Avatar, o filme

UM PRESENTE DE FIM DE ANO

Andrés Rodríguez Ibarra

Basta de reclamações: para quem queria um sinal que indicasse que 2009 foi de fato um bom ano, sugiro que pegue a programação de cinema, procure o filme “Avatar”, de James Cameron, escolha a melhor sala possível (não precisa ser 3-D) e, de acordo com a terminologia do próprio, veja.

Uma das primeiras coisas que chama a atenção é a pressa da narrativa, que não se resume a indicar que há muito a ser contado e que o tempo é curto; o filme, tal como acontece com muitos, não “esquenta” aos poucos: ele nos embarca, numa rapidez incrível, para o planeta Pandora, junto com seu protagonista, um ex-marine paraplégico chamado para uma missão científico-militar que, rapidamente, termina por se mostrar (como se a maioria dessas não o fosse) puramente comercial. Se o herói, destemido guerreiro, não se assusta nem com a recepção hostil dos seus novos colegas (um coronel brutamontes obcecado que lhe acena com honras marciais e com a cura, impossível, da sua paraplegia e uma imprescindível Sigourney Weaver cientista que mal lhe dirige a palavra), nem com os gigantescos e coloridos seres criados em laboratório, os Avatares, aos quais é apresentado e dos quais está prestes a fazer parte, nós, espectadores, vamos perdendo, paulatinamente, as nossas referências, os nossos parâmetros: esse não é nem um filme de marines, nem um de alienígenas, nem de cadeirantes, nem mesmo de humanos em outro planeta e, tampouco, de desenho animado ou de efeitos especiais (ainda que eles lá estejam o tempo todo) e isso pode nos assustar.

O fato, porém, é que não assusta. E creio que isso se deve à própria beleza, plástica, que se apresenta diante de nós.  Tal qual o protagonista que, ao entrar no corpo do seu Avatar, adquire pernas e sai correndo, de imediato, como um desvairado, o nosso olhar penetra um novo ambiente, esse planeta Pandora com sua fauna, flora e geografia deslumbrantes, e, paradoxalmente, nos lança de volta à infância, à própria emoção que tivemos com filmes revolucionários tais como Star Wars – Guerra nas Estrelas e Matrix; e que, eu diria, é a emoção máxima do cinema, essa câmara escura onde nos perdemos. Feito ocorre com as crianças, o nosso olhar, a nossa imaginação, são levados e passamos a subir e descer montanhas íngremes, a cruzar desfiladeiros, a pular em precipícios, a rastejar, a montar bichos esquisitos e às duas maiores emoções, que são a de voar e a de se apaixonar.

“Avatar”, contudo, não é, como já disse, um filme infantil, um desenho animado. Há nele uma trama muito adulta e muito atual. Não creia o leitor que exageros não fazem parte dele; eles estão presentes, sim, principalmente no seu desfecho, quando as forças do bem e do mal se enfrentam de forma definitiva; mas são meros tributos, eu diria, que se tem que pagar ao cinema-indústria, uma espécie de benção que se pede aos mais velhos antes de sair para uma noitada e aprontar todas, de cometer todos os pecados—só que, neste caso, a ordem se inverte, a benção vindo depois do “estrago” acontecido.

E quais são esses pecados? “Avatar” toca na questão da alteridade, ou melhor, essa questão está no cerne de sua trama. Esquematicamente, essa questão resume-se à forma como nos relacionamos com o que é diferente de nós, com o outro, o estrangeiro. Esse outro pode ser tanto intraespecífico (é o caso das diferentes culturas ou etnias que encontramos dentro da mesma espécie, a espécie humana) quanto interespecífico (é o caso das outras espécies em relação à nossa e delas entre si, por que não?). No filme, há um dispositivo, uma máquina inventada pelos cientistas, que permite um deslocamento entre os humanos e os avatares—que seriam um meio-termo entre um outro intra e interespecífico, já que possuem genes humanos, mas são, definitivamente, “de outro planeta”.

Pois bem, em quê, tal como indiquei acima, a questão da alteridade possui uma atualidade? Vamos por partes: o filme de Cameron é um filme americano, os personagens são americanos e, então, cabe indagar sobre o quê significa a alteridade no contexto dessa cultura, desse país. O outro, para os americanos de hoje, é o resto do mundo. Um resto que, de vez em quando, se manifesta em atos terroristas como o do 11 de setembro (a cena da destruição da grande árvore, o panorama cinzento que ela provoca, certamente foi inspirado na queda das famosas Torres Gêmeas), mas que, de resto, como o povo avatar, está tranqüilo na sua, até que algum espírito ganancioso e maligno descobre que eles estão sentados em cima de uma mina desse ou daquele produto. Dá-se, então, um choque, uma fricção, onde porventura pode se descobrir que o outro vive em condições melhores; que ele é, no seu cotidiano, mais feliz, mais em paz consigo e com aquilo que o cerca do que de por si, se é. Que, caso houvesse uma situação, como ocorre no filme, na qual se propõe a esse outro uma recompensa por ele ceder aquilo que possui e que nos interessa, não houvesse nada nosso, em absoluto,  que lhe interessasse. É nessa ferida que o filme em questão põe o dedo, não deixando de remeter ao mundo islâmico, ao grande enigma/contraponto atual desse império.

Mas essa questão, está claro, não é uma que se restrinja ao contexto dos EUA. Ela diz respeito à nossa civilização ocidental, da qual o espírito norte-americano não é senão um caso. A questão da alteridade é uma questão à qual se dedica uma ciência em particular: a etnologia, um patrimônio ocidental. No filme, ela está presente na figura da cientista e de sua equipe, que são biólogos, mas que se preocupam em—e acabam por conseguir—ver o ponto de vista alheio. E o que é que essa (jovem) ciência tem nos apontado de mais interessante? Bem, que existem povos, nas nossas florestas tropicais e semi-tropicais, que têm, para essa mesma questão da alteridade que tanto nos atrapalha e sobre a qual tanto tropeçamos, respostas muito mais inteligentes, que vão além da truculência corriqueira.

Trata-se do chamado perspectivismo ameríndio, no qual, resumidamente, se reconhece a todo outro, uma perspectiva. E o que significa uma perspectiva?  Seria um mero ponto de vista (uma espécie de opinião) a respeito de uma questão que possui uma verdade? Não: significa que há verdades variadas, que dependem do ponto de vista. A verdade das coisas depende de se é o sapo, a cobra, a onça ou o homem aquele que as vê (as coisas) e que a diz (a verdade). Uma perspectiva, consequentemente não se mistura com outra (como ocorreria num relativismo, onde os pontos de vista se acumulam e formam um todo verdadeiro) e toda tentativa de ultrapassar essa fronteira entre perspectivas ou todo esquecimento dessa regra dá origem ao caos, os únicos seres autorizados a transitar entre perspectivas sendo os xamãs—e justamente para corrigir os eventuais curto-circuitos de perspectivas. Ou seja, respeito total ao outro, como princípio filosófico maior e como prática cotidiana.

Poder-se-ia, então, dizer que o filme de Cameron, ao pôr em cena a viagem e o diálogo transespecíficos, tematiza a nossa extrema dificuldade em lidar com o que é diferente e inova ao invocar essa jovem ciência que pode porventura nos salvar e que muito tem aprendido com esses mestres da alteridade que são os xamãs ameríndios. Por mais ficção que seja, científica ou não, “Avatar” talvez deva ser visto como um documentário etnológico que retrata situações que estão acontecendo diariamente nas nossas florestas e nas artérias do império norte-americano. E caso isso não bastasse e fosse para dizer a quê gênero de filme de ficção ele pertence, diria que se trata de um genial filme de índios.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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One Response to Avatar, o filme

  1. Aristóteles Berino disse:

    Assisti Avatar mais ou menos quando caiu nas minhas mãos o livro Falando da Sociedade, do sociólogo norte-americano Howard Becker, ed. Zahar. O livro aborda as diferentes formas de representar a sociedade, entre elas o cinema. Não apenas os sociólogos profissionais explicam a sociedade. Assim como você, também assisti Avatar “reconhecendo” essa trama sociológica que faz parte do filme. Análise que vence essa barreira de classificação dos filmes entre clássicos e os comerciais. Os últimos podem (e devem) também ser vistos de olho na pedagogia da imagem. Gostei, no seu comentário, especialmente da associação com o perspectivismo ameríndio.

    Garnde abraço e vou continuar acompanhando suas reflexões cinematográficas.

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