O Shakespeare da atualidade
O trailer de Digger, o novo filme de Alejandro González Iñárritu, atualmente em cartaz, não era promissor, tinha cara de ser uma espécie de Cidadão Kane revisitado e adaptado aos tempos atuais, com trumps andando soltos por aí, deixando de cuidar do planeta – o que todo governante decente deveria estar fazendo. A presença no elenco de John Goodman, um dos maiores comediantes que conheço, no papel de presidente dos EUA, era também algo pouco animador, já que, mais que rir dessa figura que hoje ocupa a Casa Branca (e seus símiles), o momento parece requerer a indignação ou, mesmo, a repulsa. Porém, o que assistimos no longa em si é algo muito distante dessa primeira impressão – de presente que cansa e não traz muita esperança – induzida pelo trailer.
Os principais problemas da atualidade são, sim, o tema: a nossa matriz energética ainda presa ao petróleo, as consequências climáticas que isso traz, a mentalidade capitalista que subjaz e as vistas grossas (a hipocrisia em si) dos políticos, assombrados, ainda por cima, com os métodos das autocracias do oriente (tal como nos descreve Anne Applebaum). Somado a isso, o controle global da comunicação, através de monopólios e respectivos algoritmos capazes, no atual estado de coisas, de pautar nosso pensamento. Tudo isso está lá exposto, remetendo mais a um Rede de Intrigas, filme de 1976 de Sidney Lumet, do que, propriamente, ao (velho) Kane. Aparentemente, estaríamos mais do que no reino da sátira – o que, em momentos, parece bastante ser o caso, como se se tratasse de um filme do Wes Anderson –, do que no da política; só que não, a parada é séria.
E como é que Iñárritu consegue esse feito – na verdade, são dois: usar da sátira sem ficar cansativamente grudado nela (como Anderson); e, frente ao pulso devastador da política e seus interesses nada benévolos, ainda soprar alguma esperança, algum lirismo? Aí é que entra a genialidade dele, a sua mágica, que mora, a meu ver, em tirar proveito máximo dos recursos da linguagem e dos terrenos onde ela é cultivada: as diversas artes. Descobrimos, por volta de uma meia hora de exibição (eis um mini-spoiler!), que os personagens todos que estávamos assistindo são, na verdade, atores representando os papeis de uma peça que está prestes a estrear – um recurso de lidar com dois planos simultâneos de realidade que o diretor já havia explorado, mas em outro grau de potência em Birdman –, o que acende em nós, espectadores, um certo estado de alerta adicional. A essa altura, porém, já estamos “acreditando” no que a peça nos trouxe; e ela segue, como se nada tivesse acontecido, amplamente majoritária no transcorrer da película: o Digger inicial segue sendo o nosso principal marcador; o ator que o representa, um personagem coadjuvante. Uma combinação bastante complexa, convenhamos, e somente possível graças ao poder, insisto, da linguagem.
Salman Rushdie, numa palestra ainda não traduzida publicada na coletânea de ensaios Languages of Truth (2021), intitulada “Proteu”, creio eu que fornece os elementos para entender o que digo. O centro desse “ensaio” é Shakespeare, santo maior de devoção do anglo-indo-americano, e a tentativa é a de evidenciar a natureza proteica da sua escrita. Proteu foi um deus da mitologia grega (filho de Poseidon) que dominava a capacidade de se transformar. Alguém que sabia a fundo sobre as coisas do mundo, mas que normalmente escapava, graças a essa sua natureza metamórfica, quando premido a entregar a verdade sobre elas. Em raras e muito pontuais ocasiões, nos ensina Rushdie (a partir de Virgílio e de Ovídio), ele liberava seu vasto conhecimento. Shakespeare, para Rushdie, é um autor que tira sua força desse mesmo elemento:
“(Proteu) nem sempre escondia a verdade; ele às vezes a revelava – por exemplo, quando ele contou ao mortal Peleu como capturar a ninfa do mar Tétis, a linda nereida de pés prateados Tétis, também uma metamorfa, ‘e ainda que ela assuma uma centena de formas enganosas’, Proteu adverte Peleu n’As Metamorfoses de Ovídio, ‘não permita que ela lhe escape, mas tenha-a ao perto, o que quer que ela esteja sendo, até que ela reassuma a forma inicial’, o que Peleu cumpre e então ele captura Tétis, e o magnífico resultado da conjunção é Aquiles, apesar de Tétis saber que não foi seduzida sem ajuda – ‘não é senão com a assistência de algum deus que você conquista’, ela diz a Peleu – mas tarde demais, Aquiles já está a caminho graças às revelações do metamórfico Proteu, e é dessa ideia do proteico que eu gosto, não do que se esconde, mas do que usa revelar. Era nisso que Shakespeare estava metido, Shakespeare que conhecia tudo o que já tinha sido, o que era agora e o que ainda seria e usava a sua arte metamórfica para mostrar o presente, futuro e passado.
A questão sobre o proteico na literatura, o ponto que Shakespeare compreendeu a fundo e permitiu que todos nós que o seguimos também compreendêssemos, é que a vida é assim, a vida em si não é uma coisa só, mas muitas, não é singular, mas multiforme, não é constante, mas infinitamente mutável. É uma história de fantasmas e uma história de amor e uma saga política e uma saga familiar, é comédia e tragédia ao mesmo tempo, ela é não-realística, não no sentido em que essa palavra é usada por aqueles que dão o veredito sobre esse tipo de coisa, não realística de forma alguma nesse sentido.”
E um pouco mais adiante, depois de citar diversos episódios desse não-realismo, dessa constante metamorfose da vida, conclui:
“Num mundo tão instável como este, dê-me instabilidade literária toda vez, ou ao menos algum reconhecimento dela, algum reconhecimento de como o mundo pode ser sacudido por terremotos, guerras ou o acaso; onde não há equívocos a respeito da realidade, onde há um defrontar-se com a natureza da besta.” (Traduções minhas)
Iñárritu seguramente concorda com Rushdie, algo que fica claro a certa altura do filme quando o ator que interpreta Digger lança aos demais colegas seu incômodo “realista” sobre o trabalho que estão desenvolvendo – e que tende a ir para o deboche quando, na verdade, há uma história concreta por trás. Não é um erro estético ou estilístico, ele pergunta? Não é uma infidelidade? Não!
