O recente cinema argentino

O DOM DO PALAVRÃO E A SUTILEZA DA BREGUICE

Como são bons os ventos que vem do Sul! Mais especificamente dessa terra que fica a leste da cordilheira andina e que se faz conhecer pelo nome de Argentina. Bons vinhos chegam de lá, boas carnes e tradições culinárias (acabo de me dar de presente um belo livro que ensina os segredos de um churrasco à argentina, do chef Francis Mallmann), uma excelente literatura e um senhor cinema. Quanto a este último, a coisa já vinha se desenhando há algum tempo – o renascimento, a bem dizer, pois a Argentina sempre teve bons cineastas, Fernando Solanas (que continua na ativa e mostrou um documentário em três partes na última Mostra Internacional de Cinema em São Paulo), Eliseo Subiela – : diretores como Juan José Campanella, Fabián Bielinsky e Lucrecia Martel têm nos alimentado com excelentes produções, tendo deixado uma marca na década passada. A questão é que, neste momento, estamos com um leque bem amplo de bons filmes argentinos à nossa disposição, seja nas prateleiras de “lançamentos” das locadoras, seja nas salas de cinema. Pretendo aqui comentar dois deles, dos quais eu mais gostei, e falar en passant a respeito de dois outros.

Antes porém, quero chamar a atenção para o fato de que, desses quatro filmes, três são estrelados por um mesmo ator, Ricardo Darín, um verdadeiro monstro cinematográfico – ao ponto de ter recebido, recentemente, no CCBB, como reconhecimento ao seu trabalho, uma mostra exclusivamente com filmes em que ele participou. Há, sem dúvida, algo aí que merece uma reflexão, pois não me parece que seja fortuita essa semi onipresença quando o assunto é cinema argentino atual. Qual é o segredo dessa combinação? E quem vem antes, Darín ou os cineastas que dele se utilizam, o ovo ou a galinha? Eu acho que o segredo desse ator –  além dos seus olhos, como nos induzem a dizer o título da sua mais recente parceria com Campanella (O segredo dos seus olhos) e a fala da personagem que, por ele apaixonada, com ele contracena em Um conto chinês, de Sebastián Borensztein – é a capacidade que ele tem de metralhar palavrões numa velocidade jamais vista.

Claro, palavrões são instrumentos verbais que se inserem em contextos interlocutivos que, por sua vez, são o habitat natural dos atores, são o plasma onde se revelam os grandes mestres da arte de representar, e Darín é um deles, sempre a interagir, integrado e imerso por inteiro na fabricação da cena proposta. Mas tudo indica que, para conseguir expressar a realidade recente da Argentina, não bastava que um ator tivesse esse talento, o da inserção a contento nesse tipo de contexto: era preciso que ele tivesse o dom do palavrão.

Dito isso, vamos ao dois filmes de que mais gostei dentre os quatro: são o de Borensztein, já mencionado e em cartaz nos cinemas, e um filme de 2009, O homem ao lado, da dupla Mariano Cohn e Gastón Duprat – os outros dois são o de Campanella, já citado, e Abutres, de Pablo Trapero. Acho que eles (os dois primeiros) têm um ponto em comum, uma certa sutileza, que os torna deveras surpreendentes; ao passo que tanto O segredo…, quanto Abutres, ainda que retratos pungentes de condições sociais atuais e pretéritas, se deixam contaminar pelo tema mais rotineiro e sisudo da violência.

O que surpreende nos dois filmes de que mais gostei é o olhar que ambos têm em relação àquilo que nos incomoda, o excêntrico, o que foge aos nossos padrões. Em Um conto… trata-se, evidentemente, do imigrante, que aterriza em nosso quintal sem sequer falar a nossa língua. Como lidar com ele, dados os nossos problemas já tão numerosos e difíceis? Em O homem…, o mais hilário de todos esses quatro filmes (e talvez o melhor), trata-se do vizinho, cujo estilo difere drasticamente daquele do protagonista, um refinado e laureado designer que vive o luxo de morar, com a sua esposa e filha, na única casa existente em toda a América desenhada pelo arquiteto Le Corbusier. Ocorre que esse vizinho quer abrir uma janela no muro limítrofe à famosa casa e começa a quebradeira logo na primeira cena do filme, para espanto do designer e de sua esposa, que consideram aquilo um crime quase de lesa-pátria, por ser cafona e por invadir a sua privacidade. E assim se desenvolve a película, no quase impossível diálogo entre o ultra chique e o ápice do brega, que necessitam (ou não) encontrar um entendimento, um denominador comum.

Creio que esses filmes, ao focar o excêntrico e o incômodo, acabam, no fundo, por tematizar esse “nós” e os seus apegos; e que é precisamente aí que reside a sua maior grandeza. Considerar algo cafona e de mau-gosto é uma atividade à qual tantos de nós, e com tanto empenho, nos dedicamos, como se, com isso, pudéssemos criar à nossa volta um cordão de isolamento estético, algo que nos diferencie e nos reafirme perante nós mesmos e perante os outros. Essa espécie de esporte costuma se calcar na capacidade de infligir ao outro o ridículo. Mas eis que um filme como O homem ao lado nos deixa uma pulga atrás da orelha quanto ao quão ridículo é, no fundo, essa atitude, que só nos separa e isola. O que o cafona homem ao lado, vivido magistralmente por Daniel Aráoz , queria era tout simplement, um amigo; e a pergunta que fica é: o que pode haver de mais chique do que isso?

Algo semelhante ocorre em Um conto chinês, onde um não tão chique Darín se vê às voltas com um chinês recém chegado do oriente, totalmente perdido e à procura do seu tio, cujo endereço levava tatuado em seu braço. Darín, um solitário e descrente comerciante, se compadece desse jovem e o ajuda, ambos logo descobrindo que o tio imigrante havia se mudado e que seu paradeiro era desconhecido. A China costuma ser sinônimo, por aqui, de coisa barata, inferior, como se nada daquilo que vem desse gigantesco país pudesse ter um grande valor, já que tudo lá parece ter que se dividir, necessariamente, por 1 vírgula tantos bilhão, que corresponde ao montante da sua população. Mas, novamente, com esse filme de Borensztein, o cinema consegue entortar o lugar-comum, revelando, nesse “conto” excêntrico, um lirismo que a dureza das ruas bonaerenses tende a dizimar – e a força de um personagem que, mesmo tendo sofrido a mais absurda das tragédias, ainda assim consegue acreditar na beleza do mundo e no sentido da vida.

Mas eleger esses dois filmes mais auto-reflexivos, em detrimento dos outros dois mais cheios de ação, pode dar a impressão de que haveria uma cisão insuspeita no conjunto desses quatro filmes, a indicar, talvez, algo parecido na realidade argentina. Nada seria mais enganador, pois em todos os quatro filmes essa realidade se apresenta de forma uniforme, ou seja, a de um país carente de justiça. Isso se vê tanto no vínculo do estuprador assassino de O segredo dos seus olhos com a ditadura militar que lhe dava guarida, tornando-o acima da lei, quanto nos meandros e na desenvoltura da forma de operar da máfia das indenizações, expostos em Abutres; tanto na inoperância das autoridades de Um conto chinês quanto na incapacidade e no descrédito da Justiça local no que se refere à resolução de pequenos litígios como o que se vê acontecer em O homem ao lado. Em todos esses filmes, é muito clara a presença de uma Argentina como uma terra que peca no que diz respeito à existência ou aplicação da Lei, isto é, de um país (ainda) muito vitimado pela corrupção. E, em assim sendo, ficam muito claros, também, os motivos que alçaram um ator como Ricardo Darín, com o seu grande talento particular já apontado acima, a um must na filmografia recente desse país.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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3 Responses to O recente cinema argentino

  1. Juliana Bonat disse:

    Compartilho de sua admiração pela literatura e pelo cinema argentinos. Especificamente em relação ao cinema, impressiona-me a singeleza da forma e a riqueza poética. Apaixonei-me por “Um conto chinês”. Diria que ali a excentricidade não se encontrava somente na vida do hóspede chinês, mas no próprio sentimento do protagonista, que precisou se defrontar com a história absurda do “estrangeiro” para reconhecer sua própria paixão. É o “outro” nos colocando em contato com aquilo que é mais íntimo na gente…

  2. Está aí, quem sabe, todo o sentido da etnologia. Saudade e obrigado pelo comentário. Eu já tive a honra de publicar no teu blog e agora inverto a iniciativa e te convido a escrever sobre o que queiras, quando queiras, aqui neste balbúrdia. Seria uma nova honra ter um, ou mais de um, texto teu aqui. Beijo.

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