O ocaso da esquerda

CAMINHOS CRUZADOS

Meu trajeto pro trabalho, todo dia, possui um grau de civismo difícil de ser equiparado. Passo por três palácios (Planalto, Justiça e Buriti) um Congresso Nacional, uma esplanada inteirinha de ministérios, dois tribunais (de Contas e de Justiça do DF, para não falar do Supremo, que avisto de longe), duas praças cívicas e dois memoriais (JK e Povos Indígenas) e, só então, adentro a Câmara Legislativa, o parlamento local, onde “ganho o meu pão”. Mas civismo não é só o lado estatal, dos poderes instituídos, com seus choferes e cerimoniais; ele também engloba aqueles que ralam dentro de ônibus apinhados, os que vendem pastilhas de menta no sinal e os que dormem debaixo de viadutos ou marquises. Vejo-os igualmente, além dos rostos dos que, como eu, manejam manivelas, pedais e volantes nos bancos dos seus automóveis até os estacionarem nas garagens das repartições ou conjuntos comerciais.

Foi em meio a isso tudo que me veio à mente, o outro dia, o Chico Buarque e a sua obra musical. Uma obra, como todos sabemos, vasta, onde figuram inúmeras pérolas da canção brasileira. Um verdadeiro colar, de onde jamais se poderia tirar a canção sobre o pedreiro que cai de cima da construção, morre e, ainda, atrapalha o trafego. Uma ode talvez insuperável a esse outro lado da moeda cívica a que me refiro acima; o resultado admirável de uma inspiração poética muito próxima dessa que me ocorre nesse trecho, inicial, das minhas manhãs.

Diante dessa proximidade, surge-me a pergunta: o que é que me distancia desse compositor, que assume, na atualidade, uma linha de frente de defesa do lulismo – a ponto de muitos dos que titubeiam nesse tema o terem como espécie de fiel-da-balança na hora de se verem forçados a assumir uma posição? Por que não o acompanho, também, no quesito visão da política? Vem-me à cabeça o termo “festa”: a figura de Chico Buarque seria a quintessência daquilo que ficou conhecido como “esquerda festiva”, um termo que eclodiu numa época em que havia, para a esquerda, uma outra alternativa, uma outra forma de existência: a luta armada.

Hoje, a luta armada – felizmente – é algo descartado. A maior prova disso – e, de quebra, de que a história de “golpe” no caso da queda de Dilma Rousseff não passou/passa de uma tremenda bravata – foi o fato de que, durante o impeachment, a própria chefe das Forças Armadas, uma ex-guerrilheira, sequer cogitou de algo como uma decretação de Estado de Sítio, um instrumento, aliás, constitucional – e legítimo, frente a uma ameaça real à ordem democrática. Teria restado, para a esquerda, nada mais do que sua vertente festiva?

Tendo – ainda nesse meu trajeto rumo à “roça” – a achar que sim; e, em seguida, me pergunto se não será essa a fonte principal da minha reticência ao filho do Sérgio Buarque de Holanda e, por tabela, ao lulismo. Estranho, porque, até onde sei a respeito de mim mesmo, sou alguém bastante afeito a festas – ou, ao menos, nada tenho contra! Onde estará, efetivamente, o cisma? Creio que é aí que a coisa – a minha reflexão –  começa a ganhar legítimo “corpo”: a questão não está no adjetivo, “festiva”, mas no próprio substantivo, a esquerda.

Acho que a esquerda tal qual se entende nessa expressão que a vincula à festa, essa esquerda que vive nos anos 1960 mas que insiste em frequentar a festa sempre hic et nunc do pensamento, está, na verdade – e apesar da visibilidade e hegemonia que possui na academia e na para-academia –, morta. Intelectualmente morta, tanto do ponto de vista teórico quanto daquele, prático, que diz respeito ao discurso.

No que tange ao primeiro, acredito que o embate esquerda-direita, tal qual se configurou a partir de Marx, já deu o que tinha que dar: não tem a capacidade de nos levar a canto nenhum mais. O socialismo real nos deu exemplos fartos de que, em nome de valores bastante belos e importantes, o que acaba por emergir das suas revoluções são estruturas de poder tão medonhas quanto (ou mais do que) aquelas que os comunistas vivem a denunciar. Uma nova grade de leitura da política necessita vir à tona. De fato, creio que ela já veio, através de Michel Foucault: foi o que tentei evidenciar em minha tese de doutorado, que está completando, nestes dias, dez anos de sua defesa.

No seu pensamento, que tem o exercício do poder como fulcro, Foucault ensaiou o deslocamento do eixo do entendimento da política para aquele, ubíquo, que separa os governantes dos governados. Os primeiros sempre a terem que ser suficientemente convincentes para estarem nesse papel; e, para tal, apoiando-se fortemente em saberes (variáveis no tempo, o que não os distancia muito de meras “narrativas”), dentro de algo a que ele deu o nome de governamentalidade. Os segundos sempre a portarem consigo a chispa da liberdade, por meio da capacidade crítica – daí, por exemplo, que Foucault nada tivesse contra a injunção kantiana que, aos súditos do rei de plantão, recomendava: “obedece; e assim poderás criticar o tanto que quiseres”.

No que tange ao segundo ponto de vista, parece-me que a utopia socialista, perpassada pelo valor da igualdade, vem sofrendo um progressivo descarrilamento frente a um mundo onde a diversidade já se instaurou de forma irreversível. Uma diversidade que se calca em direitos que, malgrado tudo, só emergiram no contexto onde surgiu o capitalismo: os regimes, democráticos, ditos liberais. Há coerência nisso, bastando, para se dar conta dela, que se tome a doutrina liberal a sério – tal como fez Foucault, que dedicou a ela um ano inteiro de pesquisa e ensino no Collège de France – já que, tendo a concorrência como princípio regente e a noção de que não existem valores absolutos, nada diz sobre a obrigatoriedade dos indivíduos terem que competir nos mesmos e limitados campos de atividade. Esses podem ser inúmeros, nada impede que se diversifiquem ad infinitum; e foi a partir disso que a economia mundial conseguiu dar o salto que deu e não para de dar.

A utopia mais interessante nos dias atuais – uma utopia que está em via de se concretizar, se formos olhar para o que acontece atualmente no âmbito da prática pedagógica em alguns países ou localidades do mundo – reside no reconhecimento da singularidade dos sujeitos. Nas comunidades de aprendizagem, por exemplo, tal como propostas por um José Pacheco (um pensador não está, de modo algum, sozinho) – uma das quais se inicia em breve bem perto de onde escrevo – trata-se, ao contrário do que se propunha nas pedagogias dos séculos passados, de formar pessoas, por meio do respeito às idiossincrasias – não modelos ou padrões a serem seguidos ou contingentes a serem controlados com maior facilidade.

Recentemente, organizei um seminário a respeito desse tema: o reconhecimento de diferenças na escola. Convidei brilhantes estudiosos de duas questões centrais dentro dessa perspectiva: gênero e relações étnicorraciais. Foi algo revelador do ponto de vista daquilo que está em jogo e que é o fim da violência e do preconceito (algo politicamente muito relevante). Mas também ficou bastante claro pra mim o quanto a pluralidade é algo de difícil digestão para os representantes sindicais, para os militantes de esquerda, também convidados para o debate.

Alguns dos próprios pesquisadores, por um lado tão agudos e imbuídos na defesa da diferença, acabam cedendo a esses últimos e suas afirmações que priorizam, como elemento a ser combatido, a “violência de classes” frente a esses outros tipos específicos de violência. Eles, estudiosos, aquiescem, aceitam uma hierarquia teórica desnecessária, mesmo quando não está 100% provado (muito pelo contrário, como se depreendia do que alguns deles mesmos acabavam de mostrar) que essas formas particulares e definitivamente palpáveis de violência tenham vínculo com esse outro gênero todo-englobante e de caráter teórico. A sensação que fica é a de que uma natação intelectual intensa e muito promissora – porque em sintonia com a utopia que surge do “chão de escola” – pode estar sendo feita pelos pesquisadores da diferença, para virem, em seguida, a morrer nas praias do discurso massificador e heteronomista de uma esquerda agonizante. Um discurso tão obtuso quanto o da “escola sem partido”, igualmente heteronomista – e que, no fundo, era o vilão implícito do seminário.

Uma pena. Porém, a lição que fica, ao menos pra mim, é a de que a intuição foucaultiana de conhecer os pormenores do liberalismo – e, inclusive, do neoliberalismo – à luz da governamentalidade, estava correta. O neoliberalismo conclama a um passo adiante na direção já aberta pelo liberalismo, de deixar que a lógica da concorrência prepondere na sociedade, expandindo os mercados: trata-se que também o Estado passe a ser regido por esse princípio. Não implica na não-existência do Estado – como, de resto, é muito propagado – mas na eficiência/eficácia/efetividade desse. Os governantes tendo que provar que estão à altura de lá estarem; caso contrário: tchau. Acho que a academia não deveria temer o liberalismo, assim como a escola, com seus pais e políticos incluídos, não deveria temer (ou “ter pânico”, como foi dito, de) abordar as diferenças. Disso, poderia surgir algo como uma esquerda já não mais defunta, mas vigorosa, a ser alegremente experimentada.

About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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