Biutiful, de Alejandro González Iñárritu

PINTA O TEU PLANETA E SERÁS… VITAL

Alejandro González Iñárritu e Guillermo Arriaga – o primeiro como diretor e o segundo como roteirista – tiveram uma parceria que rendeu excelentes frutos: Amores Brutos, 21 Gramas e Babel, filmes que se caracterizam por engenhosos roteiros, desses cujo desfecho amarra de forma surpreendente os diversos e esparsos fios que se deixam à mostra ao longo do desenrolar da história, crueza, drama, belas imagens e contundentes trilhas sonoras. Eu disse “tiveram”, porque a parceria desses dois mexicanos já não existe mais. Arriaga acabou virando diretor de seus próprios roteiros, que continuam a repetir a fórmula, creio que já bastante antiga – data, no mínimo, de Short Cuts – Cenas da Vida de Robert Altman, passando pelo admirável Crash –  No Limite, de Paul Haggis – , da amarração final dos fios soltos, tal como prova o seu recente Vidas que se cruzam. Já Iñárritu, “desmamou”, escreveu um enredo próprio e está com o impactante Biutiful em cartaz.

Babel, o filme anterior de Iñárritu, já havia lançado o desafio: será possível realizar um filme que se passa no mundo? Como assim, “no mundo”? Sim: no mundo, no mesmo sentido de “no planeta terra”. Coisa mais esdrúxula, pois não se trata de nenhum filme de ficção científica ou coisa parecida; e, óbvio, todo filme tem uma locação muito evidente (ou às vezes nem tanto), um cenário. No caso desse filme, o cenário é o mundo e o que permite vencer o desafio proposto é justamente essa técnica dos fios que se entrelaçam, na qual Arriaga se especializou. Digamos que Babel é uma encenação, convincente, da globalização, a primeira de que tenho conhecimento.

Tudo indica que essa idéia, essa boa e novidosa idéia de retratar a atualidade do “mundo” na sua simultaneidade e sobreposição de aspectos (ou cenas), tenha sido, apesar de tudo, de Iñárritu, pois nesse Biutiful ele elegeu – primeiro e fundamental dado – a mais global das cidades, Barcelona, como cenário – único, diga-se de passagem, assim como única é a história que nele se conta. Eu já morei nessa cidade catalã, pela qual sou profundamente apaixonado, e sou testemunha da sua riqueza de recursos “multi” – culturais, étnicos, espaciais, temporais.

A história gira em torno de Uxbal, um pai de família, interpretado pelo extraordinário Javier Bardem, que vive de agenciar imigrantes ilegais, fazendo a ponte entre empresários (locais ou não, legais ou não) e a polícia. Tem dois filhos pequenos e é casado com uma doida: uma massagista que sofre de distúrbio bipolar, que já aprontou e continua a aprontar todas e mais algumas e que acaba por ser alguém totalmente incapaz de ajudá-lo a criar os dois rebentos. Além disso, é médium e, como se não bastasse, descobre que está com um câncer que já virou metástase (em outras palavras, está desenganado). É, contudo, um lutador, um ser que nos comove ao, como tantos, não entregar os pontos, mantendo em equilíbrio – e com toda a graça possível – os vários “pratos” que giram a partir de suas mãos, pés, testa, queixo e etc. – como que a provar o quanto que, nos dias de hoje, a “globalidade” está em cada um, que não adianta tocar um único instrumento, jogar numa única posição.

Mas Biutiful não é um irmão gêmeo de À procura da felicidade, filme relativamente recente (2006) de Gabriele Muccino (com Will Smith como pai incansável e herói): ele vai muito mais fundo na questão existencial (palavra meio antiga). Como? De várias maneiras, a primeira sendo a própria questão da morte, tema iñárrituano indiscutível  (vide 21 Gramas). A segunda passando pelo amor de Uxbal pela sua louca esposa e pela vida, pela sua desesperançada fidelidade a ambas. Elas o tratam mal e, ainda assim, ele as nutre, se preocupa, cuida delas, demonstrando uma força inesperada, que vai além do heróico e beira o animalesco, o instintivo.

Eu creio que Biutiful, antes de mais nada, é uma reflexão sobre o papel do homem, do macho, nos dias de hoje e, como tal, sucedâneo de uma temática que, em termos cinematográficos, começou com Marco Ferreri – muito particularmente com seu O futuro é mulher (1984), mas digamos que essa é uma temática por excelência desse genial cineasta italiano. Dois outros filmes de que me recordo se inserem nessa linhagem, sendo que um deles é bem recente e ainda está em cartaz em algumas cidades: O Jardineiro Fiel, de Fernando Meirelles (2005), e o eletrizante 72 Horas, do já referido Paul Haggis. Num período de quase 30 anos, entre Ferreri e Iñárritu, convenhamos, é bem pouco, para um tema vital – mas, de resto, acho que esse tem sido um tema esquecido por todo mundo, não só pelo cinema.

E, pensando justamente nessas três décadas, me volta à cabeça um insight que tive ao rever Biutiful – não é um procedimento usual meu, simplesmente tive um problema intestinal na primeira vez, que me obrigou a sair antes da metade do filme – e que se deu na cena em que a mãe dos meninos de Uxbal resolve aparecer no lar, se senta na mesa para jantar com eles e começa a contar, a duzentos por hora, uma história que tinha acabado de ouvir sobre um acidente de trânsito. Uxbal a interrompe bruscamente, mandando que se cale e que os deixe terminar a ceia em paz. Nesse instante, tive a nítida sensação de que se fazia ali uma referência a Almodóvar e às suas mulheres que falam pelos cotovelos. Por acaso não têm sido elas a dominar a cena nestes últimos trinta anos? Alguém, algum dia, tinha que conseguir detê-las e eu creio que esse alguém é Iñárritu.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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