O Último Mestre do Ar

O EXTERNO E O QUE É BÁSICO: A MARCA DE SHYAMALAN

Sempre achei que o cineasta M. Night Shyamalan fosse um senhor mais velho, um desses indianos com cabelos brancos e panças que se deixam entrever nas roupas folgadas e, geralmente, brancas. Julgava que ele tivesse começado a sua carreira na Índia e feito sucesso na América e em Hollywood somente num momento posterior, tal como aconteceu com Ang Lee ao sair de Taiwan. Mas tive uma surpresa grande ao ler há algumas semanas uma reportagem a seu respeito, na revista Serafina da Folha de São Paulo. Trata-se de um jovem de 40 anos de idade que, filho de pais indianos e tendo ele próprio nascido nesse país do Oriente, mudou-se ainda pequeno para os EUA, acompanhando seus pais, e lá cresceu e se formou; e lá reside, feliz da vida, na Filadélfia.

A reportagem tinha seu motivo no fato de Shyamalan estar lançando o seu último filme, O último mestre do ar, ao qual assisti ontem, e apontava para o fato de, nas bilheterias, a trajetória desse cineasta ser irregular, com dois hits (O sexto sentido e Sinais), quatro desempenhos medianos e um quase fiasco (A dama na água), ficando só nos filmes pós primeiro grande estouro (precisamente o maior de todos, que foi O sexto sentido, ao qual não assisti). A expectativa em torno de O último mestre… era grande por parte do cineasta, já que a previsão é a de que seja o primeiro componente de uma trilogia que, por sua vez, só se tornará realidade se esse passo inicial conseguir render bons lucros aos estúdios que o financiaram.

Surpresas à parte, trata-se de um cineasta de quem gosto porque vejo na sua obra algo como um recado, único, que sempre tem a capacidade de tocar pelo inusitado do seu aspecto (e não pelo seu aspecto inusitado). O aspecto são os seres extra-terrestres (Sinais), a ninfa (A dama…) , os suicídios em massa (Fim dos tempos), a realidade dos monstros das lendas infantis (A vila), que sempre vêm para dizer coisas sobre o cotidiano de pessoas simples que vivem um dia-a-dia normal, nas suas propriedades rurais, seus condomínios urbanos, suas cidades grandes e seus pequenos vilarejos. E as coisas que são ditas a esse respeito sempre são sutis mensagens que apontam para algo espiritual: a fé, o medo, a sintonia cósmica. Shyamalan não tem pudores quanto a jogar com o que está ou pode estar além, mas sempre para mostrar facetas do que está no interior de cada um de nós, humanos.

Comecei a me surpreender com O último mestre… antes mesmo do filme começar, ao constatar que o público da sala de cinema era um público bem mais jovem do que o esperado. Vieram os trailers, o último Harry Potter e a refilmagem de Karate Kid, e uma pequena luz de desconfiança se acendeu dentro de mim, ficando acesa até o fim da sessão: será que, como outros cineastas de sucesso em Hollywood, Shyamalan também tem o seu lado inescrupuloso e esse Mestre, jovem e bom nas artes marciais, não passa de uma tentativa a mais de alvejar comercialmente o público infanto-juvenil, esse mesmo público que vai ver os filmes anunciados nos trailers? Será que vou ter que dar desconto atrás de desconto a esta versão cinematográfica de um desenho animado do canal de TV a cabo Nickelodeon? Ter lembrado que Shyamalan foi o diretor de um outro infantil, o engraçado Stuart little, lembrança essa posterior diga-se de passagem, poderia ter acrescido mais carga a esses temores.

O fato é que esse último Shyamalan, no final das contas, não me decepcionou. Tem, sim, todos os elementos que os filmes dos trailers também devem ter, poderes que estão além do corriqueiro, cenas de arte marcial… mas tem, também, aquela qualidade especial desses outros filmes que eu admiro desse cineasta: essa relação que se estabelece entre um além, espiritual, e um presente.

Só que o presente, no caso, é um futuro, fantástico, onde os povos que habitam a terra estão divididos de acordo com o elemento, dentre os  quatro elementos básicos que existem, que eles dominam. O mestre do ar, no caso, é um garoto carequinha e de olhar terno que, conforme reza o desenho animado que inspirou o filme, possui a capacidade de aglutinar esses quatro domínios e, assim, re-estabelecer, enquanto “Avatar”, um equilíbrio que se encontra ameaçado pela sanha de um desses povos, os dominadores do fogo. Nas (belíssimas) danças que ele sabe e nas que vai aprendendo ao longo do filme, ar, terra e água são acionados a fim de enfrentar os perigos desse último elemento, mas não sem que estejam atrelados aos espíritos que estão, como todos esses “extras” dos seus outros filmes, além: os espíritos da lua e do mar, por exemplo. São eles que ajudam a que possamos nos relacionar com o que está à nossa volta, com o que é mais básico, mais simples, nossos vizinhos, nossos familiares, a natureza, mas que tendemos a querer complicar.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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3 Responses to O Último Mestre do Ar

  1. Cléa Maranhão Sá disse:

    Oi , Andrés querido,

    Já estava nos meus planos ver Ó último mestre do ar, intenção que se firmou com o seu comentário. Já sou fã do Shyamalan. Por sinal, até os filmes dele que são ruins, como a Dama da Água, eu gosto um pouco, talvez por esse inusitado que você indentifica tão bem. Da Vila, gosto muito. E penso que você deve ver o Sexto Sentido. Parabéns pela matéria e um abraço
    Cléa

  2. ricarvalho66 disse:

    boa, Andrés! fui assistir a esse filme sábado, com o João Pedro, meu filho de 12 e com a Lilian, meu amoru. funcionou para todas as faixas etárias nossas. mesmo tendo ficado uma impressão geral de uma certa pressa do ritmo do filme às vezes, tipo quando a princesa cai no lago e a cor do cabelo muda, saímos gostando mais do que filme do que não gostando. pra mim a parte mais emocionante foi a dominação do mar mesmo. deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas foi nele que espelhou o céu, como já escreveu o Fernando. ontem, por falar nisso, e no Shyamalan, e no Sexto Sentido, assistimos a Inception (A Origem). é simplesmente genial. eu já vi duas vezes, até agora. quando assisti ao Sexto Sentido, fiquei muito impressionado, saí do cinema sem saber se estava vivo ou já tinha morrido. Inception é desse tipo, só que não em relação a morte e sim ao sonho. o filme a vida um frenesi una ilusión una sombra una ficción… toda la vida es sueño y los sueños, sueños son…

  3. ricarvalho66 disse:

    obrigado pelo post, e por ter avisado do post! abração!

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