O Artista e A Invenção de Hugo Cabret

AND THE OSCAR GOES TO…

Há coisa de uma semana assisti a O artista, de Michel Hazanavicius, e fiquei com vontade de escrever a respeito. Mas logo fiquei sabendo que o último filme de Martin Scorcese, A invenção de Hugo Cabret, girava em torno do mesmo assunto e aguardei para escrever só depois de tê-lo visto também. O assunto em comum é o cinema e ambos os filmes são bons, ainda que é possível que o de Scorcese não tivesse me empolgado a ponto de querer escrever sobre ele, caso, por azar, não existisse o de Hazanavicius. Ambos os filmes dialogam bem, como tentarei mostrar a seguir.

Antes disso, contudo, quero deixar registrado um espanto quanto ao favoritismo que ambos esses filmes têm apresentado na disputa que se avizinha das famosas estatuetas conhecidas como Oscars. Não que eles não as mereçam, mas o que ocorre é que ambos são algo mais da linha dos “assuntos domésticos”, dos internal affairs, estão voltados para uma auto-reflexão que, até onde me lembro, jamais caracterizou os filmes oscarizáveis. Algo parece estar mudando nas escolhas desse clube norte-americano de profissionais cuja festa anual é sempre acompanhada por milhões de pessoas em todo o planeta?

O artista faz uso de diversos recursos para nos brindar com um filme semimudo que, aparentemente, rende uma homenagem ao início dessa arte que é o cinema. Narra, todos já devem estar a par, a condição de uma estrela hollywoodiana da era do cinema mudo que, de uma hora pra outra, se vê obsoleto, quando o som se acopla à até então exclusiva imagem em movimento e as pessoas que vão ao cinema passam a fazê-lo com a nova expectativa de ouvir o que os personagens que estão na tela efetivamente dizem. Angústia suprema de quem se depara com uma intransponível e definitiva barreira tecnológica que é também identitária: eis o que vemos nesse filme francês e que talvez fale direta e particularmente ao nosso costume tão moderno de estarmos sempre atualizados tecnologicamente.

Mas para quem gosta de cinema, para quem tem uma relação um pouco mais visceral com essa arte, creio que O artista vem pressionar uma outra tecla. É a tecla, talvez mais grave, mais profunda, do dizer as coisas por um outro meio, é a questão da própria forma de expressão. Em outras palavras, creio que a questão que esse filme traz é a que diz: se fôssemos tirar do cinema tudo o que lhe é acessório, de tal forma que quiséssemos encontrar a sua verdadeira marca, o seu statement, o que sobraria? Pois bem: o cinema mudo, feito de gestos meio exagerados, de uma fotografia ainda básica, mas, principalmente, de planos filmados, de sequências imagéticas e de montagem.

O cinema não precisa mais do que isso para funcionar, para contar uma história à sua maneira; e o mais bacana nisso tudo é pensar que em qualquer filme, mesmo no mais avançado dos avançados tecnologicamente, o bom e velho cinema mudo está lá, tal qual um rio subterrâneo, a lhe dar uma consistência, uma cara a ser exibida perante todas as outras formas de dizer algo. Poucos são os saberes, parece-me, que chegaram a esse ponto de reconhecimento tão preciso (e de homenagem tão apropriada) das suas correntes internas; e se Hazanavicius porventura não tivesse nascido cineasta, é bem capaz que desse num bom geólogo ou, quem sabe, num médico de primeira.

Já a pegada scorcesiana, igualmente laudatória, diz respeito a esse outro elemento necessário para a existência do cinema: o cineasta. Nada seria possível sem essa figura, de nada adiantaria  que os irmãos Lumière tivessem filmado o primeiro plano sequência e que, em seguida, alguém tivesse colado um plano num outro, configurando uma montagem, se não existissem esses loucos que são os cineastas, esses prestidigitadores de origem, tal como é o caso de Georges Méliès, a quem Scorcese presta homenagem nesse A invenção de Hugo Cabret.

O encontro, fortuito, aleatório, ocasional entre uma coisa e outra, rio e mergulhador, foi o que fez acontecer isso de novo que é a arte cinematográfica. Digo isso pensando num termo, a genealogia, muito caro a Foucault, que, por sua vez, o absorveu de Nietzsche. A genealogia é o que se opõe ao estudo da “origem de algo”, no sentido de que, quando usamos esses termos, é como se esse “algo” sempre tivesse existido, bastando somente que alguém fizesse a sua descoberta. Já a genealogia, essa sabe que as coisas existem por acaso, e eis o porquê de esses dois genealogistas falarem sempre, somente, em emergências, em surgimentos, em descendências, proveniências. O cinema emergiu, surgiu, num determinado momento, fruto do encontro de duas “descendências”. Uma dessas, está a nos dizer esse cineasta genealógico – vide As gangues de Nova York , que narra as lutas, os confrontos dos quais emergiu algo como a cidade de Nova York – que é Scorcese, é a dos mágicos.

Creio que isso explica os milhões que, todo ano, assistimos e assistiremos à entrega dos Oscars – mas eu ousaria dizer que, este ano, a entrega já se deu, para Méliès,  para Eisenstein, Vertov, Lang, Chaplin, Lloyd, etc., etc., etc., etc.., por meio desses dois belíssimos filmes.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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