Super Só & Outros Videoclipes, de Miriam Virna e Cia.

SUPER ACOMPANHADA

São bem diversos os caminhos do músico e do ator ou diretor teatral. Teatro envolve outras pessoas, grupo, ao passo que o músico pode tranquilamente sobreviver a uma rotina solitária; como se, ao ouvir o que sai da sua interação com um instrumento – que pode ser a própria voz –, esse último já conseguisse um suficiente retorno para “seguir em frente” em sua pesquisa. Claro que músicos também formam grupos, sejam bandas ou orquestras: a questão é que, mesmo nesses casos, o que cada um faz depende muito pouco do aporte do outro, o resultado do encontro se concentrando no som – e não na pessoa (ou no corpo) de cada performer. O espaço cênico é um espaço restrito, escasso, que se altera a qualquer piscadela do ator, ao passo que o do som não tem limites, acontecendo na “vastidão” da cabeça de quem o ouve.

Feito o registro dessa distância, gostaria de chamar a atenção para o espetáculo Super Só & outros videoclipes, em que sua autora e codiretora (além de atriz), Miriam Virna, nos apresenta o fruto, extraordinário, de um salto que ela se atreveu a dar entre um e outro desses caminhos artísticos.

Miriam é formada em artes cênicas e, mais significativo que isso, alguém que vive de teatro, que tem uma trajetória teatral de sucesso, tanto como atriz (inicialmente) quanto como diretora e dramaturga. Já encenou inúmeras peças em diversas demonstrações de domínio do fazer teatral. Não sei se ela concordaria – declaro que se trata de uma amiga – se eu dissesse que ela é principal sucessora de um gigante do teatro brasiliense, Hugo Rodas, mas o fato é que boa parte do que encenou ao longo do seu percurso até essa peça (que está em cartaz até dia 29 no Teatro Garagem) levou algo da abordagem e do arsenal de recursos desse genial diretor uruguaio, aqui radicado.

O teatro dionisíaco de Rodas sempre teve conexão com a música, mormente a partir do seu aspecto rítmico, provocador da dança – a tal ponto que muitos o consideram, antes de tudo, um coreógrafo. Miriam Virna explorou essa conexão à saciedade em sua obra pregressa; sempre, porém, inserindo nela um toque pessoal de humor, algo a distanciar sua produção de um certo pendor ao drama presente na obra do seu mestre: necessidade de diálogo com o presente, o atual, o vivo, mais do que com o eterno ou arquetípico.

Super Só conserva toda essa verve. Poderíamos, porventura, destrinchar esse novo espetáculo nesses aspectos antes vigentes – dança, canto, humor, contemporaneidade, algum deboche – sendo acrescidos às geniais projeções de João Angelini – codiretor desse espetáculo junto, ainda, com William Ferreira – numa parceria que já vem de algum tempo. Poderíamos igualmente elencar outras parcerias reeditadas com outros grandes profissionais locais (Marcos Barozzi nos figurinos, Dalton Camargos na iluminação). Não poderíamos, em momento algum, deixar também de notar o trabalho com atores monstruosos (por mais que muito jovens), tal como é o caso de Roberto Dagô e Elisa Carneiro. Em suma: teatro a pleno vapor.

Entretanto, creio que não conseguiríamos entender, na sua plenitude, esse espetáculo se não nos déssemos conta de que Miriam Virna, a certa altura de sua andança, aderiu à música, tornando-se uma compositora. Talvez, adesão não seja bem a palavra certa, dado o fato de que ela estudou música quando mais nova; digamos, melhor, que se trata de uma aceitação agora plena e definitiva. Super Só tem, no seu subtítulo, a denominação de videoclipe; isso porque, no fundo (ou em grande parte) o espetáculo como um todo se trata da encenação de diversas canções, por ela compostas. Tudo bem que há uma trama, que há diálogos e personagens; porém, não se trata de uma peça: a dramaturgia presente é, eu diria, a matéria que escorre, quase como um excedente, das canções, desse conjunto que é estritamente musical.

Canções às quais é preciso dar atenção. São autossuficientes e geniais. E respondem a um universo único, de forma única. Algo que, na minha opinião, só pôde vir à tona a partir da vivência que Miriam teve, por alguns (últimos) anos, fora de Brasília, no Rio de Janeiro. Note-se: a peça (que não é peça) acontece em Brasília. Contudo, sua visada, humana, é uma que dificilmente é acessível a um(a) filho(a) desta cidade vocacionada ao sobre-humano, ao super.

Super Só é um super-herói que, como me explicou a autora antes que eu o assistisse, paira, como algo virtual, ao longo do espetáculo. Eu já conhecia a canção homóloga e sabia tratar-se de alguém com o terrível dom de congelar o sentimento alheio, de destruir o gozo da vida – essa decorrência natural do encontro entre pessoas. De onde saiu esse terrível ser, qual a realidade a que corresponde, do quê é a expressão, o fruto? Para mim está claro que a resposta está nesta cidade tão ordenada, tão repleta de caixas, setores.

Brasília é cidade difícil, em particular para as artes – que precisam de burburinho, de público. Porém, volta e meia daqui surgem artistas, criadores, destinados a nos marcar, por gerações a fio. Pense-se num Renato Russo (a quem tive a oportunidade de conhecer). Miriam Virna, com o seu Super Só, demonstra estar à altura desse ícone da música pop brasileira. A correspondência entre ambos não está, contudo, meramente no fato da mesma origem mas sim no próprio campo em que ambos jogam – ou jogaram, no caso dele – e que, mais do que a música ou a poesia é, como deixa claro a narradora de Super Só, o campo da ficção, da imaginação perpassada pela palavra. Uma diferença, porém – e uma vantagem significativa –, é que ela, por força do teatro, está cercada de gente (e que gente!).

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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