A Viagem, de Andy e Lana Wachowski e Tom Tykwer

NÃO ME VENHAM COM JINGLES FILOSÓFICOS

Já fazem quase quinze anos desde que o mundo do cinema sofreu o impacto de Matrix, o primeiro filme da trilogia homônima dos irmãos Wachowski. E não só o mundo do cinema, mas o mundo filosófico também: a partir dele, muita gente especulou, retornou à seminal Caverna, sociologou; rodopiou-se bastante em torno de temas como o desvelamento, a coragem, a liberdade e como tudo isso se conecta com a humanidade – em particular, gosto muito de como Jorge Forbes puxou a trilogia pra brasa da psicanálise lacaniana, em Você quer o que deseja?, focando na questão central da decisão, neste caso relativa ao saber: até que ponto se está disposto a pagar, como Neo ao optar pela pílula azul (ou vermelha?), o (alto) preço por saber como são (ou podem ser) as coisas?

Eu, cá do meu devir, lembro-me que fui ver esse filme, à época em que Matrix estava em cartaz, meio como quem não tinha muito o que fazer na vida, esperando que fosse mais uma bobagem, como tantas que vem de Hollywood. E me surpreendi, achei engenhoso. Quando vieram os dois outros componentes da trilogia, passei a achar genial, principalmente porque percebi que se tratava mesmo de uma trilogia, concebida desde o início como tal – e não uma esticada, algo tão frequente quando ocorre de um filme fazer sucesso nas bilheterias.

É claro, acho que não se deve levar nada na trilogia Matrix muito ao pé da letra, enveredar com facilidade por filosofias quaisquer que remetam a uma atualização de algo arcaico ou mesmo arquetípico, algo que já estava dito em algum canto, seja relativo ao nosso modo de vermos a realidade, seja na forma como nos relacionamos com o que fabricamos. Creio que Matrix veio pra dizer algo novo e libertador, algo talvez que nunca poderia ter sido dito por meio de palavras, porque as palavras sempre correm o risco de nos enredar. Se alguma filosofia há, nela, trata-se de uma filosofia bem atual, talvez essa que Foucault estava em vias de promover quando faleceu e que visava entender o nosso anseio pela verdade, a nossa fissura em relação a ela, tantas vezes a ser traduzida numa só coisa: a dominação.

Pois bem, os Wachowski, em seguida, vieram com dois produtos que, de certa forma, me decepcionaram. O primeiro foi o roteiro de V de vingança, um filme que, francamente, não suportei ver até o final. O segundo, foi a direção em si de Speed Racer, de 2008. Talvez tenha que rever um e outro, talvez tenham sido uma mera reunião de forças para este novo A viagem, feito em parceria com Tom Tykwer – outro cineasta deveras surpreendente –, um filme que reputo à altura da trilogia de que sou tão fã.

Acho que a questão central de A viagem diz respeito à quebra das convenções. Há uma cena – e eu nunca vi um filme com tantas cenas, a tal ponto que nos obriga, a certa altura, a relaxar (e gozar), pois, caso contrário, a aparente falta de conexão entre uma e a seguinte, pode nos, digamos, enervar – em que isso é posto textualmente, ao mesmo tempo em que visualmente (e magistralmente), meio que nos apontando o sentido de tudo o que vemos: é porque somos transgressores, porque somos dados a fugir do script – bem como a ser generosos, solidários – que somos o que somos, humanos. No momento em que isso brota no filme, em que esse simples postulado se enuncia, o conjunto do que está à sua volta, esse conjunto de cenas dissonantes entre si, torna-se legião; e uma explosão ocorre nas nossas cabeças, tal como ocorre, sonoramente, no Bolero de Ravel.

Se Matrix, a trilogia, teve como um de seus elementos a me captar o fato de ter sido concebido em três partes desde o início, um elemento “externo” à trama propriamente dita, A viagem também vem acompanhada de algo “acessório” a lhe conferir inteireza. A certa altura do filme, alguém (não me lembro qual dos inúmeros personagens) menciona a palavra “liberdade” dizendo ser ela um simpático jingle, ou seja, algo muito fácil de ser dito e defendido, mas semi-impossível de ser posto em prática. Alguém poderia dizer isso a respeito do próprio filme e, por que não, do cinema dos irmãos Wachowski, em que tudo gira em torno a esse assunto. Mas eis que ficamos sabendo, há já um certo tempo, que um dos irmãos dessa dupla se tornou uma irmã! Sim, aquele que era Larry se tornou, faticamente, Lana Wachowski, diretora de A viagem!

Não tem, a meu ver, como esse dado extrínseco ser descartado da exegese desse filme. Eu diria, junto com todos os bons manuais de história da arte, que é sempre sofrível ler uma obra pelo viés da biografia do seu autor; mas defendo que, neste caso, essa regra deva ser transgredida. Sim, porque o cinema é bem uma arte que se presta para a ilusão; boa parte do que se faz em Hollywood consiste nisso, os instrumentos estão lá disponíveis para que se possa falar, com facilidade, de qualquer coisa, de forma mais ou menos convincente. Mas e quando aquilo que se prega é vivido na própria pele, quando é algo tão forte a ponto de significar uma radical alteração de identidade por parte do autor, caberia um não reconhecimento disso?

À inteireza entre vida e obra poderíamos dar um nome: espiritualidade – algo de que falava Foucault nos seus últimos anos. Eu creio que ela está bem presente no trabalho dos Wachowski; e algo que me confirma isso é a parceria que fizeram, agora, com o alemão Tykwer.

Eis aí um diretor que eu já tinha em alta conta desde o seu Paraíso, filme que gira em torno de um casal que se conhece numa situação das mais estranhas, ela sendo acusada pela justiça de cumplicidade com um atentado perpetrado pelo marido, a quem amava e que morreu, e ele sendo um agente encarregado pela sua custódia. Ambos fogem, dando materialidade a um roteiro da lavra de ninguém menos do que Krystof Kieslowski e estabelecendo entre si um entendimento muito pouco atualizado por palavras. (Faz lembrar o encontro entre o escravo negro e o genro de um terratenente sulista, numa das situações retratadas em A viagem).

Mas, quando o assunto é autenticidade (uma outra palavra que se aproxima da espiritualidade, creio eu), acho difícil haver um filme que bata ao imediatamente anterior de Tykwer, Triângulo amoroso, de 2010. Esse é um filme deveras belo, que não tem medo de colocar em causa uma situação em que o crime (outra palavra para a transgressão das convenções), a traição, inclusive homossexual por parte do marido, passa a ser o que permite que um casal sexualmente empacado volte a se encontrar enquanto parceiros sexuais. Tudo aí é muito verdadeiro, desde o incômodo inicial (seu reconhecimento) à paulatina incorporação de um terceiro elemento num tipo de relação que se programou, há séculos e vá lá saber por quem, para acontecer entre somente dois.

Não sei, creio que se fosse para estabelecer um patrono filosófico para A viagem – e, de resto, para a obra dos(as) Wachowski e, talvez, de Tykwer– esse estaria longe de tudo o que se aventou até o presente, indo de Platão a Pierre Lévy ou o que seja. Eu jogaria minhas fichas todas em Georges Bataille.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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