O que é orgânico e o que não é

UM ENCONTRO INESPERADO

Aconteceu algo inesperado na vida deste “projeto” de crítico de cinema: o outro dia fui convidado por um amigo à pré-estréia de um longa metragem no qual ele era o responsável pela música, fui, não gostei do filme e, por fim, aconteceu de me encontrar com o cineasta, algumas semanas depois, na casa desse meu amigo, que fazia aniversário. Um sujeito jovem, simpático e muitíssimo aberto que transbordava empolgação com esse que era o seu primeiro longa. Iniciamos uma conversa e eu, que poderia ter ficado quieto ouvindo-o falar da sua realização, não agüentei e lhe disse que tinha visto o filme, o que provocou a sua imediata reação de querer saber, com toda a sinceridade, a minha opinião…

Está aí, de fato, uma coisa engraçada, um bom teste, no mínimo, nesta minha breve carreira: na única oportunidade que já tive na vida de estar cara-a-cara com um cineasta (digo alguém que tenha produzido um longa, com uma ampla comercialização nacional e muito dinheiro envolvido na história) e, mais ainda, de tê-lo justamente a me perguntar sobre o que eu achei do seu filme, eis que eu nada tinha a lhe dizer que pudesse lhe agradar. Fiz o meu melhor na ocasião, puxando dos elementos factuais envolvidos na concretização de algo tão complexo como um longa, principalmente no contexto do esquálido cinema feito em Brasília. Colocando a coisa sob esse prisma, acreditei ter conseguido, momentaneamente, evitar um estremecimento social – uma zona muito difícil para mim, que não sou, em nada, diplomático. Tudo teria corrido “bem” se não fosse por dois pequenos detalhes: 1) eu não tive como deixar de dizer que o seu filme era pouco “orgânico” e 2) o cineasta não é nenhum idiota para não ter percebido a minha esquiva.

Pois bem, chega-se ao momento em que cabe a pergunta: e o que é que me levou a escrever, aqui, a respeito desse episódio? Querido leitor, acredite ou não, foi o email que, há pouco e de forma inesperada, recebi do cineasta, em tom amistoso e de colaboração, no qual solicita que eu lhe envie o que venha a escrever a respeito do seu filme, caso venha (eu lhe disse, na ocasião, que eu tinha este blog e esta mania de escrever sobre filmes).

Eu não tinha em absoluto, a intenção de escrever a respeito de Federal, pelo simples fato de que estabeleci como regra (talvez a única), para este espaço, a de só escrever a respeito de coisas que me entusiasmem ou que tenham me entusiasmado. Mas, duas coisas, novamente, me fizeram fugir dessa deliberação: 1) a extrema coragem de um jovem artista em se defrontar com o adverso e 2) o fato de esse artista, o Erik de Castro, afirmar, em seu email, que o valor que ele mais preza num produto artístico é a sua organicidade, justamente o que eu disse não ter visto no seu filme. O primeiro desses pontos me abastece desse combustível para esta escrita, que é a admiração. O segundo, me dá o tema para seguir nesta minha crônica, tal qual um equilibrista que ainda tem metade da corda bamba para deslizar por sobre.

Eu começaria repetindo o que outros já disseram, que Federal tem o infortúnio de ter sido lançado em quase concomitância ao sublime Tropa de Elite 2 (sobre o qual escrevi no meu penúltimo post): os dois têm uma temática muito parecida, ainda que a ambientação seja outra (Brasília, sua bandidagem e seus policiais, no caso do primeiro). Mas isso não encerra e nem poderia encerrar o assunto. A questão é: onde está a organicidade de uma obra? Quanto a isso, eu nunca pensei, nem quando vi, nem quando escrevi a respeito de Tropa 2, que ele tivesse a virtude de ser “orgânico”. Hoje, contudo, depois de ter visto Federal, eu entendo que a organicidade de Tropa existe, sim, e ela reside, na minha opinião, no fato de que, nele, se percebe que não são somente os policiais e bandidos que aparecem na tela os que vivem entre a vida e a morte, mas é o próprio diretor do filme que, se não tivesse para si e, principalmente, para o seu filme, o rigor da perfeição, teria, provavelmente, morrido. Orgânico, nesse sentido, me parece ser todo produto no qual se jogam todas as fichas, se queimam todos os navios, algo que nasce do corpo, que está no corpo e do qual só nos livramos caso nos matem ou caso morramos ou, então, caso o gravemos, o inscrevamos, em algum lugar. Não conheço nada do processo criativo de Padilha (como passei a conhecer, pela conversa que tivemos, o de Castro), mas fica evidente que cada fotograma do seu filme carrega consigo uma tensão que só pode ser a tensão de alguém que estampa uma assinatura, a sua assinatura, em algo – no caso, o celulóide. Talvez seja isso o que lhe permite dizer alguma coisa em relação a uma “realidade” que é, também, a do espectador; comunicar, enfim, “mandar (bem)” o recado, como se diz nos dias atuais.

O filme de Castro, por sua vez, carece da amarração da assinatura ao longo de toda a sua extensão, como se o seu diretor estivesse e não estivesse lá, ao mesmo tempo. Há uma preocupação em tematizar a vida dos quatro federais, uma preocupação “subjetivadora”, que o tornaria diferente de outros filmes “de ação”; essa preocupação, contudo, pode (e foi, no caso de Tropa) ser facilmente atendida com a introdução da voz de um (ou mais) narrador(es). Caso fosse um filme “de arte”, mais experimental, o filme poderia nem usar desse recurso, para investir mais profundamente no subjetivo, deixando a ação no plano da simples sugestão (são tantos os recursos do cinema, tão amplas as possibilidades); mas a pretensão parece ter sido maior, mesclando o subjetivo com a ação. Acaba que não “fecha” nem pra um lado, nem pro outro, quer agradar a gregos e a troianos, não assina. E, assim, as coisas se sucedem, entre perseguições, trocas de tiros e sexo, em cenas que resultam de um visível esmero por parte de toda a equipe, mas que têm o gosto de mera ilustração* e não de coisa “real”; como se o principal estivesse, sempre, na idéia e não no resultado, que é o entrecruzamento, concreto, entre luz, câmera, ação e som. Talvez, a diferença a que os músicos chamam à atenção que existe entre música e som – e quanto a essa, eu diria, sem ser músico, que é somente pelo segundo que se “morre” quando ele não sai conforme se quer.

Acima, falei de uma autêntica saia justa, de temidos possíveis estremecimentos, dificuldades e até mesmo de infortúnio, palavras graves que contrastam sobremaneira com a cordialidade e a deferência de Erik de Castro para comigo. Quero terminar dizendo que também contrastam com o sentimento que ora me toma, de ter tido a imensa sorte de ter feito contato com a sua pessoa e com a sua obra, que está só começando (ele já dirigiu o curta Senta a pua, que ainda não vi) e com a qual espero, em algum momento, vir a contribuir, de um jeito ou de outro. Nós, críticos, descubro, talvez não passemos de cineastas frustrados, como todos dizem – eu bem que tive meus arroubos em Super-8 – e, assim, também fazemos parte da esqualidez do cinema made in onde quer que estejamos, não contribuímos em nada (ou quase nada) para a sua robustez. Federal, ao contrário, sim: é um passo grande que o cinema local dá, tendo lançado seus tentáculos em diversas direções, conseguido aglutinar e arregimentar forças que aí estão, dentro e fora da cidade, prontas para serem usadas. É, se formos ser sinceros com a nossa história e com a nossa própria organicidade, um feito e tanto.

E para encerrar, se me coubesse de dar um conselho ao Erik, esse seria o de deixar essa coisa de diplomacia para nós, críticos; e mandar, sempre, muita bala no espectador (e nem tanta nos personagens).


* Eis aí uma palavra perante a qual eu me espantei quando me chegou o outro dia, pois havia tempo em que não a ouvia sendo usada. Foi o grande Aluizio Mendes Campos, tio de minha mulher, que a usou, afirmando, quando indagado a respeito de si, que a sua cabeça está (isso é pura verdade) “ótima”, mas que o corpo é mera “ilustração”.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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2 Responses to O que é orgânico e o que não é

  1. Mario Salimon disse:

    Benvindo ao time. Você agora sabe, então , o que senti, ao ter que fazer a crítica do disco de estréia de minha amiga e contemporânea Cássia Eller. Com outras palavras, disse que o elepê não tinha organicidade. Ela, depois, encontrou um eixo. Ou vários, se considerarmos a escala no samba, que foi muito boa. Nada como o tempo e a sinceridade dos que, amistosamente, se dispõem a analisar uma obra ou carreira.
    Grande abraço

  2. Juliana Bonat disse:

    A crítica pode incomodar, mas todo bom artista saberá usar as duras palavras em seu favor. Não vi o filme, mas tenho certeza que foi um grande passo para a produção brasiliense e de seu diretor.
    Abraços.

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