Mensalão

UMA PAUSA PARA REFLEXÃO

Resisti o quanto pude à tentação de escrever sobre o julgamento do mensalão. Tenho me acostumado a escrever sobre cinema, neste blog que se propõe a ser um receptáculo dos meus entusiasmos; e o que, nesse caso, o mensalão, tinha tudo pra ser um filme sensacional, um momento de alegria e de festa, tem sido motivo para meu espanto, pra não dizer tristeza. Tristeza de quê? Pois bem, de ver tantas pessoas próximas e queridas acharem que nesse julgamento cometeram-se injustiças com os dois principais réus, Genoíno e Dirceu.

Eu tive a oportunidade de ver, pela TV, algumas das sessões desse julgamento. Não sei se todos os que hoje choram os resultados até o presente tiveram essa mesma oportunidade. Talvez esteja aí o elemento decisivo, o divisor de águas, pois o que se vê, direto do plenário, ao vivo e a cores, é um julgamento extremamente técnico, são servidores públicos de altíssimo preparo cotejando o conteúdo de mais de 60.000 páginas de autos com aquilo que carregam nos seus “HD’s” e nos seus espíritos, relativos à lei, à justiça, um compromisso maior de cada um deles.

Eu sou servidor público também – meu posto de trabalho não dista mais do que 10 km do desses 10 preclaros. E, em assim sendo, sei que, para além de tudo o que nos cerca nessa poderosa Esplanada, de bons salários, ares condicionados, cadeiras acolchoadas e com rodas, crachás que nos abrem portas, às pessoas com quem trabalhamos (sejam colegas de mesmo nível hierárquico, sejam subordinados, superiores, amigos ou inimigos), há, para a maioria de nós, eu diria, o componente da paixão pelo que fazemos, a nossa honra profissional, o nosso compromisso íntimo, pessoal, com aquilo que resulta do nosso trabalho.

Diante disso, e da forma absolutamente transparente com que esses “colegas” do STF fazem o seu difícil, árduo serviço, como é estranha a facilidade com que se diz que eles erram no que fazem! Como se lá estivessem não pela justiça, pelo valor que a ela deram, ao longo de suas vidas – e não teriam por que não continuar a dar, uma vez que se tornaram ministros do Supremo –, mas para fazer uma espécie de mise-en-scéne, com belas frases, citações, trejeitos, com a mera intenção de responder ao anseio x ou y, ao interesse a, b ou c, a eles externo.

Um dos argumentos que se traz à baila, para demonstrar o “erro” dessa turma (é o termo técnico que se usa, não é um depreciativo), é o de que deixam para o futuro da Justiça um perigoso legado: uma forma de julgar que leva em conta meros indícios e não provas. Diante disso, todos teríamos menos garantias caso viéssemos, eventualmente, a ter que nos deparar com essa senhora e com a sua espada. Bom, o que se tem a dizer, diante disso, além de tudo o que a maioria dos ministros que vimos na televisão, ouvimos no rádio e lemos nos jornais já disse quanto à falácia de que não há provas, quanto ao fato de que há uma lógica monolítica e inquebrantável unindo as declarações feitas pelo co-réu Roberto Jefferson e os atos dos principais acusados, consubstanciados nos autos, é algo que já foi dito, aproximadamente, por um deles, Luís Fux: o fato de que não temos que esperar para, algum dia, eventualmente, nos vermos diante da Justiça, por esse ou aquele possível motivo, pois nós já estamos, no mensalão, diante dela; como vítimas.

Sim, porque foi de cada um de nós que saiu o dinheiro que fluiu pelo valerioduto. Ou não? Queria-se que esses dez juízes, esses dez servidores públicos dessem um “tudo bem”, em nosso nome, para aqueles que nos roubaram? Em nome de que? De um passado nobre, um passado de lutas – que ninguém, de resto, nega? Se roubou, tem que pagar, não tem choro nem vela. Esse é o princípio maior, creio, no que tange a qualquer Justiça. E é o princípio que estamos tão cansados de ver ser contornado, bastando que se tenha dinheiro para pagar os advogados certos.

O STF está dando um sinal claro para todo tipo de bandido, inclusive aqueles que detêm muito poder, de que o tempo da impunidade acabou. Isso é algo que requer coragem, competência, esforço, sabedoria, maturidade e não pode deixar de ser comemorado. Por favor!

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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One Response to Mensalão

  1. Cléa Maranhão Gomes de Sá disse:

    Andrés, você escreve bem não só sobre cinema. Suas observações quanto a esse caso mostra isso: são lúcidas e pertinentes e não observo nelas nada além de uma observação consciente. O “mensalão” desperta em pessoas que normalmente são retas uma apaixonada visão, que acaba por se tornar turva. Gostei de ler o que você escreveu. Um abraço
    Cléa

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