Millenium e Drive

VIVENDO DE FORMA EXECUTIVA

“Note-se, pois, que não me ocorre contestar

o título de virtudes à honradez, à veracidade, à

moderação sexual. São, sem dúvida, virtudes.

Mas pequenas. Diante delas, encontro as virtudes

criadoras de grandes dimensões, as virtudes

magnânimas. Chénier não quer reconhecer o

valor substantivo destas quando faltam aquelas,

e é isso que me parece uma parcialidade imoral

em favor do pequeno. Porque não é somente

imoral preferir o mal ao bem, mas igualmente

preferir um bem inferior a um bem superior.”

José Ortega y Gasset

Não sei bem o porquê, mas acontece que os filmes ultimamente tem vindo em duplas. Mês passado, foram os dois filmes que concorreram ao Oscar como favoritos e que tinham como tema o próprio cinema (vide o último post). Agora, ocorre que assisti a dois filmes quase em sequencia que apresentam o tema, tão caro a todos – mas também, tão em baixa, ou tão rarefeito nos dias atuais –, do heroísmo. São Millenium – os homens que não amavam a mulheres, de David Fincher e Drive, de Nicolas Winding Refn.

As referências do primeiro, talvez o que eu gostei mais, eram o próprio Fincher, cujo A rede social eu já comentei aqui, e uma entrevista que vi na TV com a figurinista que trabalhou no look da protagonista, a personagem Lisbeth Salander, vivida pela jovem Rooney Mara. Fincher é conhecido como um cineasta extremamente detalhista, que manda repetir à exaustão algumas cenas; e o que me chamou a atenção nessa entrevista, em consonância com esse detalhismo, foi o fato da figurinista afirmar que seu trabalho não visou o mundo da moda, mas sim, exclusivamente, a construção da personagem. Fiquei curioso; e Lisbeth, com o seu visual apocalíptico e a sua desenvoltura perante o universo tecnológico e informacional, bem como com sua beleza física e despudor sexual, de fato, me impactou.

Contudo, as roupas, os penteados, a moto, o sexo e os inúmeros apetrechos de que se faz cercar – no fundo, recursos para lidar com a solidão, onipresente não só na fria e administrada sociedade sueca, onde transcorre a trama – não me parecem suficientes para explicar a minha “queda” por essa menina verdadeiramente heróica que acaba salvando a pele e a honra  de um jornalista mais velho e somente meio heróico (porque vacilão em dados momentos), vivido por Daniel Craig. O que Lisbeth traz de genuinamente novo reside, creio eu, na sua capacidade decisória, que me fez lembrar daquilo que Jorge Forbes, em Você quer o que deseja?,  escreveu a respeito de Mirabeau, inspirado, por seu turno, por um livro de Ortega y Gasset a respeito desse personagem dos tempos da Revolução Francesa.

Mirabeau foi um devasso, um imoral, um ser que passou longe daquilo que consagra os homens ditos razoáveis ou ponderados: era um ser de impulso, que vivia de pleno (“de prisão em prisão”) o mundo da ação. Contudo, foi precisamente esse homem que conseguiu criar a fórmula que salvou politicamente o século XIX, aturdido que estava esse, desde a Revolução, entre república e monarquia: a monarquia constitucional foi ideia sua, gestada de improviso, “em poucas horas”, ideia genial tingida de impossível, que ele fez acompanhar, completando-a, dos “gestos” e da “terminologia”, do “estilo e da emoção” necessários e providenciais para que o próprio “mundo” seguisse em frente.

Forbes, psicanalista, então diagnostica: “se observarmos esse tipo de pessoa, vamos encontrar alguns traços constantes. Primeiro, a impulsividade. Para Mirabeau, viver era responder imediatamente com uma ação à excitação que recebia de fora. Refletia depois de estar fora de si, envolvido com a ação. Nas pessoas não-impulsivas, o pensamento precede a ação, ou seja questiona-se  a própria ação, antecipando-a em  forma de ideia. Isso implica que a ação não seja decidida e executada senão depois de ter sido aprovada como ideia. Como as relações entre as ideias são muito complicadas, a pessoa não-impulsiva, a refletida, decide quase sempre não agir. Mirabeau não questionava seus atos, salvo depois de se achar dentro deles, e seu pensamento servia somente para aperfeiçoar a execução. Segundo, o ativismo. Uma conseqüência da impulsividade é a necessidade constante de ação. Como Mirabeau dizia de si mesmo, só podia viver uma vida executiva (…)”. “Um magnífico animal, uma esplêndida fisiologia”, resume Ortega y Gasset, segundo o resgate feito por Forbes desse filósofo espanhol. Eu diria o mesmo de Lisbeth Salander, a garota com a tatuagem de dragão.

Já as referências de Drive eram meramente as cinco estrelas da programação de cinema do jornal local, alguma coisa que tinha lido sobre o protagonista, o ator Ryan Gosling, uma espécie de queridinho da vez de Hollywood e, na entrada do filme, um dizer no cartaz trazendo a palavra “herói”.

E o que de fato se apresenta é um herói, quase monossilábico, quase cowboy, com o seu palitinho de dente sendo sorvido aficionadamente e, em seguida, equilibrado  entre a orelha e o crânio. Não se sabe de onde vem e nem pra onde vai, somente que dirige feito um selvagem pelas ruas de Los Angeles, eventualmente participando de roubos na mera condição de motorista dos verdadeiros ladrões – os que carregam armas e matam se necessário. A certa altura, ocorre-lhe de se apaixonar pela sua vizinha, mãe de um garoto pequeno cujo pai cumpre pena numa prisão. Quando o romance começa a engatar, o marido da vizinha é solto e volta pra casa, cheio de dívidas contraídas na prisão; um rastro de violência o persegue, inexorável, e o herói, compadecido, se dispõe a ajudá-lo, abrindo mão do seu entusiasmo.

Até esse momento do filme, temos a impressão de que o “heroísmo” irá se resumir a esse respeito ao vínculo anteriormente sacramentado e às formas que o neo-cowboy irá encontrar para lidar com o coração partido, mas eis que, quando menos se espera, explode diante de nossos olhos, decorrente desse passado alheio, uma onda de violência que nos deixa estarrecidos, que quase nos atropela. E o herói revela, então, seu lado B, que é o daquele que tem condições de enfrentar essa violência, tem recursos, apesar do seu semi-mutismo, para tal.

Mais um caso de “esplêndida fisiologia”? Eu não chegaria a tanto. Simplesmente diria que Drive vale a pena ser visto porque recoloca o tema do herói com o uso de tintas inéditas. Se, por um lado, as cenas de violência são calcinantes, elas contrapontuam cenas românticas – banhadas por um trilha sonora espetacular – que são de uma rara beleza. Um feliz encontro entre som e imagem acontece nessa fronteira do western que é L.A., onde carros substituem cavalos, e onde o horizonte termina por engolir o último dos impulsos (drive, no inglês) de liberdade norte-americana, nas cenas em que o virtual trio familiar (o herói, a vizinha e o seu filho) sai dirigindo nos canais de águas pluviais da cidade até chegar num bucólico riacho.

“Seja marginal, seja herói” é o que bradava Hélio Oiticica nos anos ’70. E o mundo cada vez mais administrado dos dias atuais meio que empurrou essa possibilidade para um espaço cada vez mais diminuto. O cinema, por sua vez – já disse isso em certa ocasião aqui neste blog –, necessita de heróis, tal como um vampiro necessita de sangue. E eis que esses dois filmes conseguem extrair, das entranhas do mundo em que vivemos, dois belos heróis; porque, no fundo, é o próprio mundo que, feito um vampiro sedento, precisa deles.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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