Noé, de Darren Aronofsky

UM NOÉ ANTI-BÍBLICO?

Talvez uma das ideias mais interessantes que Michel Foucault tenha tido na última fase de sua trajetória filosófica – essa que lhe tomou os seus últimos oito anos de vida e que é tão mal compreendida, posto que consistiu num inesperado mergulho na Antiguidade grega e romana – tenha sido a de que o Iluminismo – essa empreitada que se estende do século XVIII até os dias atuais a nos fazer crer que a ciência seja capaz de nos dar a resposta para todas as nossas inquietações – seja algo que deriva, ao contrário do que tudo levava a crer, do advento do cristianismo e não, propriamente, de uma raiz grega, platônica. É essa uma ideia deveras chocante, que não recebeu, ao meu ver, até agora, uma devida atenção por parte dos comentadores da sua obra.

Foucault, quando levantou essa possibilidade, estava querendo mostrar que foi somente com o cristianismo – que resultou, por sua vez, de toda uma lenta revisão das noções de sujeito e da cultura de um cuidado de si platônicos – que se gerou essa noção de que o universo é uma totalidade ordenada (e, portanto, passível de ser conhecida, bastando com que se aceda ao ponto de vista divino); noção essa que ainda vigora no mundo contemporâneo, a partir das Luzes do dezoito. (O motivo de o mundo estar tão chato, aliás, passa justamente por aí: tudo, cada vez mais, tem uma explicação, todos passando a viver na angústia de tudo saber, de não perder nenhum lance sequer dessa abundância de razões que a internet e os media, feito uma cornucópia moderna, nos proporcionam.)

Pois bem, esse preâmbulo todo foi para iniciar a minha defesa de um filme que, até onde sei, tem sido mal compreendido e, no extremo, rejeitado: Noé, de Darren Aronofsky.

Grande parte do desconforto em relação a esse filme parte da percepção de que se trata de uma superprodução hollywoodiana (provavelmente), com certeza mais interessada nos cifrões do que em dizer algo de interessante. Eu teria embarcado nessa arca não fosse a minha admiração pela filmografia de Aronofsky, já comentada por mim em post anterior. Ele nunca foi um cineasta “vendido ao capital”, como se costumava dizer há tempos atrás (não só de cineastas, mas de todo artista ou ser pensante que traísse a crença de que “a verdade” salva): por que é que, agora, ele o seria e, justamente, através de uma figura bíblica? Havia algo de errado nisso… Era urgente que eu tirasse a limpo esse ruído.

Acho que Noé deve ser visto com os olhos atuais. Qualquer tentativa de exigir fidelidade ao texto bíblico ou coisa parecida (existem os historiadores da Bíblia), me parece fora de propósito. Em assim sendo, vejamos que Noé é um sujeito que acede a uma (dura) “verdade”: a humanidade não presta, em tudo o que ela mete o bedelho, termina por ocorrer um degringolar certeiro. Ora, quantos dos nossos contemporâneos, partindo de boa parte das hostes da ecologia, passando por uma vasta corrente da filosofia política e terminando nos que pregam purificações numa e noutra direção, não replicam verdades dessa ordem? Quantas vezes ao dia nós mesmos não chegamos a conclusões semelhantes ou próximas? Basta um rápido acesso ao facebook para perceber que Noé já escapou da Bíblia há muito tempo!

O interessante, contudo, é que o Noé histórico (ou bíblico), esse que vemos na tela, ao contrário de nós, milhões ou bilhões de noés, tem à sua volta nada mais do que a sua família: sua esposa, seus filhos, uma nora. O restante dos humanos que aparecem são, de fato, um perigo muito maior do que o oferecido por qualquer outra “besta”. O futuro da frágil humanidade está em suas mãos de uma forma que seria impossível a nós noés de hoje (até mesmo os chefes das grandes nações têm que lidar uns com os outros). Mas, ainda assim, ele é um noé, um ser aturdido e premido, como nós, pela “verdade”.

Noé, o filme, vale a pena ser visto porque narra, de forma visualmente magnífica, a história de um homem que conseguiu, em nome da vida, dar um “chega pra lá” na ordem, no perfeito, no redondo, no total. Acho que quando Foucault mergulhou no universo de Platão, era algo dessa ordem (sic) que o impulsionava.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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