Planeta dos Macacos: a Origem, de Rupert Wyatt

MACACOS QUE SABEM CUIDAR DE SI

Este último 7 de setembro foi um dia surpreendente, por dois motivos. O primeiro deles porque esta cidade onde moro, Brasília, afamada pela sua conivência com os ladrões poderosos e pela sua falta de pudor para com o uso do dinheiro público, promoveu uma manifestação de largas proporções contra a corrupção. Estimadas 25 mil pessoas ocuparam, vestidas de preto, uma das faixas da Esplanada dos Ministérios sob um calor e uma seca tão monumentais quanto os prédios que lá foram erguidos; e marcharam, em paz e com muita irreverência, durante três horas, fazendo todo o circuito que vai (e volta) do Museu da República até o Palácio do Planalto, passando pelo Congresso Nacional. Marchas similares haviam sido convocadas, também via internet, em outras cidades brasileiras, mas nenhuma “vingou” como a daqui. Foi dito que isso se deveu à convergência com o Desfile do Sete de Setembro, que ocorreu simultaneamente na outra faixa da Esplanada, mas isso não procede, a não ser que milhares tenham ido ver o desfile, coincidentemente, vestindo preto. O fato, que pode ser comprovado pelas fotos que fiz na ocasião (http://www.flickr.com/photos/andresribarra/sets/72157627626057604/), é que a cidade rugiu contra a roubalheira dos políticos.

A outra surpresa ficou por conta do filme Planeta dos Macacos: a Origem, de Rupert Wyatt. Fui assistir a esse filme sem expectativa alguma, meio que para matar saudade de ir ao cinema – pois as salas daqui andam acompanhando a seca rigorosa do clima, no que tange à exibição de alguma coisa que preste, e fazia tempo que eu não me sentava numa dessas grandes salas escuras que são, para mim, a tradução daquilo que são as igrejas para aqueles que acreditam num Deus. Eu nunca fui um seguidor da saga desses macacos que falam e que já renderam diversos episódios tanto no cinema quanto na televisão (inclusive, lembro-me, como paródia, num dos esquetes de Viva o Gordo).  Tinha, quando muito, uma curiosidade a respeito de como é que se poderia esticar um pouco mais esse enredo já tão remoído e sugado, qual um velho chiclete a dar voltas na nossa boca.

Pois bem, digo agora que esse Planeta (…) a Origem vale a pena ser visto não como uma contribuição à saga (da qual, na verdade, nem me lembro direito) ou por qualquer outra possível ligação com o passado de cada um em relação a essa história, mas pelo que esse filme nos fala a respeito do nosso presente e, eventualmente, do nosso futuro enquanto coletivo de humanos.

Alguns podem dizer que até aí, não há novidade, já que se trata de ficção científica, coisa com a qual eu concordaria plenamente. Esse gênero sempre me encantou enquanto sociólogo e pessoa envolvida (preocupada) com os destinos da humanidade que sou, creio, porque acaba sempre levando a um pensamento a respeito da sociedade em que vivemos. Nele, hipóteses são lançadas, a especulação se espraia e os neurônios se acendem em excitação. Mas eu ousaria dizer que nesse filme de Wyatt, há algo que o faz se destacar das (ou dentre as) grandes criações desse gênero, que é o fato de que ele oferece uma visão de um problema, atual, sobre o qual todos estamos debruçados – não só aqueles que têm uma sensibilidade sociológica, digamos – : o “problema” das revoltas que se vê acontecerem aqui e acolá, difusamente, no mundo contemporâneo (França, Espanha, Inglaterra, mundo árabe, Chile, Brasília); e que ninguém consegue explicar com precisão.

O enredo do filme gira em torno de um macaquinho que é adotado por um humano cientista que, por sua vez, andou injetando uma droga na mãe dele (macaco), droga essa que a fez ficar com uma inteligência acima do normal. A mãe morre e o macaquinho recebe a carga genética que lhe corresponde, tornando-se um super-dotado a olhos vistos. Pois bem, acontece que essa característica vai lhe permitir, na medida em que cresce, se dar conta de um fenômeno ao qual damos muito pouca bola (pelo menos enquanto objeto de indagação intelectual): o poder. Ele percebe tanto o poder que se exerce sobre ele, quanto o poder que ele pode, a partir de certas circunstâncias que se dão no enredo, exercer sobre os demais do seu gênero. E, num passo adicional, tendo-se tornado um líder, ele percebe que existe um poder que se exerce entre gêneros animais diferentes (humanos sobre macacos), uma situação da qual só se pode sair por meio da insurreição, pois, como se sabe, o planeta – esse que dá título à saga –  é um só.

Um dos aspectos mais fortes do legado de ideias que nos foi deixado por Michel Focault diz respeito ao fato de o Ocidente, a partir de um certo momento, ter dado uma ênfase exclusiva, quando o assunto é conhecimento, especulação intelectual, à questão da verdade, tendo deixado de lado a questão do poder (como se esse último fosse um entrave ou uma mancha a sujar de subjetividade a procura pela verdade dita objetiva). O poder é um fenômeno que acontece em todo canto onde existem relações e, portanto, é passível de ser tematizado pela razão. Sociedades tais como as sociedades indígenas das terras baixas amazônicas, diz-nos a sua etnologia, dedicam-se, por meio de seus xamãs, a esse conhecimento, em que se reconhece a subjetividade perspectiva de outras espécies. Platão, chamou-nos à atenção Foucault, ao dar a sua contribuição ao grande debate antigo em torno do cuidado de si – debate esse que durou mil anos, ou seja, bem mais do que eu creio que vá durar a saga desses macacos que a década de 1970 inventou, mas que acabou, por seu turno, “sumindo” no tempo – também tinha essa preocupação: que a alma, objeto central de sua indagação, fosse uma  alma-sujeito e não uma alma-objeto (e para tal, era necessário que se conhecesse e se nutrisse uma subjetividade capaz de conduzir ao invés se ser conduzida, tal como lê-se no dialogo Alcibíades).

O macaquinho de Planeta (…) a Origem deu conta de dar esse salto cognitivo proposto por Foucault. Pensar (e perceber) o poder enquanto tecnologia e, a partir disso, desenhar possíveis novas tecnologias dentro dessa esfera, sabendo que o poder sempre vai existir (e assim evitando as utopias que prometem com ele acabar): eis algo que deveria estar desafiando os nossos cérebros humanos e que nos ajudaria a entender aquilo que não estamos entendendo. O gesto do macaquinho de, em determinado momento do filme, recusar a proteção do seu “pai adotivo” é parecido demais com o gesto que eu presenciei na marcha do 7 de setembro, de hostilizar de forma ostensiva e consensual um militante do PC do B que lá deu as caras paramentado de militante do PC do B (camiseta, bandeira). “Oportunista, oportunista” foi o que se ouviu – e foi o que teria ouvido qualquer outro militante de qualquer um desses partidos que se dizem ou que se acham donos da verdade.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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2 Responses to Planeta dos Macacos: a Origem, de Rupert Wyatt

  1. Mario Salimon disse:

    Compadre: mando um abraço e os parabéns por mais um texto brilhante. Gosto porque falamos de uma articulação de campos distintos no que poderia ser, simplesmente, de crítica a um filme. Como a boa música, pode ser lido e entendido em camadas, por gente de distintos graus de formação.

  2. Que bom que vc. gostou e obrigado pela manifestação de apreço. Saudades de vc.! Vamos nos encontrar um dia desses. Estou curioso sobre o lançamento ocorrido lá na Big Apple e sobre como andam os teus demais projetos. Abs.

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