As comédias de Ferzan Ozpetek

O FIM DE ANO SEMPRE NOS RESERVA UM  (OU MAIS) PRESENTE(S)

Este ano não acompanhei o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Não deu, por motivos diversos. Assisti somente ao filme de abertura, o documentário Rock Brasília – Era de Ouro de Vladimir Carvalho, que está nos cinemas e que recomendo – mas não comento aqui, pelo simples motivo de que resolvi não comentar, aqui, documentários: eles trazem consigo “realidade” demais e o que eu acho que há de mais proveitoso, para  o leitor, nesta minha atividade crítica, é justamente o diálogo que aqui se dá entre as obras (os filmes, fundamentalmente, ficcionais) que eu comento e a minha realidade, de espectador.

Mas o FestBrasília não passou incólume: como em outras edições, ele serviu também para dar um uplift, uma recauchutada, nesse que é certamente o melhor cinema do Brasil, o Cine Brasília, que, sob a direção da Secretaria de Cultura do GDF, todo ano acolhe esse festival; e que todo ano se deixa desleixada, absurda e progressivamente deteriorar até a edição seguinte. E eis que alguma alma caridosa teve a idéia de aproveitar essa condição sempre fugaz desse templo do cinema e trouxe um festival com filmes inéditos na cidade, dentre eles o aguardadíssimo Melancolia, de Lars Von Trier, que ainda não vi – e nem verei, já que a primeira sessão encheu e eu não consegui entrar, a segunda ocorreu num dia e horário em que eu não podia e na próxima estarei fora da cidade (mas não longe do cinema). Esse festival vai até o dia 30 próximo e é uma chance de assistir a excelentes filmes.

Eu já assisti a três, duas comédias e um semi-documentário (ou uma ficção realista) e gostaria de comentar a respeito de um deles, em que caí por engano (tinha ido ver outro filme, mas errei de horário) – e que, em função de ter dele gostado, me levou a procurar outros filmes do seu autor, de quem eu nunca tinha ouvido falar – : Saturno em oposição, de Ferzan Ozpetek. O filme, já não tão recente (2007), é italiano e o diretor, turco, ao que tudo indica radicado na Itália; o gênero? infiro que se trate de uma comédia de costumes.

Ele gira em torno de um casal homossexual masculino de média idade e em torno de seu grupo de amigos, que inclui outros dois casais, só que heterossexuais, uma solteira hetero, e dois solteiros, um bi e um homo. Interessantíssima mistura, que teria tudo para parecer com As invasões bárbaras, filme de 2003 do canadense Denys Arcand, não fosse pelo fato de que nele ocorre, mesmo (não só prognosticamente), uma morte.

Em ambos os filmes temos a temática pós-familiar, ou seja, a da liga de afeto que se desloca para um outro núcleo, o da amizade, quando o cimento que garantia a unidade do núcleo anterior, da família, se desgastou. E os ecos que se fazem ressoar, na hora em que a “indesejada das horas” aparece. Nada mais atual, eu diria. E em ambos, conforme me lembro do filme mais antigo, a pungência da honestidade  e da inteireza de personagens que não abrem mão da liberdade que conquistaram, nem mesmo quando o pior, a morte, o fim, se apresenta – um dos exemplos disso, em Saturno, ocorre quando um dos amigos, o marido adúltero de um dos casais hetero, não consegue continuar a manter o segredo da sua relação extraconjugal perante a sua esposa, revelando-o no momento mais desnecessário.

Mas uma pergunta que cabe no momento em que esses dois filmes são trazidos à baila é: o que os torna comédia, já que trazem consigo essas temáticas assaz duras da morte e, por que não, da ética? Eu diria que aí se trata do componente sexual, muito presente em ambos, quase que um “gabarito de inteligibilidade”, para usar de um palavreado foucaultiano: não há nada neles que disso não esteja carregado, que não se dê aos olhos a não ser que por esse viés. O sexo é a “nota de corte” para cada personagem fazer parte da trama: caso ele não se revele, o personagem simplesmente não entra.

Esse sentimento se confirmou quando assisti ao mais recente Ozpetek, O primeiro que disse, um filme que passou há pouco no cinema (sem que eu o tenha visto então) e que já se encontra disponível em DVD. Totalmente em tom de comédia, já a partir da sua trilha sonora, muito italiano, esse outro filme desse diretor turco se desenvolve em torno de dois irmãos, filhos de uma rica família burguesa da pequena Lecce, que, já maduros, resolvem revelar aos pais e à sociedade, sua preferência pelos rapazes ao invés de pelas moças, acontecendo que a revelação de um torna mais complicada a do outro, que fica com a responsabilidade de dar seguimento à linhagem. Genial! E fiel ao componente “honestidade consigo” que marca o filme anterior, não dizendo exclusivamente respeito à temática homossexual.

E o que é que o sexo tem a ver com a comédia? Eis uma segunda pergunta que poderia ser feita e perante a qual especulo: creio que possa ter a ver com o quanto há de desejo (óbvio) no sexo e no quanto há de vergonha recobrindo o desejo. Suportar a vergonha do próprio desejo, que não tem explicação, eis aí um roteiro que se segue na clínica lacaniana, por exemplo – não saberia dizer se em outras. E então, quando esse desejo irrompe na tela – e ele irrompe a cada curva nesses filmes – e se depara com um mundo no qual ele, a princípio, não cabe, há algo com o que, enquanto espectadores, nos identificamos profundamente e que nos provoca o riso. Como se no vergonhoso daquelas situações estivesse algo de muito nosso, ao que só podemos responder com uma reação fisiológica.

Ozpetek certamente bebe na comédia italiana, isso fica muitíssimo evidente nesse O primeiro que disse. E eis que fica a sugestão de uma interessante linha de pesquisa para os próximos tempos: ver até que ponto e em quê medida os filmes de Mário Monicelli, por exemplo, não estão carregados disso, desse componente simultaneamente desejante e vergonhoso, justamente porque desencaixado (e não, em absoluto, por favor, num sentido cristão!).

E pra fechar em chave muito pessoal, devo confessar que há tempos não ria tanto e tão bem quanto na segunda das comédias que assisti no festival do Cine Brasília, a chilena Ilusões óticas, de Cristián Jiménez. Certamente “italiana”, essa deliciosa fita ocorre no sul chileno, numa pequena cidade de nome Valdívia; e nela, creio, se confirmam essas minhas hipóteses acima, em especial na hilária cena em que o velho funcionário, em vias de ser pdvizado, da empresa local, senta diante do psicólogo/conselheiro que lhe colocam à disposição. Um filme picante, com bastante picardia à chilena que, não fosse o trágico que também carrega, provavelmente teria causado em mim um desses ataques de riso dos quais tenho dificuldades, às vezes, de sair.

 

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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