Adeus à Linguagem, de Jean-Luc Godard

UMA DIMENSÃO QUE SE CONSOLIDA, FINALMENTE

Vale a pena, tenho a convicção, ir mais de uma vez a assistir a Adeus à linguagem, último filme de Jean-Luc Godard, agora em cartaz. Ainda pretendo fazê-lo: trata-se de checar coisas ouvidas, para além das vistas – a que não há como não prestar atenção, seja pelo 3-D, seja pela mera beleza das imagens, as quais eu chamaria de nada menos que celebrativas. Um barco, tipo um ferry, singra um lago, atraca, enquanto casais, em terra, procuram entendimento (Aufklärung) a partir de livros. Celebra-se, duplamente: o cinema, a replicar a sua primeira imagem, em modo agora fluvial – em vez de ferroviário –; e a literatura – não aquela que está presente nesses livros que os casais escrutam, mas na sua simples encenação, eu diria, joyciana, em que importa mais um fluxo (linguístico?) do que propriamente a materialidade dos personagens e do que lhes ocorre (não é à toa que, a certa altura, se fala dos rios, daquilo que eles, desde sempre, nos têm a contar).

Sim, a opção pelo 3-D expande, de forma a quase nos nocautear, uma tendência plástica já presente desde, eu diria, Je vous salue, Marie. Imagens são coisas que se armam, podendo, no cinema, subvertê-lo, posto que esse nunca foi plástico. Uma tela de TV, com corpos a passar na sua frente, como que a recortar o que se narra lá dentro – nem que seja mera estática –, isso já consiste num efeito visual suficientemente eloquente. Quando esse jogo entre planos recorre à nova tecnologia – justamente aquela que se especializa nesse jogo em particular – o acerto é total, definitivo: mesmeriza-nos fatalmente.

Não se trata, veja(m) bem, de uma forma de aproximação de uma dada realidade. A leitura corriqueira do 3-D passa muito por aí, mas o que se vê em Adeus à linguagem, a partir dele, é, mais, uma espécie de deslocamento, a permitir que o mecanismo plástico cresça, que os recortes, no seu interior, se deem numa nova direção, por vezes (propositadamente) atordoante. Assim, permite-se a entrega à mera – e prazerosa – observação das ações/reações de um reles vira-lata, uma vez que a dimensão de pensamento (linguagem?) se lhe acopla – ainda que por meio da sugestão de um narrador – quase sem esforço algum. No fundo, o “adeus” do título é zombeteiro, já que pode-se lançar a dúvida de se a dimensão que se acrescenta (em paralelo, é claro, ao feito meramente tecnológico, hoje já banal) a esse universo de vigência plástica não é justamente a da linguagem, em forma de pensamento.

E eis que caímos nesse motivo pelo qual recomendo (a mim mesmo, inclusive) uma segunda assistência a esse filme: o pensamento. Godard sempre foi um cineasta amigo das ideias. Ideias são pensamento e, aqui e acolá, no filme, algumas aparecem, são enunciadas, mas o vórtice em que estamos envoltos, como se fôssemos coelhos sendo puxados de uma cartola, mal permite que lhes demos atenção. Ouvi, por exemplo, algo sobre imagens assassinas. Assassinas de quê? Confesso que não registrei: preciso voltar lá pra checar. Mas sei que ali está, também, Godard, o pensador atento à História. E pode ser que ali esteja, também, uma verdade. (Meu deus! Já não bastasse ter-nos ele pendurado pelas orelhas, ainda joga esse molho, como que a finalizar um fino prato de alta gastronomia!)

Por fim, disse acima que o título seja porventura irônico, mas há um aspecto de Adeus à linguagem que faz jus, deveras, ao adeus dado. Trata-se da própria edição do filme, em que se pratica uma clara despedida: uma fala começa e é interrompida por um corte abrupto, cenas idem; ou então, há repetições, inclusive na numeração das partes; ou então, diversos pensadores (Platão, Sartre, etc.) são incluídos nos créditos finais, ao passo que, no começo, avisa-se que, por expressa ordem do diretor, nem todas as falas do original em francês foram traduzidas. O cinema não deixa de ser uma linguagem, um conjunto consolidado de protocolos – e Jean-Luc Godard foi um dos seus mestres incontestes – ; mas linguagens se esgotam. Ou não?

Esse, aliás, é outro tema lançado para que nosso paladar reflexivo não fique sem um devido ponto de apoio. A linguagem surge, necessariamente, de um face-a-face, diz uma dessas falas que preciso rever; e o que acontece quando uma rede de informática se lhe sobrepõe? A coisa é, além de lúdica e saborosa, grave.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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