Cosmópolis, de David Cronemberg

O QUE CHARTEIA E O INCHARTEÁVEL

Há alguns posts atrás comentei sobre um filme de David Cronemberg, que tinha acabado de ser lançado, Um método perigoso. Naquela ocasião, disse que esse era um cineasta de coragem – comparei-o a um toureiro que “pega o touro pelo chifre”—posto que abordava um assunto explosivo, a moralidade, tal qual veio a ser “manipulada” pelo fundador da psicanálise, Freud, cuja relação com dois dos seus discípulos, Jung e Spielrein, é focada nesse filme. Deixei de lado um (temível, de minha parte) aprofundamento a respeito desse cineasta canadense, que um dos personagens do romancista catalão Enrique Villa-Matas, certamente falando em nome do seu criador, disse, certa vez, ser o único cineasta da atualidade que verdadeiramente vale a pena.

Seis meses depois de Um método… eis que Cronemberg lança em nossa direção o míssil Cosmópolis, baseado em romance do americano Don DeLillo; e uma das minhas impressões, ao longo da sessão em que vi esse filme, foi a de que o alter-ego de Villa-Matas em Dublinesca tem mesmo razão. Temos com esse filme, o velho Cronemberg, iconoclasta ao ponto de causar a repulsa, chocante em todos os aspectos, impiedoso de dar dó, como que a dizer que o mergulho realizado no filme anterior teria sido um mero Engov (esse remédio que se toma antes de ir a um evento onde se beberá ou comerá horrores) para esta nova bacanal de imagens e situações narradas.

O filme tem como eixo um jovem mega-milionário das bolsas, um pequeno gênio infantil cujo talento foi canalizado para as finanças, para o dinheiro em si, tendo tido como consequência a geração de um monstro. Um monstro, a bem da verdade, que, ao contrário de outros, se mantém jovem (daí que vê seu médico todos os dias), tem amigos (cuja morte lamenta), mulheres que o amam e nutre uma admiração pela arte e a teoria. Mas, de todo modo, monstro, como já tivemos no cinema (Kane) e na literatura (Wenceslau Pietro Pietras) na mesma e em outras cosmópolis.

Minha leitura desse filme vai além daquilo que se possa ver nele relativo ao “mal” que o dinheiro possa ter feito a ele, personagem, ou ao mundo contemporâneo como um todo (há diversos momentos no filme, uma auto-reflexão em moto-contínuo, na verdade, em que isso é explicitamente abordado). O que ressoou dele em mim, com maior intensidade, diz respeito à criatividade, um dom humano que tendemos a aproximar daquilo a que damos o nome de arte.

Há algum tempo me pergunto sobre a distância que existe (ou existiria) entre um empresário e um artista. Para mim, é possível descrever a ambos como seres que levantam cedo iniciando uma faina que num dos casos, o primeiro, visa gerar lucro e, no segundo, felicidade, deleite ou mesmo crescimento, pessoal, mas, principalmente, alheio. Um artista, no sentido genérico, claro, não teria a mesma energia empreendedora que um empresário idem tem, só que com outro fim?

Essa reflexão se encaixa na minha apreensão de Cosmópolis porque me ocorre de Eric Packer, o monstro em questão, ser um esteta, mais do que qualquer outra coisa. O seu declínio, que ocorre ao longo de um só dia, cuja duração o filme cobre, se dá precisamente por isso: pela sua obsessão em encontrar padrões no caos que são as subidas e descidas das cotações das moedas e das ações. Padrões, não no sentido científico, mas no sentido estético, relativo ao belo, que ocorre quando os índices “charteiam”, ou seja, quando se desenham configurando uma tendência. Uma altíssima sensibilidade é requerida para tal e dela decorre, certamente – e confessadamente, como se vê no final –, um gozo.

Dentre todos os incríveis personagens que cercam Packer, subindo e descendo da forma mais engraçada de sua limusine – ou revolvendo-se no seu entorno – o do performer vivido por Mathieu Amalric é um dos que mais me chamou a atenção: ele é, eu diria, o seu concorrente direto, muito mais do que qualquer outro mega–investidor (que, de resto, nem aparecem no filme). Sua arte é a de jogar tortas recém assadas nos famosos do mundo inteiro, fazendo-se acompanhar por um batalhão de fotógrafos e videastas. O importante, como, a certa altura, diz Packer à sua noiva, não é o resultado – o performer acaba levando um chute no saco quando faz isso com Packer e lhe diz já ter sofrido coisas muito piores –, mas o gesto.

Os filmes de Cronemberg não são filmes para aqueles que querem encontrar um belo fácil, convencional. Muito pelo contrário, o que neles aparece é a disformidade, a falta de tendência, a ausência de simetria que acomete a raça humana e que constitui, ironicamente, a sua maior beleza. Cosmópolis é uma reflexão sobre o futuro dessa raça, parece-me, não no sentido catastrófico/lamentativo de um confronto de lógicas (do capital, da libido, etc.), mas num em que as possibilidades (e impossibilidades) da beleza se vejam sendo experimentadas, investigadas, expandidas.

Anúncios

About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
Esta entrada foi publicada em Filmes. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

6 Responses to Cosmópolis, de David Cronemberg

  1. Susana Dobal disse:

    Bom texto, Andrés, deu vontade de ver o filme. Vou atrás. Ele é mesmo um cineasta intrigante. Em linha bem diferente, mas um dos raros que me faz pensar também em quem vale a pena sair de casa pra ver, é o Béla Tarr. Por ele, eu tiraria o troféu citado no seu texto de único da atualidade dado ao Cronemberg. Deve haver outros. Essa poderia ser aliás uma enquete sugestiva entre os amigos: qual cineasta no momento vale a pena ver? O Cronemberg trata o tema da violência de uma maneira que não é gratuita, ou fala da gratuidade dela com distanciamento. Fiquei curiosa pela mistura de empresário e artista – de fato duas facetas difíceis de conciliar.

    • Obrigado, Susana. Tem um lado meio reducionista isso de “ser o único que vale a pena”, até mesmo estranho para um blog que tem falado tanto sobre filmes e cineastas. Mas, ainda assim, essa é uma sensação legítima, creio eu. Se é pra sair de casa e encarar todo o procedimento de “embarque”, tem que chacoalhar, não é? Eu creio que vi somente um filme do Béla Tarr, “Danação”, salvo engano. Gostei bastante, mas não me lembro se na época já escrevia sobre cinema.
      O próximo post do balbúrdia será o de número 50 e eu tenho pensado numa forma de comemorar isso. Me ocorreu de te convidar para responder à pergunta: por que é que o Béla Tarr é o teu cineasta único a te fazer sair de casa?

  2. Cléa Maranhão Gomes de Sá disse:

    Andrés, o filme me incomodou. Me lembrei do Vila-Matas e sua obssessão com outro filme do Cronenberg. Não gostei do filme, mas acho mesmo que não é um filme para se gostar. É pra ver, sentir e …nem sei mais o que dizer. Só que você está se tornando cada vez mais um crítico único. Um abraço
    Cléa

    • Cleita, obrigado pelo incentivo, leitura e comentário. Tem um amigo meu que me escreveu dizendo que tinha detestado o filme, mas que depois de ter lido a minha crítica estava reconsiderando. Creio que, com isso, posso me dar por muito satisfeito (mais do que jamais esperei). A gente manda o nosso recado que às vezes ressoa aqui, às vezes acolá. O negócio é não deixar de mandar, não é?

  3. Susana Dobal disse:

    Andrés, o convite é um bom desafio, mas pra quando seria isso? Eu precisaria ter acesso aos filmes dele, não sei se é viável. De qualquer forma, é um cineasta que me emociona, mas há também outros.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s