Habemus Papam e Um Método Perigoso

E AGORA, SIGMUND?

Para Cléa

Ao assistir a Um método perigoso, de David Cronenberg, veio-me à cabeça a expressão “pegar o touro pelo chifre”. Certa vez, um conhecido meu, jornalista emérito e bem informado, ao saber que eu estava fazendo uma tese de doutorado sobre a liberdade em Foucault usou essa expressão. Hoje, alguns anos depois de ter defendido minha tese, e um pouco com a sensação de ter sobrevivido (parcialmente) a um touro miúra ensandecido e em rota de colisão, veio-me esse dizer, ao ver em cena os principais personagens de uma história que tem tudo a ver com os demais filmes de Cronenberg: Freud, Jung, Spielrein, Ferenczi, os fundadores da psicanálise. Não é brincadeira lidar com o pensamento e com aqueles que o exercem.

E eis que, novamente, um filme visto fez dupla com o anterior, dando sequência a essa série (misteriosa, sincrônica?) onde ocorre de dois filmes dialogarem entre si e, consequentemente, darem ensejo a um único e mesmo comentário meu neste blog.  Esse outro filme é Habemus Papam, de Nanni Moretti, em que justamente um psicanalista (vivido pelo próprio Moretti) é chamado a ajudar o Concílio Papal a fazer o Papa, por ele recém eleito, “desencantar”, assumir a condição de Sumo Pontífice perante os milhares de fieis que o esperam na Praça de São Pedro, condição que o seu “corpo” se recusa a assumir.

Começando por Um método…, creio, petulantemente, que a abordagem ao assunto principal, a psicanálise, é feliz. Trata-se de uma abordagem histórica, de uma leitura de fatos ocorridos entre esses personagens titânicos, em que o drama da descoberta da importância do inconsciente e da carga sexual que o habita – e do legado que ela, descoberta, deixaria – se sobrepõe ao da já encenada relação amorosa entre Jung e Spielrein (no belo Jornada da alma, de Roberto Faenza, de 2002). Os diálogos pungentes entre Freud e Jung, com Spielrein entrando no meio, dão uma excelente dimensão da tensão que se cria quando se está com algo de novo e de poderoso – tal qual um átomo em fissão nuclear – em mãos.

Mas essa dramaticidade do saber seria pouco em termos de enredo, seria talvez até mesmo enfadonhamente pedagógica, se não viesse complementada pela comprovação em carne viva (na ótima interpretação de Keira Knigtley) das conseqüências daquilo que se passa a saber com a psicanálise. E, talvez mais importante, do quê fazer com aquilo que se passa a saber com a psicanálise. Posto em termos mais claros, é vital para o filme que tenha se mostrado que houve uma cura, a da própria Sabina Spielrein, através do método inventado por Freud e por meio da ação de Jung. A palavra serve para que conteúdos a princípio inconfessáveis (porque sexuais, “vergonhosos”) vençam a barreira da culpa, de caráter cultural. A eficácia existe, e ela dialoga com praticamente tudo o que já havia sido exposto (ou explorado) em outros filmes desse diretor canadense, com esse mal-estar civilizatório[1]. A mão encosta no chifre.

A partir daí sim, atentemos para qual o futuro dessa descoberta. Até onde ela nos conduzirá? Eis aí o drama mor, que atinge o seu ápice, no meu entender, no momento em que Freud e Jung discordam frontalmente, o primeiro querendo assegurar o singular da descoberta, o segundo buscando pontes com outros saberes. Não se trata de fundar mais uma igreja, eis a posição firme de Freud, que Jung acaba por desacatar, ressabiado, almejando a possibilidade de uma nova “antropologia”. Pois bem, eis aí uma discordância que cresceu, na história, e que extrapola os limites das relações que o filme foca: a psicanálise é hoje um ente vivo, pulsante e, igualmente, dramático, com todos os que a praticam a se perguntar: o que (ou como) fazer?

O filme de Moretti, creio, nos traz uma certa resposta. Nele, a psicanálise se apresenta, a princípio, como uma salvadora da pátria. Contudo, logo fica claro que ela não consegue nem mesmo um entendimento entre um marido e uma (ex-)mulher colegas psicanalistas. Que bom! Melhor ficar na organização de um torneio de vôlei entre os cardeais. Mas talvez o recado principal quanto à questão das almas, nesse filme, seja a constatação de um fim: o fim de uma instituição que nasceu a partir de um estrondo de dimensões, quem sabe, semelhantes ao estrondo que criou a psicanálise. Não se quer que, um dia, essa invenção de Freud, Jung e companhia acabe da forma como se vê a Igreja Católica acabar nesse filme – com uma absoluta impossibilidade de fala, de representação, sem um corpo sequer que as consiga sustentar. (O filme de Moretti, com o gigante Michel Piccolli no papel de Papa, não é uma comédia como se poderia acreditar de início. Ele expõe, ao contrário, um drama que, queira-se ou não, é real, lançando na tela um cenário hipotético que acaba por não parecer assim tão estapafúrdio. E louve-se o seu final, que não recorre a um truque que poderia facilitar a saída do mal-estar provocado até mesmo nos que não compartilham, como eu, de um credo católico.)

Termino esta crônica anunciando que inicio a leitura de um livro, recém-lançado, que se insere nas preocupações acima evocadas. É “Inconsciente e responsabilidade – psicanálise do século XXI”, de Jorge Forbes. Na sua introdução lê-se algo muito simples, sobre Lacan (Forbes é um psicanalista lacaniano): que há uma segunda clínica lacaniana que, ao contrário da primeira – baseada num sujeito “mortificado pelo significante e, em decorrência, sujeitado ao sentimento de culpa pelo desejo incestuoso” – gira em torno de um “ser falante” que é “vivificado pelo significante” e deve “responsabilizar-se pela singularidade do seu gozo”. A aposta de Forbes é alta, pois o que se pretende é, justamente, questionar “se ainda é pertinente, nos dias de hoje, discutir as raízes da moralidade com fundamento na culpabilidade”. Moralidade, essa pequena partícula cuja manipulação oferece tantos riscos… Tinham mesmo que, um dia, fazer um filme a esse respeito.


[1] A opção desse cineasta em filmar um dos livros de Charles Bukowski, em Mistérios e paixões (Naked lunch), ou a tara por batidas violentas que o protagonista de Crash – estranhos prazeres passa a experimentar depois de ter sofrido o primeiro acidente de carro, são indícios disso.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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