À Prova de Morte (Death Proof)

A VIOLÊNCIA TARANTINA

Fui ver o que eu achava que fosse o último filme do Quentin Tarantino, À prova de morte (Death Proof), sem saber que ele, de fato, é anterior a Bastardos inglórios. Tampouco sabia que se tratava do segundo elemento de um díptico do diretor com o cineasta Robert Rodríguez dedicado a homenagear a estética de filmes de baixo custo produzidos nos anos ’70 e exibidos em drive-in’s. O importante, contudo, é que se trata de um filme de Tarantino – Rodríguez, leio na ficha do filme, está na produção, mas a assinatura de tudo é mesmo do velho Quentin –, cineasta que já me provocou uma das sensações, de deleite, mais marcantes, com o seu Kill Bill vol. I, que eu já tive em toda a minha vida. A pergunta, era, então: será que ele conseguiria, novamente, algo parecido?

Filme de Tarantino parece ser sempre uma surpresa. Bastardos é genial já desde o seu começo, quando o rústico fazendeiro francês vê os nazistas se aproximando e acaba deixando que um deles, o refinado e poliglota coronel que chefia a inspeção de caça a uma família judaica, adentre a sua casa e realize o seu inquérito. Tudo leva a crer, desde o momento em que o fazendeiro finca o seu machado no tronco de árvore para, então, ir atender aos nazistas, que uma carnificina tarantiniana iria ter lugar, com o robusto fazendeiro arrebentando com o grupo de nazistas, a começar pelo refinado coronel. Mas, surpreendentemente, a inteligência do coronel, revelada ao longo do inquérito, acaba por promover justamente o contrário: ele consegue arrancar do fazendeiro, em lágrimas, a confissão e a localização exata da família judia escondida sob o assoalho da sala, onde os dois conversavam. Detalhe: sem ter levantado um dedo sequer, só por meio das palavras!

A violência, sim, é algo que você pode esperar ao ir ver um filme desse diretor. Ela sempre aparece, é o seu tema predileto. Só que ela nunca aparece da mesma forma. Em Bastardos, o mais interessante é ver, não só nesse episódio inicial, mas em outros que lhe seguem, a palavra – e não as armas ou a luta – a serviço dessa. O espectador “apanha” junto com o personagem ao qual é solidário a cada palavra proferida pelo inquisidor vilão e sagaz que não se deixa enganar, que não cai na mentira. Ele se vê cada vez mais acuado, sente, junto com o inquirido, que o inquisidor já descobriu tudo e que a próxima palavra naquele diálogo, tão civilizado, será a derradeira – e que a derrota será não somente fruto da força física do outro, mas uma derrota moral.

Pois bem, com À prova, independente da proposta estética da parceria com Rodríguez, voltamos (ou permanecemos) às ruas de cidades americanas, com seus carrões-fetiche, seus joints, sua comida rápida, suas pequenas ilegalidades e suas guns. Nada muito distante, em outras palavras, de Cães de aluguel, Pulp fiction, ou Jackie Brown. As mulheres são lindas e têm uma língua afiada e solta, mas nada que se compare à exuberância das mulheres de Bill. Então, onde estaria a surpresa, a marca de todo filme desse cineasta?

A violência demora um pouco para aparecer em cena. E quando aparece, aparece com a sua face mais grotesca. As cenas de carnificina inicias, aviso, repugnam, dão embrulho no estômago e, em muitos, o ímpeto de se retirar do recinto escuro onde se encontram. Surge, então, a incerteza, a preocupação de que o resto do filme será só isso, a possibilidade da repetição de algo extremamente incômodo. Quando você entra num filme de terror ou de suspense, ao menos, você vai preparado, a decisão é sua, a besteira do filme é ratificada pela sua besteira de nele ter entrado, há cumplicidade. Mas, num filme de Tarantino, não é o terror ou o suspense, essa fórmula repetitiva (assim como o humor repetitivo de um Zorra total, por exemplo), aquilo que você espera; você espera mais e começa a se perguntar se Tarantino não vacilou, caiu no esquema, o que seria muito triste.

E eis que se vai para uma segunda rodada, onde a caça que se viu no início pode ter um fim semelhante. É então que se dá a surpresa, que não vou dizer qual é. Só o que vou dizer é que no final do filme havia pessoas, na platéia, aplaudindo, rindo, tendo um gozo que eu só posso identificar ao que eu tive com Kill Bill. Eu mesmo era um deles. A violência, descubro, essa mesma violência que, num primeiro instante nos enojou e nos fez querer sair da sala de cinema, pode nos alegrar, pode nos fazer exultar! Que coisa mais paradoxal! Kill Bill é, eu diria, basicamente isso, só que lá, não existe esse primeiro momento de “terror”, a violência se espalha ao longo do filme em concomitância a uma beleza visual e sonora, plástica em suma, o que nos confunde, num primeiro instante; mas quando ela (essa violência) chega na cena-clímax da disputa de espadas na neve, já se tornou mero suporte, mero aditivo para uma explosão de louvor à beleza. Em À prova, a coisa é mais rude, como se a polaridade violência/beleza fosse apresentada na sua forma paroxística: o espectador é forçado a passar pelo horror cru da primeira para, na segunda rodada, ter acesso a uma beleza que, diferente de Kill Bill e um pouco mais próxima de Bastardos, é moral, sem deixar de ser, contudo, violenta.

O recado, no fundo, parece ser – e diferentemente de todos os que acham que Tarantino é um doente, obcecado pela violência – que essa coisa a que se dá o nome de violência e que está solta por todos os cantos de todas as cidades do planeta, essa coisa que nos oprime e nos assusta, pode ser superada, talvez, somente por algo que se chama beleza.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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6 Responses to À Prova de Morte (Death Proof)

  1. alfonso disse:

    Bravo! Após esse comentário, procurarei assistir ao filme.Um grande abraço

  2. leo disse:

    Acaso ou sintonia, prestes a ver o filme recebo noticias desse blog. Abraço

  3. Juliana Bonat disse:

    Interessante essa relação entre a beleza e a violência! Verei este filme com uma visão mais complexa sobre a ficção do Tarantino. Muito bom!

  4. Pois é, amigos, acaso ou sintonia, li ontem na ilustríssima da Folha as palavras de um crítico de cinema que é professor na Bahia e que está tendo uma coletânea de críticas suas (Escritos sobre cinema) sendo lançada em livro e que diz que este tipo de atividade tem a função de “ajudar o espectador a percorrer o itinerário do filme com um mínimo de conhecimento de sua linguagem, de modo a permitir que se reconheça, durante o trajeto, aquilo que é importante e o que não é.” Acho que é bem por aí, essa minha tentativa, que parece despretensiosa, mas que, como se lê aí em cima, não o é. O nome do crítico? André Setaro (nunca ouvi falar, mas o seu livro é grande pra xuxu!) Obrigado e abraços!

  5. Mario Salimon disse:

    Você escreve bem pacas. É por essas e outras que não sou corporativista no tema da exigência do diploma de jornalista. A realidade é hoje outra.

  6. Luiz Suffiati disse:

    Olá Andrés, depois de sua crítica, vou rever meus pré-conceitos quanto à filmes que tematizam a violência. Sempre penso, num mundo tão repleto de barabaridades, para que mais violência? Será que este tipo de filme contribui para uma reflexão e até mesmo, para a dimunição da violência? Ou este não é o objetivo de Tarantino? Enfim, perguntas que rondam minha cabeça. Parabéns!!!!

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