Inhotim

UM JARDIM DE DELÍCIAS

Ao longo da vida é inevitável que nos deparemos com a pergunta: o que você faria se ganhasse na loteria? Eu já devo ter participado, durante meus 45 anos de vida, de no mínimo umas vinte conversas em torno desse assunto e nunca soube dar uma resposta convincente – pro meu interlocutor e pra mim mesmo. Eu, na verdade, não saberia o que fazer se, da noite pro dia, me tornasse um milionário. Pois bem, acontece que agora me encontro numa posição nova quanto a essa situação hipotética, tendo plena condição de responder a essa pergunta tão recorrente: eu faria um lugar igual a Inhotim.

Acabo de passar dois dias nesse empreendimento fantástico situado nas imediações de Brumadinho, município limítrofe a Belo Horizonte. Pra quem nunca ouviu falar, trata-se de um centro de arte contemporânea que ocupa o que já foi uma enorme fazenda e é composto por inúmeras galerias e obras a céu aberto, concentrando trabalhos de nomes importantes  nas artes plásticas desde os anos 1960, do Brasil e do mundo. E como se não bastasse, é também um majestoso jardim botânico onde se encontra uma variedade impressionante de espécies (principalmente de palmeiras) que contracenam com belíssimas lagoas e servem de cortina a esconder uma galeria da outra, um recanto iluminado pela criação humana do outro.

Um dado inicial me impactou fortemente, tendo eu já ouvido falar sobre os jardins, as galerias e obras e sobre a extensão de tudo isso, mas nunca imaginando essa cifra: Inhotim hoje emprega 800 pessoas! Depois de tê-lo visitado, posso atestar que isso só pode ser verdade, tendo em vista o quão bem cuidado são todos os componentes desse espetáculo: obras de arte, plantas, edifícios, cenários, visitantes.

É claro, tudo isso é fruto de um desejo, de um homem que, empresário do ramo siderúrgico, empenhou parte da sua fortuna e do seu trabalho nesse sonho. Seu nome é Bernardo Paz e a sua história é certamente algo a ser levantado e repassado a todos. Contudo, quero aqui me ater a um simples aspecto dessa sua iniciativa de dimensões ciclópicas e verdadeiramente transformadora: o que diz respeito à sintonia entre o seu esforço e o esforço das dezenas (ou centenas) de artistas geniais cujas obras ele fez com que Inhotim abrigasse.

Todo artista que faça juz a essa denominação, creio eu, é um revolucionário. Quer seja uma mega instalação com as mais recentes novidades da tecnologia, quer seja um simples anel de dedo feito a partir de um pedaço de pau ou meras palavras postas uma do lado da outra, uma obra de arte é algo que está voltado para a transformação. A inserção, no mundo, de coisas criadas pelo espírito com a intenção de mudá-lo: creio que é disso que se trata quando o assunto é arte.

Pois bem, acontece que a criação humana parece ser uma espécie de vírus, que não se conforma com os limites que muitos julgam lhe serem convenientes, suficientes, adequados. O espírito parece sempre querer mais, ao passo que o mundo tende a se mover numa direção oposta, a da repetição, a do baixo custo, do razoável – principalmente quando ele se encontra sob a batuta da ciência e da produção em série. Essa é uma eterna aporia, que faz com que o artista, com toda essa sua busca pelo que não existe ainda,  termine quase sempre por ser visto como “louco”.

Inhotim é o que acontece quando o mundo resolve dizer sim a esses “loucos”, quando se dá uma trégua ao cabo-de-guerra entre o familiar e o novo e se embarca na aventura daquilo que o pensamento e a imaginação são capazes. Ser artista não é algo fácil; a arte, tenho me dado conta, é um processo que envolve inúmeros passos, que vão desde o domínio técnico das ferramentas e da apreensão do conjunto de contribuições (alguns chamam isso de “linguagem”) que configuram um gênero artístico  em específico, passam pela concepção propriamente, pela execução e terminam numa etapa que não é menos espinhosa: a comunicação daquilo que foi criado. Não há arte sem um público e o artista necessita, tal qual uma empresa, desse departamento, o que expõe seus produtos perante a apreciação alheia. Acontece, contudo, que muita arte deixa de existir em função dessa última etapa a ser vencida; o que parece óbvio, a necessidade desse arremate, nem sempre o é, até mesmo para alguns agentes do Estado, encarregados precisamente disso, da assim chamada “cultura”.

Nesse sentido, impressionaram-me muito os edifícios de Inhotim que foram erguidos somente para abrigar uma única obra – é o caso da Galeria “True Rouge”, que recebeu a “instauração” homônima de Tunga e do buraco sonoro de Doug Aitken, onde se escutam os frêmitos terrestres, bem como o de diversas galerias dedicadas à obra de um único artista (Adriana Varejão, Cildo Meirelles, Miguel Rio Branco e outros) –, uma verdadeira inversão de valores, principalmente para um olhar como o meu, brasiliense, acostumado a reverenciar prédios em lugar de vivências.

Não tenho o hábito de apostar na loteria, apesar de tê-lo feito nesta última virada de ano e de fazê-lo de vez em quando. Isso certamente torna mais difícil o que especulo acima. Mas não foi em face dessa dificuldade – e sim porque não pude mesmo evitar, encantado que estava – que eu tomei, ao sair desse centro, uma atitude que tampouco, arredio que sou a associações, é uma marca minha: filiei-me ao Amigos de Inhotim, dando a minha pequena contribuição para que essa conjuração de loucos, essa genuína heterotopia foucaultiana, continue. Essa é a minha verdadeira aposta.

Anúncios

About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
Esta entrada foi publicada em Arte, Ideias e condutas. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

3 Responses to Inhotim

  1. ricarvalho66 disse:

    falou, Andrés! deu vontade de ir até esse lugar e passar por ele e sair assim maravilhado que nem você saiu! deve ser simplesmente lindo! agora permita-me o seguinte:

    1. todo artista é um revolucionário, esse Bernardo Paz é um artista do dinheiro, então ele é um revolucionário do dinheiro.

    2. a repetição por milênios do mesmo ciclo solar possibilitou a vida na terra; a repetição é a mãe da criação; ser artista não é algo fácil.

    3. Inhotim você faria com a grana da loteria; a aventura daquilo que o pensamento a imaginação e o dinheiro são capazes.

    que achas? não entendi nada? quase comprei essa loteria no fim do ano também! que loucura! imagina! grande abraçón! y felix 2012 todos los dias! buen dia!

  2. Obrigado pelo comentário, Ricardón. Espero que um dia você vá mesmo lá. Quanto ao que você coloca, permita-me também:
    1. é revolucionário encontrar uma forma inteligente de empregar o sobre-lucro permitindo que artistas e público se encontrem, ainda que o Bernardo Paz não seja o primeiro a fazer tal tipo de coisa.
    2. até pensei em consultar o “Diferenca e repetição” do Deleuze, que, salvo engano, trata do eterno retorno. Acho esse sentido nietzscheano de repetição algo válido, mas quando digo repetição, penso no camarada que faz todo dia a mesma coisa, aqueles que em Minas se costuma chamar de sistemáticos, cuja vida carece de surpresas.
    3. sim, o dinheiro é o único que resolve certas pretensões, certos devaneios. A questão é se vamos achar que realizar sonhos, delirar, é jogar ou não dinheiro fora. Creio que o B. Paz acredita que não, inclusive porque ele banca todo mês 75% dos custos de tudo, um montante que não deve ser nada pequeno.
    Abraço grande!

  3. Elaine disse:

    Uau!! Tb quero conhecer Inhotim!! Obrigada por nos falar dessa maravilha!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s