Melancolia, de Lars Von Trier

UM PLANETA NO ESTÔMAGO

Finalmente fui ver Melancolia: o circuito comercial parece que se deu conta, depois do sucesso do Festival a que me referi no post anterior, de que há público, também, para filmes de arte nesta capital. Eu tinha feito referência a esse último filme de Lars Von Trier no texto que escrevi a respeito de A árvore da vida há cerca de dois meses atrás, desconfiando da comparação feita por Contardo Calligaris que, num artigo seu, disse que ambos tratariam do mesmo tema, a falta de sentido da vida, sendo que o de Von Trier seria bem mais conseqüente, mais maduro em sua abordagem. Nessa ocasião, eu questionei a afirmativa de que o filme de Terrence Malick (A árvore…) tivesse como tema o sem-sentido da vida – argumentando que o silêncio teria esse papel – e fiquei de me manifestar assim que visse o filme de Von Trier.

Os filmes desse dinamarquês, espécie de enfant terrible do cinema atual, são sempre pesados, nos atingem parece que no estômago e descem revirando as nossas entranhas. Muita gente, eu inclusive, não morre de paixão por eles, evitando-os. Dogville e Manderlay, bem como Dançando no escuro são experiências, para quem os assiste, de desgosto, onde breves lampejos de candura, em geral a cargo de belas e muito alvas mocinhas, são rapidamente soterrados por toneladas de vileza por parte dos demais personagens. E essa vileza não é, em absoluto, um elemento marcado por uma irracionalidade, por um calor qualquer, mas sim pelo mais frio dos cálculos, por esse traço estritamente humano que é a razão. Daí o mal-estar, pois essa crueza, essa sem-vergonhice, essa animalidade puramente humana (a animalidade da razão) é algo que, queiramos ou não, também levamos dentro de nós – eu chegaria ao ponto de dizer que muitos de nós vamos ao cinema para esquecer dessa nossa inclinação; e eis que Von Trier faz, em cada filme seu, com que ela se negue a ser posta de lado, nem que seja temporariamente.

Melancolia não foge desse eixo, eu diria identitário: desta vez temos a ótima Kirsten Dunst, bela e inteligente, em meio às suas núpcias que ocorrem na mansão do marido da irmã, um ricaço. Aos poucos vamos nos dando conta de que se trata de uma “festa estranha com gente esquisita”, com o chefe da noiva lhe cobrando pública e privadamente o resultado de uma encomenda de trabalho e com a mãe da noiva (Charlotte Rampling) evidenciando em público toda a sua aversão ao ex-marido, pai da noiva, ao ritual de que participa e, por último, a toda e qualquer convenção, como se tudo não passasse de ilusão e a todos nada restasse senão a espera do dia em que irão morrer. É a deixa para que se inicie na protagonista seu mergulho rumo ao mais fundo dos poços, numa desconstrução paulatina de cada um dos vínculos que tem com cada um dos presentes à festa, inclusive o empenhado noivo. Tudo é ilusão, todos estão iludidos, e a tentativa, levada a cabo até então, de fazer parte dessa ilusão, se revela, por fim, ter sido um engano.

O único vínculo que se mantém em pé depois desse vendaval é a relação com a irmã, seu marido e filho, que a hospedam na mesma mansão onde tudo ocorrera até então. Eis um contexto que parece fugir ao caráter efêmero daquilo que se viu na primeira parte do filme. Temos um cunhado que de fato ama sua esposa e que não se furta a agir, inclusive espantando a sogra reticente, tendo-a enxotado em plena festa. Temos algo de sólido que, no entanto, começa a se revelar instável no arfar da irmã (Charlotte Gainsbourg), produto da chance que existe de que um planeta até então desconhecido, o planeta Melancolia, venha a se chocar com a Terra, num aviso que os cientistas estão dando e que a deixa com ataques de ansiedade. Temos, mais uma vez, algo no ar (ou no céu) que vai se aproximando daquilo que está diante dos nossos olhos, dessa família feliz – tudo leva a crer – , com uma força inexorável e destrutiva.

A repetição, que só percebo agora, na medida em que escrevo, é genial. Justine, a irmã vivida por Dunst, é uma pessoa acometida pela forma mais extrema dessa condição que é a melancolia. Creio que muito já se escreveu e muito ainda irá ser escrito, por psicólogos ou psicanalistas e por quem mais seja, a respeito dessa condição espiritual – é uma patologia, não o é, etc. e tal. Eu fico cá com um dizer que ouvi certa vez de um professor meu, muito sábio, de que a melancolia é  um estado diferente da depressão, posto que decorre da condição de saber de como as coisas de fato se dão, ou se deram. O melancólico é alguém que tem uma ligação qualquer com alguma, ou mais de alguma, verdade; ao passo que, para a grande maioria das pessoas, a verdade não é algo que interessa, pois ela geralmente dói. Dito isso, a aproximação, na segunda parte do filme (o filme é divido em duas partes, cada uma com o nome de uma das irmãs), do planeta Melancolia, pode ser vista como uma espécie de elucidação metafórica, um replay, daquilo que aconteceu na primeira, no casamento onde não sobrou pedra sobre pedra, justamente porque a melancolia de Justine – essa que a leva, por exemplo, a ser capaz de “saber” o número exato de feijões depositados na garrafa pelos convidados à festa – se fez, nela, prevalecer.

Contudo, para além dessa “sacada” sobre a estrutura do filme, podemos ir mais fundo e indagar até que ponto o cinema de Von Trier não possa ser precisamente um cinema melancólico, nesse sentido bem específico de algo que possui vínculo com a difícil verdade, a verdade inconveniente, dura e, por que não, enjoativa. Em outras palavras, até que ponto Melancolia, não é um filme que esclarece uma parte central dessa incômoda cinematografia desse artista. Mas, se assim fizéssemos, teríamos a incumbência adicional de responder a uma última pergunta, que diz respeito a quê verdade os seus filmes remetem. Talvez cada um remeta a uma ou a mais de uma em particular. Melancolia certamente nos remete à verdade de que este planeta, esta aventura humana da qual fazemos parte, esta nossa vida na Terra, a continuar do jeito que vai, vai acabar.

Anúncios

About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
Esta entrada foi publicada em Filmes. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

2 Responses to Melancolia, de Lars Von Trier

  1. Noé Stanley disse:

    Bravíssimo, Andrés! Recortei um outro brilhante comentário sobre o filme, publicado por dois professores da UFMG, no suplemento “Pensar” do “Estado de Minas” (Douglas Garcia e Guilherme Massara Rocha), que vou lhe passar na reunião do grupo de leitura, pq não achei no Google. (O título é “Sublime Fantasia”). Não desconsidere o “existencialismo” de Kierkegaard por trás de von Trier. Um abraço. Noé

  2. Obrigado, Noé! O seu apreço pra mim é honra grande! Abração.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s