Alguém que se Apaixona, de Abbas Kiarostami

A NOSSA FRÁGIL CONDIÇÃO DE INTÉRPRETES

Abbas Kiarostami é um cineasta que, pelo que leio no IMDB (Internet Movie Database, a maior referência que conheço relativa ao mundo do cinema), cultiva marcas, uma delas sendo os óculos escuros, com os quais ele aparece invariavelmente. Isso, é claro, se estende aos seus filmes. O IMDB informa que cenas dentro ou em torno de carros são indícios de que o filme possa ser desse cineasta iraniano – ele, de fato, tem um filme, Dez, que transcorre todo dentro de um carro, com uma moderna iraniana ao volante, percorrendo as ruas de Teerã e conduzindo no banco de passageiros a dez personagens diferentes, com os quais dialoga enquanto os leva aos seus destinos.

Pois bem, ocorre que Kiarostami está com um filme novo, Alguém que se apaixona, título tirado de uma clássica canção do repertório jazzístico, “Like someone in love” (Burke/Van Heusen), imortalizada por Ella Fizgerald – e que eu vim a conhecer por meio da minha cantora favorita, Karrin Allyson. O filme se passa todo em Tokyo, é falado em japonês, uma boa parte transcorre dentro de carros e… é tão surpreendente quanto o seu último, Cópia fiel. Mais ainda: ele torna evidente duas outras marcas desse cineasta, desta vez marcas estilísticas,  recursos de linguagem, que nos indicam algo a mais do que o mero fato de que grande parte de nossas vidas transcorre no interior de veículos motorizados.

Vou começar pela surpresa, que é o ingrediente principal de Cópia fiel. Esse filme genial gira em torno de um casal, cujo encontro se dá aparentemente ao acaso (mas isso, se é acaso ou não, de fato, não tem importância). Esse encontro é o que deslancha o filme, o que justifica que uma câmera seja posta em funcionamento, para que nós, espectadores, iniciemos a nossa “participação”. Achamos, inicialmente, que o encontro é mesmo fortuito, mas vamos, aos poucos, descobrindo que o casal já se conhecia. E não só isso: que eles de fato eram marido e mulher, um casal em crise.

Para quem não viu esse filme, reconheço que posso estar sendo um estraga-prazeres, contando, afinal, o seu desfecho, o seu grande segredo. Mas, creio que o estrago provocado pode não vir a ser tão grande se levarmos em conta que Cópia fiel ativa em nós, quando o assistimos, um filme em paralelo, aquele que a nossa imaginação vai criando a partir dos “dados” parciais que nos vão sendo fornecidos. A surpresa é uma só, mas os filmes que vemos, são inúmeros, conforme os nossos anseios, expectativas, projeções. A vida em si, não transcorre dessa forma, não é um mistério que vamos desvendando à medida em que seguimos vivos? O cinema de Kiarostami, creio, tenta retratar precisamente isso: a fragilidade das interpretações que damos àquilo que se passa conosco, o nosso irrestrito e resoluto não-saber, o fato de que cada esquina nos espera com o novo.

Se, como espectadores, quando nos é dado o espaço (como é o caso nos filmes desse cineasta), projetamos, o que não dizer dos personagens que aparecem na tela? É claro, eles também projetam, ao mesmo tempo em que aparecem para nós. E é bem isso o que se dá em Alguém que se apaixona.

O filme começa com uma conversa ao telefone, a qual ouvimos. Mas o que vemos não corresponde ao que ouvimos: a câmera está, nesse instante, voltada para uma cena que acontece diretamente ao lado, em relação à conversa que estamos ouvindo. Num determinado momento, a moça que estamos vendo passa a interagir com a “cena” que estamos ouvindo; e é somente aí, quando som e imagem finalmente se juntam (depois de um longo tempo, em que ficamos numa espécie de “segundo escuro”), que começamos a nossa trajetória regular de espectadores – o nosso passeio suave e familiar, com Kiarostami ao volante.

Contudo, a voz do início, aquela do outro lado da linha e que permanece como um fantasma até que o seu dono, somente lá na frente, no filme, efetivamente “apareça” diante de nós, bom, essa voz é uma voz que, para a outra interlocutora da conversa inicial, a protagonista que passamos a acompanhar, se traduz o tempo todo num fantasma, alguém com quem ela vive uma relação atormentada. Uma identificação é criada entre nós e essa personagem, por meio desse recurso de linguagem, e passamos a “grudar” na pele dessa jovem, que acaba por encontrar uma sorte de anjo, numa dessas encruzilhadas da vida.

Esse anjo é um professor de sociologia, um homem mais velho, que julga saber (algo a) mais sobre os mistérios da vida. Não vou ir além. A cada um, seu percurso pelas ruas de Tokyo. Só o que chamo a atenção é para o fato de que, assim como Kiarostami tem um filme que se passa inteiramente dentro de um carro, ele também tem um, Shirin, assim leio na sua sinopse no IMDB, que transcorre inteiro ao longo de uma peça de teatro que está sendo encenada. Mas só que não se vê, em momento algum, aquilo que se passa no palco; somente aquilo que se passa no semblante das pessoas que estão na plateia…

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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2 Responses to Alguém que se Apaixona, de Abbas Kiarostami

  1. clea maranhao gomes de sa disse:

    Só agora vi o filme. Interessante, embora tenha me trazido um pouco de angústia. Identificação com o homem velho? Não há desejo, só acontecimentos. É isso? Afinal, Andrés, o que acontece no final? Ou não mesmo para saber? Precisamos falar sobre o filme. Mas sua análise, como sempre, é muito boa. Aquele começo, a falta de compasso entre o que se vê e o que se ouve, é muito bom. Até!

  2. Cleíta, obrigado pelo seu comentário e pela expressão de suas dúvidas. Nada sei quanto ao final, mas creio que você levanta um ponto importante na sua pergunta sobre o desejo. Eu chamei o professor aposentado de “anjo’, mas creio que isso não diz tudo. É bem evidente, pra mim, que ele se apaixona pela moça; se não, qual seria o sentido do título do filme ser o que é? Na música homônima, tem um trecho que, traduzido, diz “eu vivo trombando nas coisas, como alguém que se apaixona”. Esse alguém é ele, é claro.

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