A Rede Social, de David Fincher

UM FILME POLÍTICO ONDE MENOS SE ESPERA

A Diego Ramírez Ugarte

Acabo de ver A Rede Social, de David Fincher. Como o filme já saiu de cartaz – ao menos aqui em Brasília – assisti-o na tela da minha recém-adquirida Samsung Led de 40 polegadas, com HD, Blu-Ray e tudo. Vi também os extras que acompanham o disco principal (trata-se de um pacote duplo). Posso dizer que se trata de um grande filme, que impressiona por uma série de motivos.

Em primeiro lugar, pela agilidade em dar cabo de uma história que está sendo escrita. Mark Zuckerberg, o criador do Facebook, está vivo e a história que vemos no filme é a história do que ele passou há não mais do que três, quatro anos atrás. Eu me lembro de quando entrei no FB: foi por volta de 2008 e por meio de um grande amigo meu, que vive no Paraguay. Amigo de infância, com quem eu passei a ter um contato bem esporádico, depois que o pai dele, que era chefe distante do meu pai, voltou para o seu país de origem, levando consigo a família. Quando crianças, estudamos por anos a fio no mesmo colégio, fomos companheiros de turma e, praticamente, não havia um fim de semana em que não estivéssemos um na casa do outro. Pois bem, entrei ao ser convidado por esse amigo e hoje tenho uma carteira de mais de 130, das mais variadas origens. Sou um adepto disso que eu vejo como um serviço que tem demonstrado ser uma ferramenta comunicacional para muita gente.

Certa vez postei, nesse contexto, um comentário a respeito de como eu percebo que alguns dos meus amigos que eu nunca tinha desconfiado que fossem dados à poesia estavam se revelando refinados poetas, mestres em dizer coisas apropriadas e belas dentro do curto espaço de que se dispõe. Com o tempo, percebi que isso se aplica, também, aos vídeos e fotos que cada um posta: as escolhas que cada um faz daquilo que acha que vale a pena compartilhar revelam um bom-gosto (ou o seu contrário), uma significância, um humor, por vezes, que dificilmente vemos nos meios de comunicação habituais (TV, jornal, rádio). Damo-nos conta, talvez, de quão belos são nossos amigos, mesmo quando são ridículos; ou, de como toda uma dimensão, a amizade, tão importante para qualquer ser humano, criança ou adulto, estava meio que, progressivamente, morrendo de inanição, até esse tal de Zuckerberg chegar com o seu adubo.

Pois bem, o cinema demonstra a sua agilidade máxima com esse A Rede Social, uma agilidade, penso, que se equivale à agilidade mental revelada pelo próprio personagem Zuckerberg – e que deve corresponder à do Zuckerberg da vida real. É bom que se esteja preparado para diálogos rapidíssimos, que iniciam o filme e que nos indicam que não estamos propriamente num contexto herzogiano, ou wenderiano, para todos os efeitos. Contudo, não creio que essa seja uma das chaves principais desse filme. A agilidade deve ter acontecido, em doses cavalares, creio, por conta dos advogados a negociarem previamente, com cada um dos retratados, as complicadas questões relativas à imagem pessoal, essas questões que giram em torno de calúnia e difamação e que tanto aguçam os apetites na medida em que as (expectativas de) cifras arrecadatórias aumentam. O filme trata um pouco disso, da cobiça e da imagem, com suas recorrentes cenas na barra de um tribunal. Mas, penso, também, que talvez a correria desses profissionais não tenha sido tanta, já que acredito na inteligência do principal dos retratados, na sua devoção ao próprio produto que ele criou, um tônico que serve para fortalecer aquilo que o filme revela ser o que ele, Zuckerberg, menos possui: a amizade.

Para mim, a principal chave de leitura desse filme, porém, está no fato de ele ser o retrato de algo ao qual só posso dar o nome de revolução. O que é uma revolução? Temos notícias de algumas, já limos e vimos filmes a respeito, somos filhos de outras – ou de uma só, não se sabe bem qual, teríamos que ter perguntado ao Renato Russo –, temos a esperança de vê-las acontecer em tantos e tão variados âmbitos, a dos dias de hoje sendo a do “mundo árabe”; mas, de fato, o que é uma revolução? Michel Foucault, mestre meu, dizia, em consonância com o mestre seu, Kant, que as revoluções de verdade são as que acontecem na cabeça das pessoas, no seu pensamento. Quando o pensamento muda, tudo vem a reboque; e é lá, nessa esfera, que se dão as batalhas monstruosas, os cataclismas, os rompimentos fatais contra os quais, feito o que hoje vemos ocorrer, com tristeza, no Japão, ninguém consegue fazer absolutamente nada.

No filme, o que ocorre é exatamente algo que lembra a inexorabilidade de um tsunami: vemos todas as barreiras, morais, tecnológicas, legais, comportamentais que cercavam esse gênio, Zuckerberg, paulatinamente sendo derrubadas. Diante da força da sua genialidade, do seu pensamento, nada – nem mesmo uma amizade, única mas meio interessada – se sustenta. Quando o novo surge, adeus.

 

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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2 Responses to A Rede Social, de David Fincher

  1. Cléa Sá disse:

    Olá, Andrés,

    gosto do que você escreve sobre cinema e, sobretudo, das suas divagações. As de hoje, sobre amizade, me fizeram pensar vez que tenho me debruçado ultimamente sobre esse tema. Interessante é que não vi o filme e mesmo com a sua análise (e tantas outras, todas elogiosas) não fiquei com vontade de ver. É a confirmação que sou mesmo de outra época? Um abraço Clea

  2. Cleita, tem um depoimento do Kevin Spacey no disco extra em que ele fala de como ele acha esse filme parecido com os filmes de Mike Nichols, tal como “Quem tem medo de V. Woolf” e outros. Spacey é o produtor executivo do filme. Acho que esse é um dado que pode te animar… Um abraço e obrigado pelo feedback!

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