O último Rushdie e a nossa política

A PROPÓSITO DO NOSSO DESALENTO

The Golden House, o mais recente – recém-lançado – romance do escritor anglo-indiano Salman Rushdie, talvez seja a sua maior realização literária até o momento. Sendo seu assíduo leitor, essa afirmação tem um peso pois, afinal, seus livros têm sido um dos grandes deleites da minha vida. Tinha pra mim que seria difícil ele conseguir superar a sua grande “sinfonia”, Os filhos da meia-noite, escrita quando ainda era um autor desconhecido, quase estreante. Pérolas, em quantidade, vieram depois (O último suspiro do mouro, O chão que ela pisa, Shalimar, o equilibrista, A feiticeira de Florença), bem como o atrevido Versos satânicos, que lhe rendeu a mais estúpida das sentenças – de morte! – por parte de uns poderosos globais que lá viram a sua crença ofendida. Coisas nem tão boas também saíram de sua pluma, como creio ter sido o caso do seu anterior Dois anos, oito meses e 28 noites, ou Luka e o fogo da vida.

O que há na prosa de Rushdie que tanto me encanta? São diversos elementos que se entrecruzam o tempo todo. Ele sabe muito – e nos ensina – sobre o amor, em especial aquele que existe entre um homem e uma mulher. Sabe como ninguém que a sedução é a regra do jogo da vida e que ela, feita de gestos e, principalmente, de palavras, está presente também no momento em que se abre um livro e se começa a sua leitura. Também tem a coisa do desterramento, de como culturas inteiramente estranhas umas às outras se veem obrigadas, por meio dos seus egressos, a se entender porque agora habitam um mesmo e sempre renovado “mundo”.

Mas eu diria que em primeiro lugar está a sua capacidade (imaginativa, mas nem por isso fantasiosa) de nos evidenciar os centros nevrálgicos da atualidade – ou de antanho, como foi o caso em A feiticeira de Florença –, onde precisamente circulam os poderosos. Pipocam em suas páginas personagens que decidem nesse nível concreto que é o das finanças, da produção: banqueiros, empresários, diplomatas, astros do showbusiness, gente que detém, porque precisa, toneladas de informação – um paralelo pode ser feito com a matriarca do filme de Carlos Saura, Mamãe faz cem anos, que, apesar de acamada, sabia de tudo o que ocorria em sua mansão, com seus filhos, netos, noras e genros. Essa elite, por sua vez, não-raro se depara com o mundo do crime, onde despontam tipos que, igualmente, não-raro, se tornam “elite”. (Penso que é bem possível que o desvendamento desse tipo de promiscuidade, estendido ao caso de uma religião em específico – e note-se que se trata do islã, a religião sob a qual Rushdie foi criado – é o que tenha gerado tanta ira por ocasião de Os versos satânicos.)

E em meio a essa fantástica roda giratória sempre há a figura, classe-média, de um narrador. Classe-média porque é onde vigora, de início, uma certa crença iluminista, sempre em contato com uma profissão, um esteio seguro a partir do qual olhar para o que acontece – afinal, narrar já é uma forma de buscar uma ordem, uma compreensão pra esse caos, pra essa voragem do poder.

No caso específico de The Golden House, esse narrador classe-média é um film-maker nova-iorquino, descendente de belgas, que enxerga, na chegada de um magnata oriental e sua família – os Goldens – ao seu micro e exclusivo bairro na ilha de Manhattan, a chance de arregimentar as peças de uma história que virará, possivelmente, seu primeiro longa-metragem. Ele então se infiltra, feito um espião, nessa mansão que acaba se revelando – confirmando o seu faro – um poço de mistérios e dramas pessoais. Só que não, porque, lá pelas tantas, é claro, ele próprio se vê engolido na voragem (trata-se, aliás, de um dos pontos altos do livro, quando chega a autoquestionar sua legitimidade enquanto formulador de uma verdade, digamos, isenta, cogitando em procurar a ajuda de um psi qualquer, talvez abrindo mão, assim, da própria condição de narrador ou dono-provisório-da-verdade).

A crise pessoal vivida por René, esse jovem cineasta, filho de um casal de (impagáveis) professores universitários e nova-iorquino típico do ponto de vista do seu progressismo – uma forma de ver o mundo mais disposta a considerar os diversos aspectos de tudo o que se apresenta como novo – corre em paralelo à eleição de um “palhaço tenebroso” obviamente – porém não nominalmente – inspirado no reconhecidamente insano Donald Trump, o Curinga do desenho de Batman, para a  presidência dos EUA. Essa sacada simétrica talvez seja o que dá a essa última criação de Rushdie o traço da obra-prima: da mesma forma que o narrador corre o risco, ao aderir ao mundo corrompido dos personagens, de se perder de vez, essa nação que, tudo indica, seria a nova casa desse escritor anglo-e-agora-americano-também-indiano, também se encontra, com essa eleição, à beira de um precipício.

Os mecanismos que levaram Trump ao poder – dentre os quais desponta a apatia, reiteradamente lamentada, dos 90 milhões de votantes que não foram às urnas, mas também o impulso dos 60 milhões que nele votaram por conta, precisamente, de sua loucura, bem como a profusão, nos meios de comunicação, de “manufatrovérsias” –  possivelmente não tenham sido descritos, em lugar algum, com tamanha propriedade como agora faz Rushdie nesse romance. A sua escrita, portanto, à parte o fato de contar uma sensacional história – que nada deixa a dever aos seus demais grandes livros –, torna-se uma demonstração de que não cabe abandonar a via da razão: somos ainda capazes de compreender o que acontece e, em assim fazendo, de evitar a total escuridão que se apresenta. É, também, um manifesto!

Mas, para além de dar a conhecer, quase que em primeira mão e de forma tão resumida, essa contundente obra de ficção, o que me leva a tematiza-la diz respeito à nossa política, brasileira, atual, ao estado das coisas neste nosso país. Em especial ao sentimento bastante generalizado de desalento que corre nas conversas das redes sociais do mundo virtual ou não. Um desalento que ronda as eleições gerais que ocorrerão dentro de dez meses, mas que se origina dos últimos tempos, no mínimo, de mensalão e Lava-Jato.

Face ao drama presente nas páginas do livro que acabo de, apressadamente, resenhar, ousaria dizer que não vejo justificativa para um tal desalento. Explico: tanto na vida pessoal do narrador quanto na da nação norte-americana, a ausência da elementar verdade é o que arrisca pôr tudo a perder. A certa altura, o narrador descreve o mundo onde esse Curinga/Trump se torna governante como uma “bolha” em que “conhecimento era ignorância” e onde “o sarcasmo era divertido, mesmo quando o que era chamado de sarcasmo não era sarcástico, e mentir era divertido, e o ódio era divertido, e a truculência era divertida, e a atemorização alheia era divertida e a data era, ou quase era, ou poderia em breve ser, se as piadas viessem a funcionar conforme o previsto, mil novecentos e oitenta e quatro”.

Ora, por mais triste que seja a profusão de propinodutos, em todas as direções, a que já nos acostumamos no nosso noticiário diário, o que temos vivido nos últimos anos na nossa esfera pública não corresponde justamente ao esvaziamento de uma bolha com características muito próximas a essa? O nosso mundo não beirou se condensar em algo parecido à aprisionante, aterrorizante realidade descrita por George Orwell em 1984 – e a qual Rushdie parafraseia nesse trecho acima? Não temos hoje nossos pés mais no chão – por mais que esse seja sujo – do que quando vivíamos grandes, lambuzantes, derrisórias, mentiras? Não se tratará de fazer como o narrador desse The Golden House que, já numa altura avançada de sua narrativa, pede a licença para se ater à força e a algo como a resiliência (dailiness) da “vida tal qual ele a havia conhecido até então”, bem como para “convidar o vitorioso e gigantesco rei dos quadrinhos de cabelo esverdeado e a sua franquia cinematográfica de bilhões de dólares a sentar-se nas últimas fileiras e deixar que as pessoas de verdade toquem o bonde”?

  • Obs.: Traduções minhas.

About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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