O Mestre dos Gênios, de Michael Grandage

UM PAI DE FEIÇÕES CLÁSSICAS

Um filme pode ser perfeito? Até ter visto O mestre dos gênios, de Michael Grandage, eu acreditava que não. Como assim, perfeito? Que palavra mais alheia ao universo da crítica! Nada é perfeito, ainda mais em se tratando de uma obra – um filme, em longa-metragem – que resulta de inúmeras operações, tais como as que são julgadas por ocasião dos festivais ou, então, do Oscar: direção, atuação, roteiro, fotografia, som e por aí vai. Por outro lado, a perfeição já não está implícita quando se escreve – como tenho o costume de fazer aqui – sobre “grandes” filmes? O que é que levaria a separar um, dentre tantos, reservando-lhe essa palavra que talvez só caiba àquilo que é da ordem da ideia – e não do mundo real, de carne e osso ou, como se costuma dizer, sublunar?

Para que um filme seja perfeito é preciso que o seu segundo inicial já transmita algo, um conforto, de preferência. No caso de O mestre…, um filme que julgo perfeito, o que primeiro se vê é um aviso de que o que se verá em seguida é uma história real. A perfeição, no caso, está no tipo da letra escolhida, no tamanho, cor e tela de fundo. Há nelas, já, a indicação de uma disposição: a de ser clássico.

Outra palavra difícil para um texto que se propõe analítico! Clássico: o que há de específico nisso? Eu diria que a durabilidade ou, ao menos, a sua pretensão. O classicismo na história da arte propôs um resgate da antiguidade europeia rejeitando, de certo modo, tudo o que teria uma feição experimental, provisória – a exemplo do barroco. Mas não é o caso de se assustar com a perspectiva de um filme chato, como costuma ser tudo o que é clássico. Só aquele primeiro aviso é que aponta para um classicismo no que tange à forma. O classicismo desse filme reside em algo mais profundo: no seu conteúdo.

O mestre… aborda a relação entre um renomado editor na Nova York do crash de sua bolsa (1929) e um escritor sulista que lá havia se estabelecido sem ter, até então, conseguido que alguém desse o devido valor à sua literatura. Respectivamente, Max Perkins e Tom Wolfe. O primeiro, àquela altura, já tinha no seu portfolio a descoberta de escritores de grosso calibre como F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway. Era uma sumidade. Vivido por Colin Firth, era alguém que respirava literatura, mas dentro do estrito aspecto de sua viabilização – o que implica que ela seja capaz de se conectar a um público leitor.

Sendo assim, tendo abraçado o jovem e inédito escritor, cuida para que esse não se perca no excesso a que sua natureza o empurrava. São páginas e páginas que ambos se incumbem de abater, num trabalho que lhes consome parte substancial de seus dias. Wolfe, como se sabe, atinge o estrelato, mas consequentemente surge à sua frente a incógnita, comum, ao que parece, a todos os escritores: conseguiria ele produzir, novamente, algo à altura? Serão mais alguns anos de trabalho conjunto, com uma dedicação quase integral por parte do editor – que, por sinal, tinha uma extensa família para dar atenção.

A história poderia se resumir a isso: àquilo que custa a confecção da literatura destinada a se tornar clássica. F. Scott Fitzgerald, um personagem secundário no filme (mas não obstante presente), por exemplo, tinha dificuldades opostas às de Wolfe: demasiado cuidado na construção do texto, com a sugestão de que esse cuidado resultava de uma condição de extrema fragilidade da sua esposa, alguém com quem ele se importava (ao contrário de Wolfe). Mas a relação entre ambos (editor e escritor) também é atravessada pela questão paterna; e isso acaba contribuindo sobremaneira para que essa película, ao adquirir a capacidade de tocar num tema extremamente atual, atinja a perfeição aludida no começo.

Dentro desse aspecto – ao qual é dado um tratamento bastante sutil – uma cena em particular me chamou a atenção. Wolfe chega de navio da Europa, depois que seu segundo romance estoura em vendas, e Perkins vai espera-lo no cais. Ambos despacham a bagagem num taxi e, por desígnio do mais jovem, voltam a pé para “casa”. A certa altura, o escritor distingue um prédio e resolve escalar a sua escada de incêndio a fim de ter acesso, pela janela, a um apartamento em particular. O editor o acompanha, chamando a atenção para a transgressão em que ambos incorriam. A janela do apartamento – que, depois descobrimos, foi o primeiro domicílio do escritor ao chegar na metrópole – não abre (compreensivelmente) de fora pra dentro e o intrépido e cheio de si escritor se detém. Mas eis que o até então circunspecto editor, sem mesmo ter a noção prévia do porquê, enfia o pé na janela, quebrando-a. Ambos têm acesso ao apartamento e, depois, a um terraço, onde terão um diálogo decisivo, antológico.

O que me chamou a atenção nisso é o quanto estamos próximos das colocações de Jorge Forbes, meu guru, quando, num texto de 2011 (jorgeforbes.com.br/br/artigos/o-admiravel-novo-pai.html), colocou a questão da emergência de um “novo pai”. Não mais alguém que serve, ao filho, como “referência” ou “padrão” em uma “sociedade vertical”, mas alguém que “garanta a legitimidade da invenção de sua forma de viver. Se uma mãe autoriza a invenção, o pai a legitima.” O pai que banca as escolhas que o filho faz na invenção de si mesmo, dizendo, quando a hora é chegada, “vá em frente”: isso é uma função muito específica, diferenciada. São belas as palavras de Forbes:

“Pai é quem tem um sentimento sagrado por um filho. Sagrado vem de sacrifício. Pai é quem tem um amor radical – sem explicação – e que pode morrer por um filho. É esse ponto de amor radical que é detectado pelo filho e sobre o qual ele se apoia na invenção singular de sua vida. Um filho sabe que ali ele conta, que dali ele pode contar sua vida, dar-se à existência.”

Iniciei esta crônica apontando para o que há de clássico nesse belíssimo filme – e que passaria pelo seu conteúdo, não pela forma. E termino falando de um “novo” pai. Há, talvez, aí, uma contradição. Mas, talvez, essa função não seja algo assim tão nova. Acho que podemos encontrar, na filosofia grega, em Platão, talvez, algo do gênero: esse empurrão rumo ao existir. Talvez não teríamos chegado até aqui sem que essa função já não tivesse sido detectada – e exercida – como algo fundamental. A questão pode meramente ser a de que, hoje, os homens tenhamos passado a ter a consciência de que podemos ser bastante mais adequados – e felizes – nesse papel.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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