior exemplificação do que no seriado da Netflix The Crown. “Ser” uma “rainha da Inglaterra”, depois dele, passou a ter um significado diametralmente oposto ao até então vigente – sinônimo da irrelevância, do “zero à esquerda” –, o que não é um feito de menor importância.

O seriado mostra os diversos aspectos dessa função que, tal como a coroa que o intitula, nada tem de leve, afetando não só ao regente (aquele(a) que empresta o seu pescoço para balançar o artefato sagrado), mas todo o seu entorno familiar. Uma família real, como é o caso da inglesa, apesar de ser composta – seja em versão masculina ou feminina – por pais, filhos, irmãos, tios, avôs, maridos e etc., é algo de inteiramente outro, não deixando sobra alguma para esses papeis tal como são vividos pela imensa maioria de nós, mortais humanos.

É um imenso fardo, principalmente para a figura central, rei ou rainha. Tanto é que, no caso em tela, o tio de Elizabeth II, Edward, quando era a sua vez de assumir o posto, abdicou. Teria ele, caso assumisse, que abrir mão de um grande amor, já que não era aceitável que tivesse como esposa uma mulher divorciada. Foi seu irmão mais novo, pai de Elizabeth, o rei George VI, que teve que preencher a vaga. E esse é só um exemplo entre vários, na saga exposta em The Crown, em que protocolos rígidos se chocam com desejos de ordem pessoal.

Por falar em desejos, lembro do clássico estudo do professor da UnB e psicanalista Francisco Martins a respeito dos “nomes próprios”: dar nome a alguém é revelador de toda uma carga de desejo e, portanto, um dado primordial a ser levado em conta numa análise. E foi justo aí que o Duque de Edimburgo, o marido de Elizabeth II, teve as suas asas cortadas, pois se ela, com o casamento, tivesse assumido o seu sobrenome – que, aliás, lhe sobreveio por adoção –, a linhagem Windsor à frente do trono seria quebrada. Ao primeiro sinal dessa – quiçá inocente – intenção, mesmo que ocorrido em distante periferia, a rede de informações da coroa é acionada, consegue detectar o perigo e seus “soldados” passam agir para neutraliza-la. O fardo é pesado, mas não falta quem o queira para si e pros seus, com consequências sempre imprevisíveis.

A monarquia pressupõe um conjunto de regras. Boa parte das quais aleatórias, mas regras. Está longe de ser uma meritocracia, por exemplo: não é quem está mais apto ou apta a governar aquele que acaba fazendo-o, mas sim aquele em cujo “colo” recai a responsabilidade. Veja-se o caso da mãe de Elizabeth II, que foi esposa do rei (rainha, portanto) durante um bom período (e, justamente, durante a Segunda Guerra Mundial). Após a morte do marido, seria, talvez, a pessoa mais preparada para assumir o posto em função de todo o conhecimento adquirido; mas que nada: a função cabia a sua filha, quase uma pirralha – mesmo que, desde muito cedo, treinada para tal.

No caso inglês, desde o século dezessete, o que se tem é uma monarquia constitucional, na qual o monarca convive, no que tange às decisões sobre os rumos da nação, com um parlamento de feições, além de legislativa, também executiva. O rei ou rainha é um dos componentes do arranjo constitucional de poder, mas não é ele quem, de fato, governa. Na representação que lhe cabe, ele assegura o povo de que o governo, essencialmente na figura do seu primeiro-ministro, cumpra bem o seu papel. Para tanto, desde cedo é instruído (exclusivamente, como fica claro) visando a observância dos preceitos constitucionais; muito precocemente torna-se capaz, para traçar uma equivalência meio sem-vergonha (mas não totalmente desprovida de razão), de atuar como um magistrado de tribunal superior – e em clave monocrática.

Mas, se fosse só isso, seria fácil – a despeito de, vez por outra, ter que passar um pito em figuras do calibre de um Winston Churchill. O que mais custa é a decorrência, em nível pessoal, dessa anulação de si a que a família toda se vê obrigada. O rei ou rainha é, para todos, esse personagem 24 horas. Se, com muito cuidado, criteriosamente se cerca de auxiliares tal qual um general se cerca de uma tropa, por outro lado, são sempre o seu corpo, os seus gestos e as suas caras os que são levados em conta. Ele ou ela está, praticamente sempre, no público; e qualquer expressão sua recebe leituras sobre as quais deixa de ter – como qualquer um de nós o tem – domínio. Todo gesto precisa, portanto, de um máximo cálculo. Nada pode indicar qualquer preferência que seja, principalmente nesse campo tão demandante e tão próximo, até mesmo diário, que é o da política.

Não é qualquer um que segura uma peteca dessas. 

The Crown é uma senhora, espetacular, etnografia da realeza britânica.

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The Young/New Pope, de Paolo Sorrentino

O CINEMA, TALVEZ EXTINTO, SEGUE TENDO O QUE NOS DIZER

Uma amiga fez a consulta no Facebook sobre alguma série em streaming que merecesse ser vista, mas que não fosse norte-americana. Sem sequer piscar, recomendei o pacote The Young Pope/The New Pope, concebida e realizada pelo italiano Paolo Sorrentino, disponível na Fox Premium. Na época (uns dias atrás), eu não havia terminado de vê-la, mas era só porque, a tempos, estava reservando o desfecho, com o John Malkovich como papa, como quem reserva uma iguaria.

A série, fruto da imaginação de Sorrentino, é sobre dois papas que assumem, nos dias atuais, a função. Sorrentino é o cineasta de Roma da atualidade (sucessor de outros tantos, dentro os quais destaco Fellini), o que quase lhe dá, por tabela, o título de melhor cineasta do mundo. Ele filmou os poderosos locais (e, portanto, da Itália), sempre a partir da sua imaginação, sejam eles reais ou imaginários. As ruinas da cidade outrora centro de tudo, imperiais, assim como o luxo dos interiores dos seus palazzi, fornecem o cenário ideal para suas tramas políticas no sentido mais justo, que é aquele que se pergunta: para aonde rumar?

E, em se falando de poderosos e de Roma, como deixar de fora o(s) papa(s)? E, subsidiariamente, como ter feito isso no formato, antigo, de filmes com duração de, no máximo, três horas? O encaixe do formato com o assunto é o primeiro ponto a ser registrado nessa feliz jornada.

Em seguida, claro, não poderia deixar de ser, uma construção de personagens fortíssimos, partindo do Lenny Belardo, interpretado por Jude Law, o Young Pope que dá início à trama. O papel de papa, nos dias de hoje, não pode se confundir com o de alguém que não chegue com uma nova mensagem – Francisco que o diga. Esse é um pré-requisito de verossimilhança para qualquer personagem que o represente. E Belardo, um norte-americano, chega, de fato, causando, propondo, em nome da salvação da Igreja Católica, uma volta aos seus primórdios, um resgate do “mistério”. Um mistério, inclusive, diga-se, que ele cultiva – não se trata de uma balela, um truque. Milagres? Acontecem, todos sabemos… (no fundo, é sobre isso que são os filmes desse cineasta pra lá de mundano).

O outro personagem, sensacional, é o do cardeal Angelo Voiello (vivido pelo ótimo ator italiano Silvio Orlando), eterno candidato ao papado. Ele é o secretário de Estado do Vaticano mais longevo da história, o cara que detém o poder lá dentro, administrando uma verdadeira fauna; e que manipula, manipula, mas não emplaca. Evidentemente, Belardo terá que enquadrar Voiello se quiser fazer o que pretende. Um rico choque de vontades daí decorre, com diálogos, como sempre, soberbos. Acabamos enxergando nele, Voiello, a própria instituição eclesiástica; bastante, quem diria, maquiavélica – e aqui quem vos escreve é um fã incondicional desse pensador florentino.

De impasse em impasse, chega-se no papa de Malkovich, o “New” que dá título à derradeira temporada da série. Trata-se de um egresso da aristocracia britânica, uma cartada quase desesperada, por parte do conclave de cardeais (Voiello), de restauração, ao menos, da fachada, depois do choque imposto pelo jovem órfão norte-americano (adepto, no que tange aos costumes pessoais, a coca-colas e cigarros). Uma esperança, mas que, aparte o bom discurso – o discurso da busca da conciliação, da temperança, da acolhida do outro –, porta máculas que se revelam gradualmente – e que não deixam de ser acompanhadas por uma redenção pessoal (como todas o são).

Ao fim e ao cabo, temos um senhor ensaio sobre essa pergunta feita acima: pra aonde rumar? Uma outra forma de enuncia-la, à la Lenin, talvez fosse “o que fazer?”. Mas, também, poderíamos, no lugar, invocar um Foucault é indagar: como lidar com esse fenômeno, o poder? É, eu diria, a pergunta do momento. As respostas, eu lhes asseguro, lá estão.

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Um sonho

DEPOIS DE COROA, SOBRE CORONAS E COROAS

Há uns anos – por volta de uns 8, talvez mais – eu tive um sonho ao dormir. Sonho medonho: eu estava na África como uma espécie de voluntário e, ao mesmo tempo, cientista. De repente, dei-me conta de que uma peste muito poderosa – causadora de uma eventual pandemia – estava em ação a partir daquele epicentro. Era gravíssima, dei o alerta; as pessoas começavam a morrer aos montes e o único refúgio era o interior de uma casa – agora já em Brasília – que, dou-me conta agora, é muito parecida com a casa que construí nestes anos, lugar de onde escrevo neste momento. Lembro que ainda tive que correr para poder fechar, a tempo, todas as portas e janelas e nos trancarmos, eu e minha companheira, lá (aqui) dentro. Foi nesse momento que acordei, perturbadíssimo.

Fã do Freud que sou, passei horas e mais horas tentando interpretar esse sonho. Foram anos de intepretação até que, num certo ponto, sem nem perceber, o tal pesadelo caiu no esquecimento. Sonho premonitório, indicando que eu talvez tenha uma veia profética? Não, não me deixo arrastar por uma sereia tão canastrona. Um amigo me informa que há um bom tempo esta ameaça, agora tornada realidade, estava no radar da ciência, respondendo pelo nome de Evento 201 – ou seja, aquele evento para além dos duzentos casos de surtos virais que, todo ano, vinham, nos últimos tempos, pipocando pelo mundo, e que não tinham empuxo suficiente para sair do regional. Uma hora, tinha que acontecer, como efeito colateral desta facilidade que hoje vivemos de, junto com os nossos vírus familiares, circular pelo globo.

Neste momento, o que me resta, além de aguardar, em casa, que consigamos vencer esse SARS-CoV-2? Bom, quem sabe, uma vez que há tanta semelhança entre o presente e esse passado que ficou para trás, retornar ao sonho medonho em busca de um possível significado.

Recordo a todos que eu passei anos estudando a obra de Michel Foucault, e que isso redundou na minha tese de doutorado, sobre o conceito de liberdade segundo esse pensador. Dentre as conclusões que tirei dessa empreitada, uma das principais tomou forma, plenamente, somente a posteriori: Foucault foi um pensador, acima de tudo, político e a sua obra ficará para os séculos por vir tal qual a de Karl Marx (que alguns – talvez a começar dele próprio –  por muito tempo julgaram ser um pensador da economia). Só que, diferente do alemão, ele tomou para si tentar entender aquilo que está no olho do furacão da política: o poder.

O poder é um fenômeno social, o que significa que, para que ele exista, precisa haver mais de uma pessoa envolvida. E uma segunda característica é a de que ele não é substância, mas sim verbo: ele não é algo para alguém possuir, mas sim para alguém exercer, dando sempre lugar a uma relação (ou relações). Essa forma de enxergar esse fenômeno, permitiu a Foucault historia-lo, ou seja, reconta-lo em sua variação ao longo do tempo e do espaço: em tal lugar e em tal momento, ele era assim exercido. A sua metodologia de pesquisa, portanto, era de natureza histórica.

Houve, porém, um pequeno (sic) parêntese antes que se tenha chegado a esse ponto, que só ocorre no início dos anos 1970 – e ao qual foi dado, pelo próprio Foucault, o nome de Genealogia do Poder. Foucault fez uso das técnicas de pesquisa dos historiadores antes disso naquilo que chamou de Arqueologia do Saber; e que tem como objeto, não o poder, mas os saberes em sua pretensão científica. Com esse método (mais ou menos) em mãos lançou-se em fins da década de 1950 e ao longo de toda a década seguinte a explicitar, em diversos campos (inclusive na medicina), a produção da verdade no Ocidente moderno. O método serviu-lhe para que ele pudesse sair de dentro desse turbilhão onde a verdade é gestada e administrada, e, em seguida, pudesse descrever, como “historiador”, a “verdade” desse processo! Há enorme novidade aí, não sei se notam, posto que, até então, a verdade sempre foi algo que, a rigor, se descobre – não algo que se fabrica! Foucault deslocou, com sua Arqueologia, o próprio estatuto, ou lugar, da verdade, deixando essa de estar onde sempre se supôs que estivesse (os sábios).

A Genealogia do Poder também é um método, que se espelha precisamente no quê? Exato: no seu trabalho da década anterior, a Arqueologia. Só que agora, o que se trata de capturar é o poder. E uma vez que se sai de dentro do poder com a capacidade de descrevê-lo em seu exercício, em todas as suas artimanhas, adquire-se o quê? Ora, um poder de outra ordem, um não-poder, talvez. Entra-se num outro campo, num outro território para essa forma particular de exercício relacional – aquilo a que, a certa altura, em mais um dos seus belíssimos textos, Foucault deu o nome de heterotopia.

Pois bem, o que eu descobri na minha tese defendida em 2008 é que isso de conseguir, à la Foucault, se deslocar em relação ao poder é um recurso que as sociedades ameríndias que habitam a Amazônia já dominam há séculos: boa parte da sua ciência nisso consiste. Pra você mandar num índio, só com motivos que lhe sejam muito bem explicitados e que ele aceite após muita consideração – e olhe lá[1]. E, em paralelo, que um dos ramos da psicanálise, aquela que deriva de Jacques Lacan – e, mais particularmente, aquela que reconhece as formulações da sua Clínica do Real (que se iniciou na década de 1970) –, a qual parte do pressuposto de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, consiste numa forma de fazer com que os indivíduos que a ela recorrem alcancem, face ao poder que essa estruturas exercem sobre ele, uma libertação. São dois métodos análogos, em seus pressupostos e objetivos, ao de Foucault – não sendo à toa, que um dos seus principais exegetas, Paul Veyne, concluiu que o principal legado desse pensador foi uma sorte de “decisionismo individual”, algo da ordem da práxis, não da teoria.

Venhamos e convenhamos: tudo isso é bem próximo de ir trabalhar na África na condição de pesquisador e voluntário.

[1] É claro que a explicação para a semelhança com a Arqueologia foucaultiana é bem mais complexa, passando pela cosmovisão desses povos, onde vige o perspectivismo.

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Parasita, de Bong Joon-Ho

POR QUE NÃO GOSTEI (TANTO) DE PARASITA

Algo me deixou cabreiro da primeira vez que assisti a Parasita, filme vencedor do Oscar, do coreano Bong Joon-Ho. (A história) “não é o que você pensa” dizia alguma propaganda à época; e, de fato, assim é. Há surpresa, bem grande – a qual quase todos, a esta altura, devem conhecer.

Mas, não creio que tenha sido isso o que me incomodou. Primeiro, porque reviravoltas como a que nele ocorre podem ser atrativas, funcionar como alavancas a nos propulsar para outros estados ou ambientes do pensamento, atingindo, assim, o objetivo primordial de toda obra de arte. Segundo, porque o essencial desse filme não está nessa cambalhota do seu roteiro.

Parasita possui todos os elementos de um grande filme. Ele, de fato, é um grande filme. Tem a agilidade, tem o ritmo desses saborosos filmes que põem em cena a uma trupe de vigaristas. Gente que necessita iludir, gente que esquematiza planos, concatena acontecimentos em série a fim de conseguir uma determinada proeza. Questão de planejamento. De imediato, penso num Nove Rainhas, mas são inúmeros os (bons) títulos: é todo um filão no cinema, com direito a refilmagens e tudo –  pense-se na série dos Onze homens(acrescida recentemente de um grupo x de Mulheres) e seu um Segredo, ou então da Truque de Mestre e seus Atos (até agora somente dois).

Porém, ai porém, neste Parasita, os vigaristas acabam levando uma rasteira, como poderia eu dizer… arquitetônica. Teriam eles – uma família formada por pai, mãe e um casal de filhos –, uma vez instalados clandestinamente no novo território (uma fabulosa, moderníssima casa, suponho que em Seul), plenas condições de escapar, feito “baratas”, caso algo desse errado (e, de fato, algo disso eles conseguem, quando o imprevisto se instala); mas nada, em absoluto, poderia leva-los a prever a existência do parasitismo que dá nome ao filme…

E eis que se veem obrigados a resvalar de volta, do usufruto de um alto luxo, de até mesmo um horizonte que se descortina de “encaixe” nesse (outro e quase afetado) padrão, para o agreste e bruto universo da carência. Conseguem, em seguida (e no limite), alguma recomposição, mas o tombo havia sido tão feio, a distância entre um mundo e outro de tal magnitude, que tudo termina mal. Temos aí algo de novo, um twist no gênero “vigaristas pra lá de espertos conseguem…”. Eles (nossos heróis) já não conseguem; e a culpa disso estaria, para alguns, na desproporção entre aquilo a que ricos e pobres têm acesso.

Mudança, vital, de clave, que se confirma no diálogo pós-débâcle entre pai e filho vigaristas, quando o primeiro pontifica: todo planejamento sempre dá errado, o melhor é não planejar (mas, também, não deixar de fazer). Acho que foi essa sutil inflexão o que ocasionou o meu engasgo estético. Contudo, é daí que provém a genialidade desse filme. Não: ele não é um libelo contra a desigualdade social. Ele é a mutação de um dialeto particular da linguagem cinematográfica, de um certo padrão já consolidado. Precisei ver uma segunda vez pra sacar.

E o que ele fala para o nosso mundo presente é: precisamos reinventar o que existe. Aquilo que nos divertia, que nos fascinava, perante a complexidade da vida atual, já não dá mais conta. O planejamento tem que ser de outra ordem, incorporar novos princípios.

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O cinema de Spike Lee e o Brasil de hoje

BOLSONARO X.?

Malcolm X.(1992), do diretor norte-americano Spike Lee, é um filme de três horas e vinte e dois minutos. Na sessão da retrospectiva desse cineasta que ora ocorre no Centro Cultural do Banco do Brasil local, bastante cheia, não ouvi ninguém sequer tossir: todos vidrados na história desse líder do movimento negro norte-americano dos anos ’60 do século passado. Parece que algo, nela, ressoa no nosso presente brasileiro, final de segunda década do século XXI. Deu-me essa impressão; o que será?

O filme conta a história de Malcolm do começo, de pai vítima da Ku Klux Klan e mãe enlouquecida pela perda da guarda dos filhos à assistência social estatal (em função da falta de condições econômicas), ao fim, trágico, de ser assassinado, na frente da esposa e filhas, em um comício. Muito esperto e destemido, o rapaz que, tendo recebido educação da família branca que o adotou, mas se visto impossibilitado de seguir uma almejada carreira de advogado (porque isso não era para um negro, conforme lhe avisou um orientador escolar), acabou aderindo ao crime nas ruas de Boston. Por pouco não foi morto, por desconfiança, pelo chefe bicheiro; mas não conseguiu escapar das mãos da Justiça, que, para além dos furtos, não gostou nada do fato de ele e seu comparsa, também negro, se relacionarem amorosamente com mulheres brancas.

Na cadeia, viu-se salvo do aniquilamento moral inerente a esse tipo de instituição por um outro detento, que o introduziu aos preceitos do islamismo sob a ótica de uma seita, a Nação do Islã, comandada por um líder religioso negro, a quem, assim que saiu da cadeia, veio a conhecer e a seguir com máxima devoção. Malcolm se tornou, com o passar do tempo, o principal porta-voz dessa seita, que adquiriu, por sua vez, abrangência e relevância nacional. O que pleiteavam não era a mera melhoria das condições de vida da população negra nos EUA, a sua integração à sociedade em termos menos desvantajosos: pregava-se um verdadeiro desmembramento, a refundação da América em duas nações distintas: uma branca e outra negra, regida pelo islã; um apartheid levado às últimas consequências.

A tensão racial nesse país atingiu, nesse período, um ápice. E quem estivesse à frente do movimento negro, desde que soubesse conduzir a enorme revolta em face à desigualdade, representaria uma força política do tamanho da que aparece na cena em que um exército de militantes dessa seita, liderados por X., se posta, primeiro, diante de uma delegacia de polícia onde está detido um companheiro espancado brutalmente e, depois, diante do hospital para onde essa mesma polícia se viu obrigada a leva-lo, exigindo um tratamento digno. Muito poder ali se evidenciava.

E exatamente por esse motivo as demais lideranças da Nação do Islã se voltam, a certo momento, contra X., planejando, inclusive, o seu extermínio. Ele passa a se tornar o principal inimigo dessa entidade, em vez da nação branca, cujo líder, JFK, acabava de ser assassinado – fato esse que X., publicamente, não faz questão de lamentar, pelo que recebeu, em seguida, uma forte reprimenda dos “colegas” de seita. Pouco a pouco, também começa a ficar evidente que a retidão moral dos demais líderes da NDI, tão estrita e propagada, não passava de fachada. Malcolm então a abandona e decide fazer um mergulho presencial no islã, indo ao Oriente Médio atrás das raízes dessa religião. De lá, volta transformado, abdicando da ideia de separação, de segregação entre seres humanos em função da cor da pele.

O filme não deixa claro quem foi que matou Malcolm X.. A CIA já o monitorava em sua peregrinação a Meca e posteriormente, quando teve que se esconder num hotel depois de ter sua casa queimada em atentado que quase o matou junto com esposa e filhas. Ao sair desse esconderijo para proferir um discurso em local público, foi alvejado pesadamente e morto. Representava, certamente, uma ameaça.

O que é que isso tem a ver com o Brasil atual? Muito pouco, quase nada ou definitivamente nada: essas seriam as respostas-padrão, as de quem tem “juízo” e entende de “política e história”. Seria, igualmente, muito provavelmente, a resposta do próprio Spike Lee.

Entretanto, nada impede que sejamos um pouco loucos e assumamos, momentaneamente, uma contramão. Afinal, não existe um certo ou errado categórico no que diz respeito a política – e a história, essa fica cada vez mais claro ser intrinsecamente  da ordem do político –; e, no que tange à arte, os bons manuais de crítica nos ensinam que a visão do autor quanto à obra por ele criada é somente uma a mais. Ao adentrarmos essa via, temos algumas similitudes entre o biografado no filme e o nosso presidente eleito; quais sejam: 1. um sujeito destinado a ser um marginal (Bolsonaro, no caso, foi descrito pelo generalato da ditadura como um “mau militar” e, não à toa, foi “reformado”), mas que conseguiu se reposicionar (para usar uma palavra atual) na vida, pela política; 2. que entrou em cena nacional num momento em que havia enorme pressão popular por uma espécie de justiça que não é uma que se inscreva pacificamente no capítulo do econômico, mas sim das relações pessoais, microfísicas, ainda que em contraposição a frutos de padrões culturais (o racismo, a corrupção); 3. que desafiou a morte ao percorrer candidamente recantos de um país que é habituado a dar pouco valor à vida, ocasionalmente extirpando-a por meio da violência.

Uma cena do filme em particular me despertou para essa linha de percepção. É quando Elijah Mohammed, o líder supremo da Nação do Islã, tenta demonstrar a Malcolm, servindo-lhe um copo d’água, a diferença de sabor entre uma água cristalina e uma outra, que ele acabava de turvar com uma substância. As pessoas, diz-lhe então, vão saber distinguir entre um sabor e outro e, se tiverem a chance de optar, vão preferir a original; a sua sede vai se inclinar por ela, não pela que foi maculada. Havia esse tipo de sede (ou um vácuo concomitante) nos EUA na década de 1960. E, acho eu, que também a houve no Brasil que elegeu Bolsonaro.

Os filmes de Spike Lee são, todos, filmes políticos e, ao mesmo tempo, filmes que portam e transmitem doçura. São filmes que tematizam valores relativos ao convívio social: a amizade, a confiança, o parentesco. Malcolm X. é o retrato de um ser admirável, que atraiu para si paixões e ódios, esperanças e temores: alguém que, em suma, se carregou de história sem abdicar de um apego, de ordem pessoal, ao que julgou ser verdadeiro. Como teria sido caso não o tivessem matado? Talvez algo próximo a um Obama?

Não sabemos, por outro lado, o que esperar de Bolsonaro. Só o que se sabe, até agora, é que é uma alma que se achou nesse terreno selvagem da política, enxergando, a certa altura, o enorme vácuo deixado pelo turvamento reiterado e difuso de suas águas.

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Decifrando as urnas

EXISTE ÉTICA NA (SENSAÇÃO DE) SUPERIORIDADE?

Em breve faremos um mês com presidente e governadores (alguns) eleitos. Tempo suficiente para se afastar um pouco do espanto e tentar entender, com o auxílio da razão, o que de fato aconteceu nessa eleição. As forças democráticas foram derrotadas? Essa me parece ser a pergunta crucial, posto que é do lado delas que me vejo situado e disposto a seguir caminhando – e foi por isso que julguei, a certa altura do segundo turno, que a melhor opção seria o voto em Fernando Haddad.

Um primeiro dado a ser levado em conta é o fato de que Bolsonaro se elegeu de forma limpa, dentro dos critérios preestabelecidos. Uma maioria expressiva de cidadãos brasileiros e aptos a votar foi às urnas e manifestou, livremente, a sua crença de que era essa a melhor opção. Pode-se alegar que houve fake news, jogo sujo, disparos ilegais em redes sociais: ok; porém, lembre-se o quanto essa mesma estratégia, baseada na difusão de mentiras, não foi utilizada contra a candidata Marina Silva na eleição de 2014. Imprensa e tribunais eleitorais noticiaram e fizeram e fazem a checagem que, até o momento, não apresentou fatos robustos o suficiente – e esses, a esta altura, teriam que ser de uma flagrância superlativa – para uma anulação do resultado.

Consideração mais grave diz respeito à, digamos, plataforma sobre a qual esse candidato se elegeu: um conjunto de valores distantes do que se entende como sendo aqueles que corresponderia a uma democracia moderna abrigar, dada a liberdade individual que lhe é inerente. Bolsonaro, há anos, é porta-voz de visões retrógradas e preconceituosas no que tange aos costumes: foi através dessa atuação que ele acumulou fama em meio ao Congresso Nacional e à mídia. E o fato de que um contingente tão expressivo de brasileiros tenha, agora, lhe dado o voto é algo que deixa enorme perplexidade, conduzindo à pergunta: somos intimamente tão desumanos – a ponto até de dar crédito (e logo esse, de líder da nação) a quem defende a tortura? Desconhecíamo-nos à larga em nosso pendor autoritário?

Acho que temos que ir com calma em relação a esse tipo de conclusão – note-se que nem sequer entro na falácia de achar que tudo isso não passa da consolidação de um “golpe” que, evidentemente, não existiu. Não me parece que os que votaram em Bolsonaro o tenham feito fundamentalmente em função da visão de mundo estampada nos seus discursos cheios de ódio e crueldade, mas sim de ter ele, com eles, condensado na sua figura o inconformismo difuso e, ao mesmo tempo, furioso com a política e, em especial, com o PT. Num ambiente saturado por mentiras – como ficou claro a partir das revelações da Lava Jato e da posterior e renitente recusa, inclusive da militância petista e seus satélites, nas redes sociais e demais foros, em reconhecer os erros cometidos –, alguém que passava um mínimo de autenticidade (ou um máximo, se formos levar em conta o conteúdo explicitamente ofensivo e degradante das suas falas) passou a adquirir as feições de boia de salvação, por mais improvável que isso parecesse.

Voltando às forças democráticas, parece-me que um primeiro passo a ser dado é reconhecer que, até o momento, Bolsonaro jogou e joga o jogo da democracia, inclusive com perspectiva nenhuma de cometer algo como um novo e já patenteado “estelionato eleitoral”. Em seguida, olhar para si mesmo à procura da eventual existência de atitudes perante o outro e até de falta de honestidade para consigo mesmo que tenham provocado uma tamanha desconfiança por parte de tanta gente. Sim, a roubalheira do Petrolão é fato incontestável, mas será que, para além dele, não haveria também outras barreiras de cunho ético que foram se estabelecendo ao longo dos anos – ética aqui entendida sob o duplo aspecto de uma situação na qual não há respostas prontas (ou fáceis), tanto quanto uma em que o que está em jogo é a liberdade no seu sentido essencial, de algo que se exerce nas relações?

Não haveria uma certa – e antipática, para dizer o mínimo – superioridade daqueles que supostamente, detém a verdade (como se essa existisse) da política? Um certo elitismo, uma diferenciação suspeita, estabelecedora de um “nós” e de um “eles”? Uma certa obrigação de pensar dentro de determinados parâmetros, a partir de certas visões e com o uso de exclusivos conceitos? Em que medida se está assim tão imune a formas de autoritarismo? Em suma, se perguntar até que ponto a denominação de “democráticas”, por parte dessas forças, não incorpora um descabido ufanismo, não realiza uma apropriação demasiadamente apressada.

Bolsonaro e os governadores que saíram eleitos das urnas terão quatro anos pela frente e o rol de estragos que eles poderão deixar pode ser grande. Porém, esse é um risco inerente a todo e qualquer governo, eleito ou não. Como disse acima, Haddad foi minha opção de segundo turno. Foi escolha difícil, tendo em vista a minha descrença em relação não à sua pessoa, mas ao seu partido. É bem provável que, caso eleito, os riscos à democracia fossem de igual tamanho aos atuais, ainda que de natureza inteiramente diferente; quem sabe, até maiores – eis que me declaro aqui e para todo o sempre, falível nas minhas escolhas, como qualquer ser humano, porém, sem arrependimentos.

Em suma, a decisão está tomada; não creio que seja papel das forças democráticas, daqui em diante, dificultar as saídas engenhosas ou pródigas que possam vir a surgir, pois estamos bastante necessitados delas, mas, sim, se contrapor a tudo o que não tenha amparo na lei, que não seja justificado perante escrutínio público e que produza angústia, ignorância ou sofrimento – de preferência, contrapondo-se a tudo o que não mitigue esses três quando existirem – aos que aqui habitam.

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Eleições 2018

MARGEM HOJE ESTREITA (MAS NAVEGÁVEL)

O escritor Enrique Vila-Matas, em entrevista o outro dia na Folha (https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/08/o-artista-deve-ser-nao-original-diz-enrique-vila-matas.shtml), fez uma afirmação muito interessante: a de que tanto o direito de se contradizer quanto o de cair fora deveriam fazer parte da Declaração Universal do Direitos Humanos. Dizia isso à luz de sua literatura, que é da órbita da “ficção crítica” e se apropria da repetição no intuito de, paradoxalmente, criar o novo, de sair de uma exigência “fossilizada” de originalidade.

Cair fora foi o que meu compadre Mário fez no começo deste ano, indo morar – assim como milhares de outros brasileiros – no exterior, levando consigo (e sendo levado por) mulher e filhas adolescentes. A tecnologia do mundo atual tem permitido que sigamos nos falando, ouvindo e vendo com uma frequência quase igual à de antes, de modo a que a saudade, numa imaginária Lei de Responsabilidade Amorosa, seja mantida abaixo de um “limite de alerta” – o mesmo ocorrendo com a extensa rede de outros fieis amigos que aqui ele deixou. Enfim, em tom de blague, digo que não duvido que o Mário em breve se torne amigo do Vila-Matas, que é espanhol e, imagino, vive logo ali, atrás do monte.

Mas é sobre esse outro direito humano universal reivindicado pelo autor de Dublinesca e Viagem Vertical, o de se contradizer, que gostaria de discorrer a seguir. E fazer isso sem abandonar o tema do amigo emigrado, posto que, dessa mexida, ainda restou o seu filho, meu afilhado, jovem e amável jornalista e vídeo maker, que optou por aqui ficar; e que, em recente e franco post do Facebook – e peço-lhe perdão pela inconfidência –, manifestou o sufoco que está sendo a escolha de candidato(s) para a próxima eleição. Noves fora os fundamentalismos, essa agonia é geral, eu diria, sendo ainda mais aguda para quem tem pouca experiência de vida. Meu conselho, no caso, é o de ser capaz de se assumir como navegante no Estreito da Contradição.

O que é que vem a ser isso? Creio ter condições de explicar, tendo em vista ser o que tenho feito, ultimamente, ao ter me disposto a contribuir com duas campanhas de candidatos, uma para senador, outra para deputado distrital, ambas do Partido dos Trabalhadores. Eu, que nunca militei (a não ser no âmbito sindical). E eu, que, cada vez mais, me sinto partidário, no espectro político, de um centro, em vez de uma esquerda – e que, em função disso, estou certo de que não votarei, nem para presidente, nem para governador, nos candidatos desse partido.

Votarei naqueles dois únicos candidatos petistas porque tenho tido a oportunidade de conhece-los mais a fundo – em especial um deles, Wasny de Roure, que, como presidente da comissão onde atualmente estou trabalhando, no âmbito do poder legislativo local, tem tido a sensibilidade e feito uso, por primeira vez ao longo de tantos anos de carreira nesse órgão, do meu potencial profissional. Tenho aprendido a admirá-los, em grande parte em função de ter notado neles um grau de humildade, bastante raro nesse e em demais meios, que faz com que consigam prestar atenção a seres tão inquietos e um tanto fora de padrão como eu. Claro está que não comungo com 100% de suas convicções – a algumas delas, até, sou definitivamente refratário –, mas isso não é empecilho para um apoio, quando posto numa balança em que também entram qualidades pessoais e histórico de vida e de posicionamentos. E quando se leva em conta esse dom de ouvir. (A outra candidata sendo Arlete Sampaio).

Às margens do Estreito da Contradição, o que encontrar? Muita “terra firme” que, no entanto, tem ficado cada vez mais claro ter o inconveniente de ser o berço de ódios. Ou será que são os ódios que acabam se cristalizando em ilusões de terra firme? Não sei, só sei que escrevo no dia seguinte de um atentado contra um candidato a presidente. Tudo indica que esse candidato, que, por sinal, é um dos principais patrocinadores do ódio, se recuperará – o que é de se esperar – e, inclusive, sairá disso reforçado – o que não é de se esperar –, mas o crucial a notar nisso é o quanto que o que já era espinhoso para um jovem eleitor e cidadão como o meu afilhado ganha contornos ainda mais assustadores.

Por isso, minha recomendação, que vale para mim inclusive, é a de não exigir demais desses postulantes, mormente quando se trata dos principais cargos, os ditos majoritários. Eles podem estar na mesma situação que nós eleitores, de terem que ser um pouco contraditórios, de não terem respostas engatilhadas para todo e qualquer problema. Claro: se estão se apresentando como líderes, haverão de ter programas, rumos claros que indiquem suas intenções e o firme empenho de que seguirão o que estão prometendo – tudo o que não precisamos, a esta altura, é de um novo estelionato eleitoral. Mas espera-se que também possuam a habilidade de contornar icebergs na medida em que eles se apresentarem, de aglutinar forças de modo a ter suficiente empuxo na hora que uma Moby Dick resolver dar uma estocada conclusiva.

Estamos todos num mesmo e único barco. Existe uma arte de navegar e, creio eu, temos gente capacitada para tal, o que equivale a dizer: lideranças, analistas, especialistas e generalistas e uma boa dose amor por esta pátria e pela vida. O que atrapalha, o que tem atrapalhado bastante, é a noção de que tudo tem remédio – seja esse as armas, seja a utopia (que, não raro, desemboca no primeiro). Não tem: nós é que temos que inventar. Aprender a trocar, desde pequenos, a roda em pleno movimento – e a nos conhecer mutuamente.

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