Elefante Branco, de Pablo Trapero

O OPOSTO INTRÍNSECO

Elefante branco, do argentino Pablo Trapero é um filme que dá sequencia a uma série de filmes, por parte desse diretor, que dialogam muito diretamente, eu diria, com o melhor do cinema norte-americano das décadas de 1970 e 1980, ainda que se atendo ao universo restrito da realidade argentina. Mais especificamente, eu diria que dialogam com o cinema de Francis Ford Coppola. Dei-me conta disso neste seu último filme, que narra a luta de dois padres da Igreja Católica que, junto com uma assistente social e toda uma equipe de apoio auxiliar, trabalham para amenizar as mazelas vividas por uma comunidade favelada nos arredores de Buenos Aires.

Os filmes anteriores de Trapero, Leonera e Abutres, já haviam nos colocado no submundo, por assim dizer, portenho. O primeiro, ao nos catapultar, sem muita dó nem piedade e de modo expresso, para o universo prisional, junto com a protagonista, vivida pela musa e mulher de Trapero, Martina Gusmán, acusada de ter cometido um terrível assassinato. O segundo, nos trouxe o universo da máfia das indenizações de acidentes de carro num subúrbio de Buenos Aires, quando temos ao soberbo Ricardo Darín vivendo um advogado de “porta de atropelamento” a envolver-se amorosamente com uma paramédica vivida por Gusmán.

A delinquência é um mundo em que o ar se rarefaz; e os filmes, desde o lendário Acossado, de Godard, que nela penetram, tendem a ser sempre quentes, perturbadores, como se carregassem na sua receita uma forte pimenta. Se formos apelar para a história, veremos talvez que, como já disse Foucault, são elas, as diversas ilegalidades, mas em especial as pequenas, que movimentaram o mundo pré-moderno, tendo tido como resultado a instauração do Estado de Direito – fruto do incômodo sentido pelos novos proprietários e pelos juristas a eles adjacentes. O mundo moderno, por sua vez, as contém (haverá algum dia um mundo humano em que elas não existam?), mas obrigando-as a ser bem mais rápidas, mais selvagens inclusive.

Um “coletivo” de cineastas atuais que aborda o mundo da pequena delinquência contemporânea de forma recorrente e sublime – e, assim, aparentando-se com o cinema de Trapero – são os irmãos Dardenne (Jean-Pierre e Luc), da Bélgica. Seu antepenúltimo filme, A criança, de 2005, espantou-me, com suas cenas de genuína e intensa liberdade (mas também de total inconsequência), à época em que o vi – e em que estava matutando em profundidade a esse respeito. Não estranhamente, os irmãos Dardenne, tanto nesse A criança, quanto nos posteriores O silêncio de Lorna e O garoto da bicicleta, fazem uso de um mesmo ator, que é um dos dois padres deste filme de Trapero – o outro sendo Darín. Esse ator, belga também (“soy belga boludo” diz ele a um favelado que comenta, num churrasco paroquial, que vai-se comer um churrasco francês), é Jérémie Renier, espécie de marca d’água dos filmes dos Dardenne. (Não seria de se estranhar se o próximo filme desses diretores belgas venha a ter no seu elenco a argentina Martina Gusmán, numa sorte de tratado de reciprocidade cinematográfico).

Mas, como disse no início deste texto, para onde Elefante branco me remeteu de forma mais imediata, foi para o cinema de Coppola, em especial o desbundante (a palavra não é reconhecida pelo meu processador de texto) Apocalypse now.

Coppola é um cineasta que estou redescobrindo. Ganhei de aniversário, este ano, o DVD da trilogia de O poderoso chefão, uma saga que eu simplesmente, um pecado cinematográfico imperdoável, nunca tinha visto. Estou, atualmente, quase terminando o volume II, com Al Pacino tentando e não conseguindo de jeito nenhum “legalizar” as coisas. Já me dei conta, contudo, de que a coragem de Coppola foi infinita: dizer, mostrar a toda uma nação, puritana tal como são os EUA, que a sua coluna dorsal tem inscrita em si, ainda que ficticiamente, a assinatura de um colega de profissão e equivalente do nosso atual e ainda indecifrado Carlinhos Cachoeira.

Mas é o filme de 1979 sobre a Guerra do Vietnã, sobre a malfadada aventura americana naquelas belíssimas paragens, filme esse baseado, por sua vez, num romance de Joseph Conrad (O coração das trevas), que saltitou em mim por ocasião de Elefante branco. Apocalypse now, não é, certamente – ou diretamente – um filme sobre a delinquência. Ele trata de um soldado altamente brilhante, condecoradíssimo e de futuro promissor que, numa certa altura do conflito travado face ao inimigo comunista, diante do horror vivenciado, simplesmente decide parar de obedecer ordens. Esse é o Coronel Kurz, embrenhado nas selvas do Camboja, vivido por Marlon Brando, atrás de quem o exército americano envia um capitão, vivido por Martin Sheen, com a missão de mata-lo. Não é delinquência, mas é submundo, é o universo que está em paralelo e em mais direta e intrínseca oposição.

O Coronel Kurz é, por um lado, um sucedâneo do Príncipe de Maquiavel, que não hesita em fazer o mal quando isso é necessário. É alguém que se coloca para além da moral, em prol de uma outra razão, tendo em vista que aquela que vige simplesmente não resolve – pelo contrário, ela gera o horror. Mas, para aqueles que o tinham sob seu comando, o que lhe acontece é uma espécie de loucura, a ilusão de ter-se tornado um deus, desgarrado de tudo, criador de realidade. Há, em Apocalypse now, o tempo todo, uma dimensão teológica, que assusta e atormenta tanto o super letal e frio capitão assassino que sobe o rio ao encontro da “besta” quanto a nós, espectadores.

Pois bem, o que isso tem a ver com Elefante branco? Primeiro, creio que tem a ver com esse componente teológico evidente que é o conjunto de padres (além de Darín e Renier há mais um, de menor importância, para não falar do bispado) e a assistente social, que tentam encaixar o bem (ou pelo menos aquilo que eles pressentem a seu respeito) numa zona, extremamente explosiva,  de conflito entre gente pobre, quadrilhas de traficantes de drogas, drogados, governo inepto, empresas capitalistas e estrutura hierárquica de uma organização, (eclesiástica, no caso). Frequentemente, não se sabe mais onde está a fronteira entre o bem e o mal, trata-se de uma questão de encontrá-la – os sentimentos de amor e de ódio, de medo e de coragem se misturam, assim como o longo percurso do assassino de Kurz rumo a ele, é no fundo, um intenso trabalho de discernimento e decisão.

Mas junto com isso, eu diria que Elefante remete a Apocalypse, na capacidade adquirida de construção de uma geografia. Quando o padre Belga resolve penetrar o quartel general da quadrilha de traficantes A, para resgatar o corpo do rapaz da quadrilha B, temos uma longa sequência de cômodos os pelos quais ele se vê obrigado a passar, cômodos imundos, em que se trabalha freneticamente. Saindo daí, já com o corpo estirado em cima de um carrinho de mão, o padre percorre os becos enlameados da favela e o entrega à sua família. Tiros zunem pra lá e cá, a tensão não arrefece, a violência parece ser infinita, como um rio interminável num rincão de um continente longínquo (mas não muito). É uma geografia que se desenha, de um apocalipse, agora.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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