A Árvore da Vida, de Terrence Malick

O DESEJO DE SILÊNCIO OU VICE-VERSA

A árvore da vida de Terrence Malick, já havia previsto um amigo meu depois de assisti-lo, é um filme que irá criar polêmicas. Eu fui vê-lo há cerca de uns cinco dias, fiquei a fim de escrever sobre e, há quatro, saiu num jornal de circulação nacional, uma critica a respeito, de autoria de um autor de que gosto: Contardo Calligaris. Vou me permitir, aqui, discordar desse psicanalista e escritor italiano radicado no Brasil e, assim, confirmar a previsão do meu amigo.

Calligaris demonstra, em seu artigo, antipatia diante da proposta do filme de Malick, que ele interpreta ser próxima à de uma narrativa sobre como lidar com as perdas de entes queridos e com as injustiças divinas. Apelando para o telúrico seria a resposta, para abundantes imagens de fenômenos naturais de imensas proporções, que nos confundem enquanto espectadores, acostumados que estamos a tramas. A National Geographic (eis aí uma idéia de que Calligaris lança mão) entrando no auxílio do nosso desespero diante do sem-sentido da vida. Uma proposta adolescente, no seu entender, ainda mais quando confrontada com a (ou com a resposta, para a mesma indagação) de um outro filme que ele assistiu no mesmo dia: Melancolia, de Lars Von Trier.

Pois bem, eu só assisti, até agora ao filme de Malick e, portanto, fico um pouco devedor. Mas isso não impede que 1) eu discorde da leitura que Calligaris fez do filme que ambos assistimos e 2) me chame à atenção o vinculo feito entre um filme e outro, ou melhor, a coincidência de ambos tratarem de um único e mesmo assunto.

Eu não acho que o tema de A árvore seja o não-sentido da vida. Por aí começo, percebendo, desde já, que isso me levará naturalmente ao segundo ponto. A primeira coisa a fazer notar é que em A árvore não há um “narrador” (tal como afirma Calligaris ao dar o seu resumo do filme): não é narrador nem o garoto que cresce (vivido por Sean Penn) e se vê às voltas com as lembranças dos momentos que viveu junto a seu irmão morto, nem o próprio Malick, na medida em que não creio que possamos nunca afirmar que um diretor de cinema se equivala a um narrador, que é sempre alguém que se utiliza de palavras (e Malick , no filme, não pronuncia uma palavra sequer). E eu acho que, além de tudo, esse filme carece de um narrador (algo que, de resto, não seria uma novidade, já que inúmeros filmes, cada um à sua moda, também o fazem) por um motivo muito simples:  porque o silêncio é o seu grande protagonista.

O filme de Malick é um filme alegre, ainda que gire em torno de uma perda, da morte de um jovem. Como é que isso se dá? Bom, é aí onde entram as imagens à la National Geographic, mas não somente elas. Elas entram, sim, no momento de maior dor vivida pela família retratada – em especial, eu diria, pela mãe. Mas, é também – e principalmente – onde entram as incrivelmente líricas cenas familiares, anteriores à tragédia, feitas fundamentalmente de quê? De silêncio, inclusive aquelas em que se manifesta o conflito edípico ou, simplesmente, onde aparecem as dificuldades inerentes à pedagogia.

Jorge Forbes, a partir de Lacan, é alguém que tem chamado a nossa atenção para o fato de vivermos num mundo repleto de discursos, um mundo onde tudo tem explicação. Isso, inclusive, tem criado problemas justamente nesse universo tão importante que é o da criação de filhos: as crianças têm se cansado desse mundo tão cheio de palavras e razões e têm procurado coisas que vão “direto ao gozo”, tais como a música eletrônica e os esportes radicais (nos casos bons) ou as drogas e outros comportamentos pouco saudáveis (nos casos ruins). A dimensão do silêncio, desse silêncio que existe no simples fato de vida haver (por que? não se sabe, assim com não se sabe o por que de haver desejo), é uma dimensão cada vez mais rara nos dias atuais; e é bem aí que eu acho que se insere a câmera (e o microfone) de Malick. Nesse filme, o telúrico e o lírico se emparelham e se complementam como expressões daquilo que não tem explicação – e, daí, não ter nada a ver a compartimentalizacão das cenas à la National Geographic, como se elas tivessem a intenção de proporcionar uma explicação, ou devolver uma a um protagonista que não existe.

Se há um filme que se poderia relacionar a A árvore da vida, eu diria que esse filme é A fita branca, de Michael Hanecke. Peguei-o na locadora  e revi-o nesse ínterim entre assistência e escrita para verificar uma intuição que tive logo em seguida de ter visto o filme de Malick.

Esse filme alemão tem, ao contrário do americano, um narrador, que inicia e termina uma história. Tem, também, diversos discursos – ao contrário do de Malick , onde há somente fragmentos de discursos –  que se sobrepõe uns aos outros nas vozes dos seus muitos personagens, compondo um todo: o discurso do professor que narra a história, o do médico, o do pastor, do capataz, do dono das terras, de sua mulher, do camponês. E, como se não bastassem essas diferenças, o todo que se compõe a partir desses diversos discursos é, no fim das contas, um todo bastante triste. Mas, esses muitos discursos de A fita giram – feito uma fita branca que mais parece uma mordaça – em torno de algo perante o qual todos silenciam e que é o fato de no vilarejo onde a ação transcorre estarem sendo praticados atos (crimes) que não se enquadram em nenhum dos discursos disponíveis, uma vez que inexplicáveis, frutos de desejos.

E esses atos estão sendo praticados justamente por quem? Pelas crianças, como que a revelar o seu enfado (há, inclusive, uma cena bastante emblemática disso, que é a que ocorre quando um dos filhos do pastor resolve fazer equilíbrio em cima do estreito parapeito de uma ponte, para desespero do professor que o insta a descer de imediato,  e perante o que ele, depois de não atender o seu comando e atravessar a ponte por inteiro, lhe responde que “estava dando a Deus a chance de lhe tirar a vida”, ou seja, estava testando a própria vontade divina, sem intermediários). E eu até iria mais longe nessa percepção de que existe nesse filme uma abordagem sobre o silêncio do desejo, aproximando-o do de Malick, chamando a atenção para a escolha de Hanecke por uma majestosa fotografia em preto e branco, como que a aniquilar a cada instante, a profusão dos discursos, indicando que eles estão em excesso, que a realidade é bem mais objetiva.

Mas, voltando ao artigo de Calligaris, nada impede que se goste de um filme mais do que outro e de que isso seja dito. Eu ainda devo ver Melancolia e aí terei uma base para melhor poder concordar ou discordar do julgamento desse articulista e comprovar se, na minha visão, esse filme aborda o que sobre ele se disse (o não-sentido da vida e o que fazer com ele). O que me parece estranho é que se possa achar que dois filmes, assistidos no mesmo dia, versem sobre um único assunto. Isso leva-me a pensar em quanto há (ou pode haver) de narcisismo nesta atividade de escrever sobre cinema.

É certo: Calligaris não se propõe a ser um critico de cinema. Ele é mais um pensador que, dado o espaço semanal que tem, por vezes recorre ao cinema para, digamos, ativar a escrita (e o pensamento).  Crítica de cinema, parece-me, é bem outra coisa, que eu espero que escape a essa percepção de que o mundo gira em torno daquilo que pensamos ou somos. Estou começando a ler a esse respeito (o recém-lançado livro Cinefilia, de Antoine de Baecque), mas calco-me no que Jorge Coli, esse magnífico crítico e historiador da arte contemporâneo a nós, escreveu (e demonstrou) em alguns dos artigos que compõem o seu livro O corpo da liberdade (desculpem-me não achar a citação literal): que a história da arte possui uma especificidade, caminhos próprios que não necessariamente correspondem aos caminhos da história tal como a que escrevem os historiadores e nem aos caminhos da sociedade tal como os que descrevem os cientistas sociais – o caso emblemático sendo a péssima interpretação que o grande historiador inglês Eric Hobsbawm deu do quadro de Delacroix, A liberdade guiando o povo (narrada nas páginas 108-109 desse livro).

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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