NYC (Parte I)

O INVERSO DA CONCRETOFAGIA

Recentemente, tive a honra de constar, enquanto fotógrafo (e em meio a outros quatro artistas), do trabalho de final de curso de uma jovem fotojornalista, Mariana Costa, que abordou o tema dos novos olhares sobre Brasília. Ela partiu da exposição que realizei em 2012 no TJDFT (Tribunal de Justiça do DF) , à qual dei o título de “Concretofagia – os eixos ao sabor do desejo” (http://www.flickr.com/photos/andresribarra/sets/72157629482988540/). Mariana me entrevistou para esse trabalho, fez uma análise daquilo que tenho feito nessa área ao longo dos últimos onze anos, eu fui na sua defesa de monografia, ouvi seus argumentos, os argumentos da sua banca, da sua orientadora, uma experiência muito gratificante, em suma.

O debate foi rico, Mariana foi questionada de forma muito franca (a única que considero válida) a respeito do uso que fez (eu, pra dizer a verdade, não li seu trabalho, já que ainda não tive acesso a ele) das noções de “verdade” e de “novo”; e soube se defender, a meu ver, mostrando que seu trabalho procurava evidenciar que um novo “regime de verdade” talvez esteja em vigor no que diz respeito à iconografia sobre a cidade – isso tudo sobre o pressuposto de que a fotografia, por mais arte que seja ou se proponha a ser, nunca se desvencilha por completo da marca do documental. Também teve que se explicar quanto à afirmação – da qual me senti quase inteiramente responsável, já que seguramente devo ter dito isso na entrevista – de que Brasília é uma cidade “feita para carros”. Essa afirmação, está de tal forma atrelada à proposta de “Concretofagia…”, que a sua contra-arguição, eu praticamente a senti como uma rejeição do meu trabalho: se a ideia foi a de mostrar que uma street photography  é ainda possível numa cidade onde não há ruas e sim “vias”, “setores”, “conjuntos” e “quadras” (mas há, ainda, pessoas e o seu desejo), vem a reboque, naturalmente, a pergunta sobre para quem exatamente foi feita essa cidade – e os carros não são lá um resposta tão ruim assim[1].

Essas questões todas, por sua vez, foram as que me acompanharam na recente visita que fiz à cidade de Nova York. Sim, havia a desculpa de conhecer a cidade de Ithaca, a cinco horas da Big Apple, onde vive a minha irmã – e onde passei um fim de semana –, um velho desejo até então irrealizado. Mas, também, a necessidade de pisar num solo não tão ruinoso, de testar o inverso da proposta de “Concretofagia…”, agora tornada – para a minha alegria e graças ao trabalho de Mariana – explícita: a possibilidade de uma street photography, nos dias de hoje, numa cidade, talvez a cidade por excelência, das streets.

Tudo começa, é claro, pelas grandes estruturas, por um lento ajuste da câmera, esse objeto que necessita ser erguido, ao olho, esse órgão cuja função pode nos levar a questões tão inesperadas como as postas acima. Por um gradual afastamento dos traços e temas que, respectivamente, a luz e a história incrustam na alma, na medida em que com eles nos deparamos cotidianamente.

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PS.: os outros artistas que constam do trabalho de Mariana Costa são Ivaldo Cavalcante, Leonardo Wen, Usha Velasco e Wagner Hermusche.


[1] É evidente que essa é só a casca da questão. No fundo, o debate seria em torno do sucesso ou do fracasso da ideia em si que está por trás de Brasília, do cumprimento ou não da sua promessa modernizante. Eu não tenho pruridos em me filiar à segunda opção, o que não me torna, de imediato,  um derrotista. Faço minha a análise daquele que considero um dos mais lúcidos e talentosos críticos de arte em atividade, Lorenzo Mammì, para quem esta cidade deve ser encarada como “nossa ruína, tão essencial para nós quanto as ruínas astecas são para os mexicanos” (diz isso no ensaio “A construcão da sombra”, a propósito da obra de Marcel Gautherot , contido na recém lançada coletânea de textos intitulada O que resta – arte e crítica de arte); o que não é nenhum desalento, já que (como ele mesmo diz, num outro ensaio dessa mesma coletânea, a respeito da experiência do modernismo na arte contemporânea brasileira) “a falha fundamental do modernismo brasileiro se tornou força, no momento em que se tornou história. Não houve no Brasil nenhuma ruptura radical, como a que se deu nos Estados Unidos, entre o expressionismo abstrato e o minimalismo. Por ser desde o começo mais simbólica do que funcional, a linguagem moderna brasileira serviu mal à ideia de progresso; mas pela mesma razão, não precisou ser abandonada junto com essa ideia. Brasília é paradigma de tudo isso: um grande corpo branco, encalhado no meio do Planalto Central, cujas funções estão enfraquecidas, e cujas articulações internas vão perdendo progressivamente sentido. Um casco que, pela própria imobilidade, vai se recobrindo de incrustações míticas, barrocas. E, no entanto, algo cuja potência imaginativa é inegável, e continua fecundando todo o nosso pensamento estético. Talvez toda história comece por um grande fracasso, um fracasso que valha a pena. Nesse sentido, Brasília deu ao Brasil uma história, porque deu ao Brasil uma ruína.”

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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