Incontrolável (Unstoppable), de Tony Scott

FOME DE VIDA

Os irmãos Scott, Ridley e Tony, são dois cineastas de que gosto. São uma dupla inescapável do cinema dos nossos dias; uma dupla, contudo e ao contrário de outras duplas de irmãos (Taviani, Coen, Dardenne), que não filma em conjunto: cada um tem a sua própria filmografia, independente uma da do outro, apesar de ambos serem sócios na produção de tudo, na Scott Free Productions. Ridley talvez seja o que tem maior reconhecimento, já que é o autor de clássicos como Alien, o oitavo passageiro, Blade Runner, 1492, Telma e Louise, Gladiador e os mais recentes Cruzada e Robin Hood. Ele talvez seja o sucedâneo de Cecil B. De Mille , que apresentou às gerações anteriores à minha os grandes épicos – bíblicos e não – que  eram reprisados na Sessão da Tarde da Rede Globo, quando eu era criança. Ganhou até o titulo de Sir, pelo que reporta o IMDB. Mas, dentre os dois, já decidi, o que mais me agrada é mesmo o Tony, que está com o seu último filme, Incontrolável, em cartaz.

Essa minha predileção pelo mais jovem dos Scotts não se baseia no fato de ele ter dirigido o cult dos cults da minha geração, Fome de viver, com os dois ícones David Bowie e Catherine Deneuve – cult por cult, Ridley também tem Blade Runner, um senhor emblema dos anos ’80. A filmografia de Tony, assim como a de Ridley, é extensa e tem muita coisa que eu (ainda) não vi. Tem, também, pelo visto, algumas bobagens (mas posso estar enganado), como Top Gun – Ases indomáveis, com Tom Cruise. A predileção se baseia no fato de que em alguns de seus filmes, como é o caso deste Incontrolável, encontramos uma reflexão autêntica sobre os meandros do poder no mundo contemporâneo. E talvez mais do que isso: uma reflexão a respeito de como os poderosos se relacionam com o populacho, a grande maioria de pessoas comuns,  preocupadas cotidianamente com coisas outras, como seus familiares, sua profissão, sua dignidade pessoal. Não querendo puxar muito a sardinha pro meu lado, mas já puxando, eu diria que é a relação entre governantes e governados, um tema foucaultiano por excelência, o que se examina nesses filmes.

Inimigo do Estado, com Will Smith e Gene Hackman, é explícito a esse respeito ao focar um jovem advogado pai-de-família que passa a ser perseguido implacavelmente pelo que há de mais avançado em tecnologia de vigilância (com uso de satélites e tudo o mais) porque, acidentalmente, enquanto comprava uma lingerie para a sua esposa, um amigo seu, em fuga, esconde, em sua bolsa de compras, um disquete contendo a filmagem que ele fez, acidentalmente, do assassinato de um importante político por parte de um importante agente do Estado. É como se se mostrasse que existem dois mundos sobrepostos, que convivem pacificamente até que, por algum desígnio do acaso, ocorre uma espécie de curto-circuito: por um lado o Estado e seus agentes, seres frios e inescrupulosos, calculistas natos, que não dão a mínima para o sofrimento alheio, jactando-se (como diria Brizola) consigo mesmos e seu poder e sob a desculpa de estarem oferecendo “segurança”; por outro, como já disse, essa gente-como-a-gente e suas preocupações, que podem até ser mesquinhas (vide O seqüestro do metrô 123), mas que, no fundo, dizem respeito à vida, a como passar por ela com alguma elegância ou dignidade.

É evidente que Inimigo do Estado desenha uma situação limite: nem todo agente do Estado é o frio assassino desempenhado por Jon Voigt, e nem sempre os frios assassinos têm acesso a postos de tão alta envergadura. A questão parece ser mais o choque que há entre o quente mundo dos afetos e a frieza do “circuito” do poder. E o que Tony Scott tem de melhor, eu diria, é a capacidade de sintonizar, com extrema facilidade, esse primeiro mundo, bem como os recursos para mostrar o segundo, com toda a sua carga tecnológica, em operação. No que diz respeito à primeira, os diálogos rápidos, a sutileza da situação cênica que envolve o populacho são algo a se notar. O excelente Denzel Washington, ator que protagoniza não só este último filme de Scott, mas vários outros, parece ser uma peça chave na composição dessa fórmula. As tomadas aéreas, a rapidez da câmera, a sonoplastia e a fotografia que tende sempre ao estouro (vide Domino) são os elementos que nos levam a acreditar nas dimensões corretas dadas a esse frio e calculista mundo do poder, igualmente retratado nos seus filmes.

Incontrolável conta a história de um incidente que verdadeiramente ocorreu na Pensilvânia há alguns anos atrás. Um descuido fez com que um comboio da rede ferroviária, com uma carga altamente explosiva, partisse desgovernado e a toda velocidade rumo a uma cidade de 750 mil habitantes, onde certamente iria se descarrilar, devido a uma acentuada curva lá existente. Acionadas a equipe responsável pelo controle da rede e as autoridades maiores da empresa, medida atrás de medida é tomada, mas sempre de forma inócua, já que não se tem, nessa esfera, como mostra o filme, a vivência necessária para realizar, na rapidez necessária, os devidos cálculos: é somente quem tem o pulso de um comboio, quem trabalha nele no dia-a-dia (incluindo aí um fiscal engenheiro que nunca dirigiu um trem, mas que estudou o assunto e domina a sua condução na teoria), quem consegue armar a estratégia correta e tomar as decisões corretas nos milésimos de segundos disponíveis. Uma questão de “precisão”, termina enfatizando um dos heróis; uma precisão que deriva da proximidade, parece dizer Scott. E eis que atingimos, num filme que tudo indica ser mais um corriqueiro filme de ação, questões que dizem respeito à política, à “precisão” (agora num sentido de necessidade) ou não de certas estruturas de poder, de certos controles que de nada servem (a não ser à auto-perpetuacão).

Em tempos de tragédias como a que acaba de acontecer na região serrana do Rio de Janeiro – onde é flagrante a responsabilidade dos governantes – e em tempos de montagem de novos governos e novas legislaturas em diversos níveis Brasil afora – quando se discutem estruturas de governo e ocupação de cargos –, eu diria que a obra de Tony Scott – em particular esse Incontrolável –  pode ser uma contribuição valiosa. Talvez exista uma alternativa à incontrolável sede de poder que muitos dos nossos governantes têm evidenciado ao longo de toda a nossa história – e na recente história política do Distrito Federal, é bom lembrar. Talvez existam outras formas, mais sensatas e mais justas de realizar essa eterna relação entre governantes e governados, fazendo com que a luta cotidiana de todos nós não esteja tão sujeita aos riscos que derivam de irresponsáveis e de oportunistas de plantão. Talvez exista uma outra matemática, para além dessa que os governantes mundo afora têm usado até o presente.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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