Ruy Fausto na Piauí

A GENEROSIDADE COMO PEDRA DE TOQUE?

Edificante. É assim, talvez, que melhor pode ser descrita a leitura do artigo “Reconstruir a esquerda”, de Ruy Fausto, na última edição da revista Piauí (nº 121). Edificante em que sentido? Bem, fundamentalmente no sentido de que se propõe a fazer um apanhado vasto do campo político atual, em que o confronto cara-a-cara de modelos tem provocado um agudo acirramento dos ânimos. A política, para dizer as coisas de outra maneira, uma zona que costumava quase dormir esquecida no cotidiano da maioria de nós, de repente se impôs com toda a sua pungência em nossas vidas, fazendo com que brotassem – tanto pra um lado quanto pra outro – facetas d’antes desconhecidas de todos. Toda uma reconfiguração social está em curso; e tem feito parte disso, quase que naturalmente, um entrincheiramento geral, ao qual ainda nos acostumamos, sem saber se um dia dele sairemos.

Trincheiras, o que são? Bem, são buracos onde nos escondemos protegendo-nos. Lá, encontramos gente, sem dúvida, e assim saímos de uma condição solitária, propiciada  pelo nosso cotidiano “moderno”. Bacana! Porém, convém não esquecer que estamos, ao seguir essa via, numa condição – a de matar ou morrer – que impede que exploremos o pleno potencial da ação coletiva, a ação conjunta, a de todos. O artigo de autoria de Fausto – um intelectual de inquestionável capacidade – parece-me ter o nobilíssimo propósito de tentar interromper uma dinâmica instalada em ambas as trincheiras por meio do exame das falas e das atitudes presentes em cada uma – ainda que a ênfase indiscutível seja, como já revela o título (e como era de se esperar pela “origem” do autor), da assim dita “esquerda”.

É bom que não nos distanciemos muito do campo pessoal. Essa tem sido uma característica do que escrevo aqui; e quando o assunto adentra a política, esse apego passa a ser uma garantia importante a nos manter distantes do tom que assume todo aquele que se julga “dono” desse bem tão melífluo: a verdade. Dito isso, registro que não me passou batida, a mim que venho me sentindo cada vez mais à vontade na trincheira oposta à que ocupa os cuidados desse autor, a menção aos seus mais eminentes frequentadores: gente da laia de um Olavo de Carvalho ou de um Reinaldo Azevedo. Caramba! É imprescindível estar atento ao que essa galera está dizendo. Barbaridades, por certo, principalmente no que se refere ao primeiro – o segundo, eu até tenho lido e concordado com algumas colocações. Mas eis que também entram dentro dessa mesma vala elementos com os quais eu já me identifico com maior facilidade e aos quais eu descubro que cabe um rótulo: os adesistas, como FHC, que, tendo a mesma “origem” (ideológica) do autor, se convenceram, ao longo do tempo, de certas inviabilidades.

Fausto, a certa altura, aprofunda a análise dessa – na sua visão – “degenerescência”. A explicação para que amplos contingentes da classe média, como é o meu caso, tenham tido, em algum momento, uma simpatia pelo marxismo recai sobre uma espécie de inércia. Daí, no momento em que ocorre, por qualquer motivo que seja, um desencanto, advém uma raiva – por ter sido presa fácil de um ardil. Os ideais marxistas pressupõem, para alguém do meu estrato social, um certo “passo” em que desponta uma “generosidade”. Com o desencanto, “muitos descobrem que nunca a tiveram”. Bom, essa é uma bala amarga que restou para eu chupar (acompanhada da pergunta, cheia de pontos de interrogação a lhe seguir: será?).

Mas, e do outro lado – aquele sobre o qual recai o grosso do seu esforço? Há aí um conjunto de observações/conclusões, eu diria, impagáveis, que vale a pena percorrer, ainda que isso possa, para alguns, adquirir as feições de uma via crucis.

Em primeiro lugar, temos o reconhecimento de que há o que ele chama uma “folha de serviços” da “experiência totalitária de esquerda” – e que se traduz em muitos milhões de mortos ao longo do século passado – representando “o oposto exato do que se pode considerar como o ideário da esquerda, no seu projeto original”. Há gente que defenda, ainda hoje, barbaridades que se enquadram nesse gênero e é bom que ele dê nome aos bois, pois são pessoas que gozam de um prestígio imerecido: Zizek,  Badiou – faltando mencionar seus congêneres nacionais, dos quais aquele que mais se destaca responde pelo nome de Vladimir Safatle.

Para Marilena Chauí também não sobra, com inteira justiça, nada de bom. Ela em nada tem ajudado a esquerda brasileira ao defender intransigentemente o PT, seja no mensalão, seja agora: “contra todas as evidências, Chauí continua insistindo no caráter ‘fascista’ da pequena burguesia”, ao passo que, “na realidade” uma parte dessa estaria “afinada com a esquerda e, frequentemente, com o melhor da esquerda”. Chegam a dar dó os argumentos por ela apresentados, recentemente, diante da consideração de uma autocrítica por parte do PT: esse termo faria parte de um expediente de regimes autoritários, tal como o da Rússia soviética. Inteira “cortina de fumaça” que conduz, finalmente, a um veredito exato (posso dizer já que fui seu aluno durante um semestre) de parte do autor:

“ela se mostra seduzida demais pelo aplauso dos auditórios. Ora, não há nada mais funesto, para a esquerda, do que esse tipo de sedução. Porque, infelizmente, digamos as coisas brutalmente, beócios não há somente no campo da direita. No nosso, é preciso reconhecer, os há também – em número considerável e, o que é pior, muitos deles costumam frequentar os anfiteatros. Para eles, quanto mais retórico, no mau sentido, for um discurso, e quanto mais afetado for o modo como ele é pronunciado, mais aplausos merecerá.”

O momento, porém, em que, ao longo do ensaio, Fausto é mais contundente é quando ele inicia a formulação de um programa a ser seguido, daqui em diante, pela esquerda. É preciso que essa adote um novo discurso, ao qual ele dá o nome de “discurso de verdade”.  Em que consiste isso? Em abandonar o “estilo profundamente religioso” que se tem adotado até o presente e que tem feito com que tenha se imposto “a ideia nefasta de que o discurso político é da ordem da retórica, e de que, portanto, não é necessário ter maiores preocupações com a verdade ao falar de política”. O conceito gramsciano de hegemonia seria útil nisso – desde que “despojado” de algumas de suas implicações políticas e filosóficas – na medida em que passasse a significar

“a exigência de ganhar para a nossa perspectiva, por meios que seriam essencialmente racionais, o apoio de amplas camadas da população. Dir-se-á que a política não se resolve pela razão, mas pelas paixões. Claro que sem os afetos não pode haver ação política nem mobilização. Entretanto, é essencial que o afeto surja sobre o pano de fundo de um discurso tão objetivo e comprometido com a verdade quanto possível.”

Isso se sintoniza, por fim, com uma brilhante defesa do regime democrático, visto por tantos esquerdistas como “’expressão política’ do capitalismo”. A democracia pode bem servir a esse, mas é preciso perceber que ela “tem um impulso próprio e, nesse sentido, representa um vetor de oposição virtual a uma forma social em que predomina a desigualdade”.

Brilhante é uma palavra, entretanto, perigosa. Ela tende a sugerir que aquele que faz ou diz algo dessa ordem seja incapaz de erros. Se assim o fosse, seria necessário requisitar o adjetivo de volta no que se refere ao ensaio de Fausto: sua apreciação, condenatória, do impeachment é um total engano, na minha opinião. Mas trata-se de uma seção isolada, cuja virtual inversão de polaridade não afeta a estrutura do todo. O que talvez seja um pouco mais grave – e que demandaria de sua parte um “será?” equivalente ao que ele fez surgir em mim – reside numa certa incompatibilidade entre a sua defesa – correta a meu ver – da verdade como necessário “pano de fundo” do político e o modelo que ele termina, na prática, por defender – e que ele insiste não ser utópico –, no qual se conservaria “o dinheiro e alguma forma de mercado, mais o Estado e a propriedade privada, ainda que não de todo tipo de bens” (ou seja, no fundo, o modelo dilmista de economia política, a ser replicado mundo afora). Fausto anda, anda, e não sai do lugar, ainda que tenha nos levado por um instrutivo passeio.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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