Boa sorte, meu amor, de Daniel Aragão

STARDUST NOS NOSSOS OLHOS

Não é a primeira vez que isso acontece; e nem será a última: meu filme favorito não é o que o júri escolheu. No último post, quando fiz uma sinopse do que vi e gostei no 45º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, fiquei de escrever sobre a minha escolha de melhor filme dessa edição; e eis-me aqui a declarar que Boa sorte, meu amor, de Daniel Aragão, é filme pra entrar na história do cinema (ponto) tal qual eu a concebo.

O que faz esse filme ter esse status? Bom, creio que a linguagem que ele desenvolve.

Primeiro, sua fotografia em preto e branco, que nos joga na essência – de uma história de amor entre dois jovens (Maria e Dirceu), de uma cidade (Recife) e dos que, vindos de outro meio, agora a povoam, de relações sociais (os proprietários e os não proprietários), das famílias (e os seus silêncios). Cineastas diversos, assim como fotógrafos, se utilizam, ainda, desse meio de filmar. Para alguns é parte vital daquilo que dizem: algo como não estar muito para brincadeiras, não querer distração, desvio algum. Sebastião Salgado nunca funcionou em cor, Daunbailó, de Jim Jarmusch, não teria como ser colorido, e esse húngaro que agora se tornou um desafio deste blog, Béla Tarr, parece que é um adepto firme da causa. Não digo nada sobre cineastas mais antigos, Bergman, Antonioni (que alucinou nas cores com Deserto Vermelho, mas cujo A noite se desenha entre o escuro profundo dos ternos de Mastroianni e a alvura crítica da pele de Monica Vitti), Pasolini, Glauber, Buñuel, Welles, Ozu: eles tinham menos opção, haviam crescido dentro do universo P&B, carregavam a Lang, Eisenstein e Vigo no sangue.

A opção pelo P&B, talvez, é uma que permite que outros elementos da linguagem cinematográfica se tornem mais perceptíveis. No caso do filme de Aragão, essa “janela de oportunidade” é aproveitada até o talo: som, movimento de câmera, encenação compõem uma polifonia extasiante, que emite uma espécie de luz a banhar nossas retinas, do começo ao fim. Há muita liberdade no cinema de Aragão, nada é obvio, tudo é experimental, criativo, em sintonia com a personagem Maria, que tinha descoberto a música e pronto, não precisava de mais nada na vida, podia tranquilamente voltar para o interior, de onde tinha vindo – assim como Aragão “volta” ao P&B – , ou ficar na cidade, tanto faz. Era alguém que estava resolvida, apesar de ser tão jovem e de não ter nada, em absoluto, resolvido.

Senti-me, ao ver esse filme, como vendo uma continuação de Terra em transe. Não sei bem como descrever isso, talvez passe pelos espaços em que o filme transcorre, com a proximidade do mar, a rua estendida para o escoar de uma sociedade, o apartamento de luxo vazio ou com poucos móveis, como que atravessado por um vendaval de história. Talvez seja a urgência dos personagens, que têm fome diante da comida, o carro a rodar e rodar, quase desgovernado. Mas, antes de tudo, creio que se trata do olhar de Maria, que, de repente, some e nos deixa no mesmo transe em que deixou a Dirceu.

Transe parece ser uma palavra caída em desuso, uma palavra bem anos ’60, de quando os terreiros passaram a receber a visita regular dos etnólogos. Naquele então, a racionalidade iluminista estava sob fogo cerrado, e as religiões africanas, bem como as drogas, pareciam poder trazer uma outra sintaxe para a realidade. Glauber Rocha, parece-me, queria que seu país, o Brasil, sua terra, se não representava em si propriamente uma nova saída, entrasse em algo novo, incorporasse uma via alternativa. Queria que a sua inquietação pessoal se espalhasse como proposta civilizatória, algo eminentemente coletivo.

Hoje, um termo próximo do significado de transe é “vibe”, algo que parece-me passar por um circuito mais particular, mais próximo do individual. Ela carrega consigo a acepção de inquietação que essa outra palavra mais velha carrega, mas, desta feita, dentro de um contexto em que, como nas raves onde a música techno congrega (às vezes) a centenas de milhares, monólogos são articulados. Não há mais, nessa inquietação, a aposta num diálogo, numa lógica outra, mas simplesmente, como diz Forbes (o pai dessa percepção), a perspectiva de ressoar, ou não. E o que ocorre a Maria e Dirceu, o que motiva o sumiço da primeira e o que ela logo cuida de eliminar, equivaleria a uma quebra da vibe. Às vezes, talvez na maioria delas, o ressoar depende da sorte; e, para mantê-lo vivo, se faz necessário um adeus.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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3 Responses to Boa sorte, meu amor, de Daniel Aragão

  1. Ensaio fotográfico de minha autoria. Modelo: Zulu (ZVF). Agradecimentos a Angelita Mourão.

  2. Cléa Maranhão Gomes de Sá disse:

    Andrés, como você escreve bem e bonito. Fiquei com muito interesse nesse filme, do qual você fala tão bem. Será que ele passará no circuito comercial? Apesar de estarmos hoje com uma programação melhor nos cinemas aqui em Brasília, ainda sinto falta de um cine-clube. Quando a gente perde o filme no festival, adeus. Um abração
    Cléa

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