Uma tradição familiar

RÉQUIEM PARA UM PEUGEOT

Herdei, com toda a certeza, de minha mãe um certo sentimentalismo em relação às máquinas que nos servem no nosso dia-a-dia, em especial os carros. Havia sempre um pouco de choro e um certo ritual de despedida cada vez que um carro por ela dirigido ocorria de ser trocado por outro. Não me lembro qual foi o momento em que, na casa dos meus pais, passou a haver dois carros: um para cada motorista, sendo que acabou caindo nas costas dela o papel de motorista, digamos, titular – que era quem nos levava e trazia da escola, levava ao clube onde praticávamos esportes na sequência do período escolar e demais diligências. Assim, o carro “oficial”, sempre oriundo de alguma concessionária, era o dela, ao passo que o do meu pai era, via de regra, um carro semi-novo, destinado a rodar, aparentemente, até cair.

(Faço um parêntese aqui para chamar a atenção pro fato de que meu irmão parece ter herdado essa outra parte da tradição familiar, a que coube a meu pai, de ir e vir nas pistas desta cidade veículo-destinada dentro de um forte concorrente a coágulo das suas artérias viárias).

Mas eu falava do apego por esses seres (sic), os carros. Se formos ver eles quase se assemelham aos animais domésticos que abrigamos em nossos lares ao mesmo tempo em que eles – em especial os cachorros – nos abrigam nos seus corações. Sua vida útil é parecida; de todo modo, sempre menor que a nossa. “Dão” oficina quase que da mesma forma que aqueles dão veterinário. E, enfim, não reclamam, se adaptam ao nosso ritmo e vícios. São, quem sabe, nossas mais completas testemunhas – e ainda, por cima, com a vantagem de nunca, nada, revelarem.

A vida útil desse carro de que ora me despeço está perto de seu fim. Os detalhes são relevantes: oito anos, quase duzentos mil km. Recentemente tive que trocar o seu cárter – o recipiente, no motor, que armazena o óleo quando esse não está, devido ao movimento, evitando que pistões friccionem as paredes dos dutos em que esses vivem presos. De tantas trocas desse lubrificante, o orifício por onde ele escoa havia se desgastado e já não havia mais como improvisar lá uma bucha de contenção. O mesmo tipo de improviso estava vigente no mecanismo da janela do motorista que, depois de um estalo, não subiu mais e teve – o mecanismo – que ser substituído pelo de um modelo mais novo, já que estava complicado achar uma reposição de pleno direito. Mangueiras do sistema de refrigeração estavam inchadas e também em falta no mercado. Enfim, chega uma hora em que se adquire (ou não) a consciência de que não é mais de um carro que se trata, mas de um preâmbulo para uma boa sucata.

Contudo, quanta gentileza a desse francês, que jamais deixou de detectar as gotas de chuva caindo sobre o para-brisa, tomando de imediato, como um bom mordomo, a atitude de ativar o limpador correspondente. A mesma presteza ocorrendo por ocasião da escuridão: delícia entrar em túneis ou garagens subterrâneas sem ter que acionar botão algum pra jogar luz lá dentro, pois já havia alguém (sic) atento a tal tipo de alteração. E o que dizer do ar-condicionado? Novamente, medições atentas eram feitas para fazer com que a temperatura ambiente correspondesse à desejada, com variações, numa certa faixa, de meio ponto centígrado! E, ainda por cima, o sujeito (sic) era poliglota, informando em diversas línguas (aprendi variadas de suas expressões na simpática telinha outrora futurista) a iminência de falta de combustível ou a necessidade de uma revisão.

É chegada a hora de um novo “servidor”, que vem prometendo maior estabilidade em curvas (suspensão inteligente), economia (mais ainda?), controles e conectividade com o mundo em mais alta proximidade e escala, sem dispensar o conforto do ar-condicionado digital.

Estou revendo – ou simplesmente vendo, em alguns casos – a saga de Star Wars, composta, até o momento, de seis episódios, e acabo de ver, no quarto deles – na verdade, o primeiro a ser filmado, já que a saga não foi filmada em ordem cronológica –, uma cena em que o androide C3PO é barrado ao entrar num bar na companhia de Obi Wan Kenobi e Luke Skywalker: “não aceitamos androides aqui” grita, do balcão, o dono da espelunca onde, não obstante, toda uma fauna de figuras, dos mais diversos quadrantes do universo, se refestela. O grupo de aventureiros intergalácticos aquiesce, mas a pergunta, óbvia, diz respeito a que tipo de “birita” o famoso “ser de lata” estaria interessado. Acho que George Lucas, o criador dessa incrível saga – que, por sinal, partiu de uma imagem, por ele concebida, dos dois droides (C3PO e R2D2) vagando deserto (de um planeta longínquo qualquer) afora atendendo à missão a eles repassada – anteviu, de forma genial, todo um novo mundo, não necessariamente muito distante: um no qual devemos deixar que os droides adentrem os lugares que frequentamos e se sirvam do que quer que lhes dê gosto.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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