Na Estrada e Fausto

A FORÇA DO DELICADO

Nós vimos ao mundo sabe-se lá por que; com que propósito, ninguém sabe ao certo. O certo é que há um momento na vida de cada um em que algo a que se dá o nome de infância termina e em que se inicia algo que é pra valer, mas que não tem mapa, ou bula, ou, mesmo, certo e errado: a vida adulta, ou vida, simplesmente. On the Road, livro escrito por Jack Kerouac no início dos anos 1950 e agora filmado pelo cineasta brasileiro Walter Salles, foi, é, e talvez será por muitas gerações uma ajuda para os que passam por esse momento, fazendo uma apresentação daquilo que deverão encontrar por aí, daí em diante. Nesse sentido, creio eu, tornou-se um clássico inconteste, por mais que muito se questione, torpemente, se é ou não “literatura”. Amor, desejo, sexo, amizade, dúvida, drogas, música, êxtase, decepção, fome, raiva, sonho, tudo está lá, narrado por alguém que se dispôs a contar o que viveu quando com “isso” se deparou.

Eu gostei do filme de Salles, um filme que, ao contrário de outros seus (Água Negra, por exemplo, ou mesmo Diários de Motocicleta), deu certo, conseguindo ser fiel ao grande livro que lhe deu origem. Penso que uma das características primeiras do cinema desse diretor talvez tenha sido crucial nisso: a delicadeza. Sim, porque, por mais estranho que isso pareça quando estamos falando de alguém que já filmou a saga de um líder revolucionário (mesmo que tenha sido o terno Che), a vendeta que toma conta de duas famílias que dividem o mesmo território (Abril Despedaçado, inspirado no albanês Ismail Kadaré), a luta, maternamente conduzida, pela sobrevivência por parte de uma família da periferia de São Paulo (Linha de Passe) e o analfabetismo no coração urbano e rural do Brasil (Central do Brasil), se há uma palavra que pode resumir o trabalho de Salles, essa palavra é essa, a delicadeza. Questão de estilo[1].

Creio que, no caso de Na Estrada, essa forma de proceder, claro, está presente na suavidade discursiva, no ritmo e até no enquadramento e fotografia que me lembram às vezes os filmes de Wim Wenders; mas creio-a presente também no approach à obra literária. Um approach humilde, me parece, que sabe que o que se está filmando, o livro em si, é um tremendo livro, uma obra para não ser superada em momento algum.

Coincidentemente, quando o vi, o filme de Salles estava passando simultaneamente ao filme de Alexander Sokurov, Fausto. Em plena época de Olimpíadas (inclusive quando aconteceu de Brasil e Rússia terem disputado a final no vôlei masculino, numa partida inexplicável), não tive como não pensar numa comparação entre ambos.

Sokurov inscreve esse seu último filme no conjunto de filmes seus que retratam grandes personagens históricos em momentos de sufoco: Hitler nos seus derradeiros momentos (em Moloch, que ainda não vi), Lenin exilado por Stalin na Sibéria (em Taurus) e o imperador Akihito quando o Japão acaba de se render aos EUA logo após as duas bombas que puseram ponto final na banda Pacífica da Segunda Guerra Mundial (em O Sol). Desta vez, temos um personagem da ficção, o grande Fausto, do gigante Goethe, que já havia sido versionado tanto na literatura (Thomas Mann) quanto no cinema (Istvan Szabo, com Mephisto).

O primeiro ponto que pode ser visto quando o assunto é ambos esses diretores, Salles e Sokhurov, é que eles não têm medo de mitos. Sim, porque sejam eles oriundos da política, sejam da imaginação, Che Guevara, Hitler, Lenin, Akihito, Fausto ou Sal Paradise, são, antes de mais nada, lendas culturais. Há aí uma coincidência, certamente, que não sei bem interpretar, ainda.

O segundo ponto reside na ressonância que um filme como Fausto produz. Em quase tudo fiel e respeitoso ao original (inclusive na língua escolhida), o filme de Sokurov, assim como o Na Estrada, opera no elevado registro do sentido, do mais difícil dos por quês, o da vida. Óbvio que a resposta (para esse por quê) é inexistente –  tanto quanto a explicação para uma derrota num jogo que já estava ganho –,  mas é sim possível uma descrição da dúvida que a todos irá acompanhar enquanto vivos estivermos – assim como é possível um relato daquilo com o que iremos nos deparar ao longo desse tempo, o dito “mundo” – e o livro de Goethe pode ser visto, quem sabe, como um livro para nos auxiliar na fase justamente anterior a essa em que On the Road nos auxilia, quando todas essas terríveis dúvidas nos assaltam, mas não nos abalam tanto. Fausto, eu diria, é um livro que foi escrito para que o lêssemos ainda no ventre materno, caso isso calhasse.

Mas há um terceiro e derradeiro ponto de semelhança ou aproximação, que diz respeito à delicadeza. É ela o que mais me surpreendeu num filme como O Sol. Sim, porque um imperador, por mais solar que seja, é um ser humano; e a única forma que ele possui para manter a sua sanidade mental, numa situação como aquela, de absoluta humilhação, é sendo gente; ou melhor, é ter sido, até então, isso (e continuar a sê-lo). Por isso, o lado cientista dessa figura histórica, esse lado que se intensifica naquele momento e que o faz passar, por vezes, por um alienado, bem, esse lado é o que nos engancha; e Sokurov foi mestre ao mostra-lo, ao pôr sua lupa sobre ele.

Creio que o time russo de vôlei, que triunfou após estar na derradeira beira do abismo e teve a humildade para reconquistar terreno ponto por ponto, só pode ter tido, na sua preparação, sessões intensivas de Sokurov.


[1] Um amigo meu, Denilson Lopes, professor de comunicação no Rio de Janeiro e grande teórico do cinema, inclusive, sei que tem um livro sobre esse assunto, livro esse que ainda não li e que pode até já ter dito o que digo agora.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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