Gestores vs. Políticos

ALGUÉM QUE OLHE PRA NÓS

Foi, esse que passou, um ano que produziu, ao menos, dois grandes sustos, ambos tendo acontecido em lugares tidos como centrais para o mundo tal como ele hoje se configura. Fomos dormir, na noite anterior, nessas duas ocasiões, certos de que não havia chance para o equívoco; mas eis que tanto na saída da Grã-Bretanha da União Europeia quanto, mais recentemente, na eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos da América, parecia que aquela informação que abriu, em muitos casos, o nosso dia, ainda não tinha se descolado inteiramente do onírico (na sua versão, digamos, torta). Estávamos todos prontos para a ratificação de um certo desenho que consolidaria mergulhos há muito tempo dados em direção a uma gradual derrubada de fronteiras. Mas um elemento invisível aos radares da democracia – ainda que de modo algum desprovido de legitimidade democrática – pôs tudo a perder.

Tudo leva a crer que esse elemento sejam as classes operárias desses dois países, afetadas tanto economicamente quanto fantasmaticamente pela globalização. Fica difícil, portanto, falar num crescimento, pura e simplesmente, da “direita”: isso implicaria em que esse esquivo ator social tivesse, por algum motivo – o canto da sereia populista, um grau inusitado de “alienação”? –, aberto mão de uma autoconsciência, algo bastante questionável.

Um exercício talvez bem mais profícuo seja olhar para o resultado, bastante semelhante sob o ponto de vista do recado dado, de ambos esses pleitos e se indagar sobre o quê pode ter mudado, nestes últimos tempos, na agenda política da classe operária. O que é que um indivíduo inteiramente midiático como Trump pode ter visto para além daquilo que a análise política tem o costume de detectar? Falo em Trump, mas igualmente caberia mencionar o caso da eleição em primeiro turno do prefeito de São Paulo, João Dória, alguém com trajetória bastante similar à do republicano – provocou um racha no partido; se apresentou não como um político, mas como um gestor; tem um apelo midiático.

Um dos eixos de uma eventual resposta a essa pergunta pode bem estar justamente nessa oposição, nova, entre o político e o gestor. Ela tem gerado um certo curto-circuito nas conversas sobre política, a tal ponto de nelas pairar a suspeita de que se trata, no fundo, de um embuste, uma falcatrua: a partir do momento em que você se apresenta ao universo da política, por mais alheio que tenha sido, até então, em relação a ela, você não tem mais como ser enquadrado de outra forma. A resposta que os candidatos que se apresentam como gestores têm dado a essa afirmação é a de que, eleitos, pretendem seguir na ignorância da política.

Conseguirão? Provavelmente não. Por mais focados que passem a estar – enquanto gestores – em indicadores de desempenho, em resultados, sempre se fará necessário definir quais são os indicadores que realmente contam – e isso passa pela política. Contudo, ao menos enquanto projeção de um desempenho imaginado, ao se apresentarem como não-aderentes a esse universo, eles tiveram (e tem tido) sucesso – o que remete para a suspeita de que há algo que, simplesmente, não funciona, hoje, naquilo que se entende por “política”.

O que será isso? O que terá levado o eleitorado norte-americano, britânico, paulistano a opções (tidas como) tão desvairadas, a um “chutar o pau da barraca”? Pode ser que cada caso seja mesmo um caso: que não tenha sido exatamente o operariado paulistano aquele que elegeu Dória. Mas, ainda assim, cabe insistir na hipótese de que tenha sido uma mesma percepção sobre os efeitos da política o que tenha causado essas três surpresas tão grandes – e possa vir a causar outras tantas.

Advogo que a política tal como tem sido entendida até o presente tem se revestido de uma qualidade que não lhe é necessariamente intrínseca: a verdade. Não me refiro, nisso, ao necessário vínculo que essa atividade deve possuir com aquilo que é real (esse é, aliás, um ponto com o qual concordo na autocrítica, recentemente por mim comentada aqui, que Ruy Fausto fez, há pouco, relativa à esquerda). A verdade deve ser um pano de fundo da política; mas ela não é a sua razão de ser. Contudo, ela tem assim se apresentado, tranquilamente repousando sobre dogmas.

Isso é característico do que ocorreu no Brasil dos últimos anos, quando a insistência num modelo econômico com fortes traços de vínculo a uma verdade iluminada conduziu-nos à presente recessão, enquanto que um dos principais sustentáculos desse “estar com a razão”, a não tolerância com práticas corruptas, se esfacelava, como mentira, diante dos nossos olhos. Há de se levantar, do mesmo modo, tudo o que há de inexorável na globalização.

Se a política tem esse laço interno com a verdade, tudo indica, parecem dizer os eleitores desses três centros, que a verdade não nos favorece, pois o que nos tem sido entregue, pelos políticos, não tem sido bom. Dane-se, então, a verdade, essa verdade – e isso se coaduna com o grau de agressividade/desfaçatez adotado, na campanha, por um Trump, sem que lhe tenha sido, no final das contas, prejudicial. A política – essa arte do ajuste entre o possível e o impossível de ser realizado coletivamente – precisa, então, mais do que provar teses (universais), começar a apresentar benefícios palpáveis, até porque (e uma vez que) seu custo – em cujo cálculo entra a corrupção, essa sim, tudo indica, inescapável – tem se demonstrado exorbitante. Não parece que estejam tão errados esses eleitores.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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