Ilha do Medo, de Martin Scorsese

SCORSESE ESTÁ MAIS SCORSESE DO QUE NUNCA

Cheguei com uns dez minutos de atraso na sessão – havia outros filmes interessantes aos quais eu não me atrasaria, mas algo me dizia que eu deveria insistir neste – e o Leonardo Di Caprio já estava na ilha com o seu distintivo de “marshall” e o seu jeito de homem sofrido à procura da louca perigosa que tinha sumido do sanatório prisional que lá estava instalado e cujo diretor era o impagável Ben Kingsley. Scorsese, afinal, é Scorsese e eu estava curioso a respeito deste seu Ilha do medo, um thriller ambientado no pós-guerra: parecia-me que havia aí uma quebra em relação a toda a sua filmografia que, apesar de ter outros thrillers (Taxi driver, Cabo do medo) , sempre me pareceu voltada para uma investigação do real, com personagens sempre agindo no limite, mas, ainda assim, sem cair no exagero. E esse sofrido procurador do ótimo Di Caprio se apresentava como o exagero em pessoa.

É claro: não vou revelar o enredo do filme. Thriller é thriller. O que quero chamar à atenção é o fato de que esse filme me ajudou a entender melhor e a admirar ainda mais a obra desse brilhante cineasta.

Por vezes, ao longo do filme, desconfiei de que alguma caduquice o tivesse atingido: para um cineasta de vasta experiência e recursos como Scorsese, o filme parece querer se ater ao desafio menor de desenhar um clima, um ambiente, um lugar, essa ilha, em suma, onde caem chuvas torrenciais e existem penhascos escorregadios e repletos de ratos e masmorras meio góticas onde corpos são submetidos aos mais cruéis suplícios. Se aliarmos isso ao passado do agente federal vivido por Di Caprio, passado esse que lhe vem em flashes e sonhos e que ocorreu nos estertores da Segunda Guerra, na qual lutou como soldado, temos a nítida impressão de que Scorsese mudou mesmo de trincheira e resolveu se tornar um cineasta cenógrafo. Restaria-nos admirar esse seu lado, também grande, e que já havia aparecido em filmes como Gangues de Nova York, embevecer-nos com as várias cenas oníricas que deixam qualquer vídeoclip mais ousado no chinelo. Mas tudo isso não passa de um grande truque, de uma peça que ele nos prega porque quando o filme termina, quando dele saímos, compreendemos que Scorsese não se moveu um milímetro sequer em relação à temática que o persegue: a violência.

Muitos vão dizer que o tema do filme é a loucura e isso está correto, até certo ponto. Poucos filmes de que tenho conhecimento, de fato, conseguem chegar tão próximo de um retrato dessa, nos colocar tão por dentro do seu acontecer moderno, tão em contato com os seus ingredientes atuais. A loucura é uma linha que se constrói, isso já nos mostraram tanto Foucault quanto Machado; agora, é a vez de Scorsese, que a mostra, magistralmente, nos seus mil serpenteios. Mas reduzir Ilha do medo a essa difícil e pungente temática seria, ao meu ver, deixar escapar a riqueza maior, que reside na resposta à seguinte pergunta: o que é que a violência, tema scorsesiano por excelência, tem a ver com a loucura?

“Vocês são homens de violência” diz o psicólogo-chefe, a certa altura, ao agente de Di Caprio e ao seu assistente. Isso acontece no primeiro encontro da dupla com esse médico e o agente não demora em lhe devolver um diagnóstico: “você é um monstro nazista disfarçado de médico”, confirmando, de certa forma, o dizer do médico. Mas esse dizer, se formos pensar, é um que pode se aplicar a todos os personagens principais dos filmes de Scorsese. Por instantes, temos a todos eles ali, temos ao próprio cinema scorsesiano, na pele do agente sofrido e que está prestes a penetrar nos mistérios daquela ilha.

Homens de violência, vamos vendo e pensando, são os homens que não se conformam em dialogar com a monstruosidade do blá-blá-blá cotidiano. São, em outras palavras, homens da ação, que têm dificuldade em lidar com este mundo tão cheio de explicações, onde tudo tem um encaixe, um lugar. Não é à toa que, neste filme, o nazismo é trazido à baila, suspeito de querer se implantar no micro-território que é essa ilha manicômio: não estamos já carecas de saber (pelo menos desde o grande A arquitetura da destruição, de Peter Cohen) que ele foi uma sorte de monstruosa racionalidade que conseguiu vingar num dado tempo e lugar, com os seus sábios, suas explicações, sua ordem, sua aceitação cotidiana? É o exato contraponto da ação, que, não-raro, é vista como violência e pode, por vezes, descambar numa loucura.

Talvez seja um exagero pensar que este último Scorsese seja um manifesto por um cinema que se vê ameaçado de extinção. As últimas palavras que nele são pronunciadas e que ficam ecoando na nossa cabeça, “é melhor viver como monstro ou morrer como um homem bom?”, contudo, bem que poderiam ser as palavras de um cineasta que, qual um louco, teima em fazer filmes de ação.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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One Response to Ilha do Medo, de Martin Scorsese

  1. Clea Sá disse:

    Olá, Andrés,

    que bom ler seu blog e que belo título. Li a sua análise do filme A ilha do medo, que não verei. Li o livro e quase morri. De medo. Mas é bom contar com você nesse mundo novo. Parabéns. Cléa

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