Tsai Ming-Liang, o homem do tempo

UMA TEMPORADA NA ÁSIA

Estou a meio caminho de um tsunami do bem que, saído da longínqua Malásia, inundou os CCBB’s do Rio, São Paulo e, agora, Brasília (até o dia 19). Trata-se da mostra “Tsai Ming-Liang: o homem do tempo”, que trouxe pro Brasil mais de uma dezena de filmes inéditos desse cineasta malaio, ganhador de alguns importantes festivais internacionais e personagem, até então, desconhecido para mim – foi a indicação de um amigo, professor de cinema e cineasta radicado no Rio, que me levou até ele. Até o momento, vi quatro dos seus longas, um curta para a TV e um making-of a seu respeito e pretendo ver tudo o que for possível até o último dia, lamentando ter perdido o debate que ocorreu com a presença do próprio, logo no segundo dia da mostra.

O termo tsunami tem sua justificativa para além da procedência asiática de Ming-Liang. Em certo sentido, toda mostra de filmes, em que o corpo da obra de um cineasta nos é exposto para que percorramos a sua anatomia, quando se trata de um mestre, tende a varrer conosco, a nos deixar, no mínimo, de alma lavada. No caso dos filmes desse cineasta, os elementos temporais, relativos ao clima – e principalmente às águas, quase onipresentes – dão uma segunda justificativa para essa sensação de maremoto, fato esse, inclusive, que foi prontamente percebido pelos críticos e curadores da mostra, que brincaram, ao lhe dar um título, com a ambigüidade da palavra “tempo” no Português – a subversão do tempo narrativo (cronológico) nos filmes de Ming-Liang é também uma onipresença, ao que tudo indica.

Até o momento, assisti, dentre os longas, do mais antigo (Rebeldes do deus neon)  ao mais recente (Faces), passando por dois intermediários (Sabor de melancia e Não quero dormir sozinho) e me sinto em condições de afirmar que seguir o itinerário de Ming-Liang é acompanhar uma história real de encontro radiante entre um sujeito criativo, um gênio, e uma ferramenta de expressão, que é o cinema.

Creio que a palavra sujeito, que uso para me referir ao cineasta, é bastante apropriada. Com isso, não quero dizer que os filmes de Ming-Liang sejam desses filmes absolutamente pessoais, em que a personalidade do autor se deixa evidenciar a cada instante, como se fosse o elemento, o mais importante (Godard e Fellini são um pouco isso).  Talvez, uma parte da crítica se deixe levar por essa capacidade que ele tem de impor o seu ritmo à narrativa, o seu arfar nada acossado, e veja seus filmes como a expressão de uma personalidade assim ou assado – em algum lugar li algo a respeito de homossexualidade, uma chave de leitura extremamente equivocada, me parece, bastante alheia ao que os filmes mostram.

A genialidade dos filmes de Ming-Liang creio eu que reside justamente na capacidade que eles têm de retratar a realidade de um contexto social, um mundo, o mundo Ásia, com sua comida, sua roupa, seu corre-corre, sua solidão,  sua engenharia, seu suor, sua água, suas secreções. Seus filmes contam muito com o enquadramento, uma arte que diz respeito a pintores e fotógrafos, seres por natureza apaixonados por realidade, pelas coisas que se vêem, que aí estão. Ocorre, contudo, que, em meio a tudo isso que se vê, há o homem, há sujeitos; sujeitos que pouco falam e que pouco variam (Ming-Liang utiliza sempre os mesmos atores, dentre os quais o principal é o plástico e excelente Lee Kang-Cheng), mas que estão lá, vivos, desejosos uns dos outros e portadores da mais pueril fantasia, sempre expressa por meio do canto, da música cantada, quase à la karaokê, e da dança, em parênteses inacreditáveis.

Ming-Liang conseguiu, mundo afora, fazer um nome, virou uma marca, uma força fílmica. Creio que somente assim se possa entender esse último filme dele, Faces (Visages no original, em Francês), filmado em Paris e contando com um forte time de astros eternos do cinema francês (Fanny Ardant, Jean-Pierre Léaud, Jeanne Morreau, Nathalie Baye e o mais recente Mathieu Amalric, além da belíssima Laetitia Casta).  A trama desse filme gira em torno de um filme que está sendo realizado e cujo diretor é quem? Claro, ninguém menos que Lee Kang-Cheng, que não é o único da velha equipe a aparecer e contracenar com o time europeu. “C`est bizarre, c’est très bizarre” diz Ardant a Léaud, a certa altura, no camarim do set, um set, de fato, bizarro, com um alce que some, uma neve que cai, um diretor que não dirige e nem sequer aparece pro jantar com as estrelas francesas e um cenário subterrâneo, que logo descobrimos serem os esgotos do Louvre. Poderia ser diferente, em se tratando de Ming-Liang? Claro que não: ele chegou a Paris com o seu protocolo, que não deixa de incluir a água a esguichar, irrefreável, já numa das cenas iniciais.

Dois mundos cinematográficos se encontram nesses filme, se olham, numa das cenas mais marcantes, um no olho do outro,  pegam um no sexo do outro e partem para o sexo oral, só interrompido por um celular a tocar, a câmara sempre a registrar somente os rostos. É o mundo, mais uma vez, sendo descrito; mas, e os sujeitos? Bom, aqui o sujeito é um só, Ming-Liang, que aparece filmando, de relance, rapidamente, na forma de uma sombra, na parede do esgoto dentro do qual a bela Laetitia avança, cantando uma música oriental. Oniria despudorada e absolutamente coerente com a trajetória que conduziu Ming-Liang à Meca cinematográfica mundial.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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