Somos Tão Jovens, de Antônio Carlos da Fontoura

UM PASSO GIGANTESCO E LIMÍTROFE

Acabo de ver o filme Somos tão jovens, de Antônio Carlos da Fontoura, que conta, numa abordagem ficcional, uma parte da trajetória do cantor e compositor brasiliense Renato Russo, tal qual narrada pelas pessoas que lhe foram mais próximas. Trata-se de um must para todos os que, como eu, tiveram algum envolvimento com a cidade em que o que se vê na tela ocorreu: a Brasília anos ’80, quando inúmeras bandas de rock despontaram, fazendo um barulho apocalíptico e necessário, entre os espaços vazios – que assim continuam, só que um pouco mais cheios de gente e, principalmente, de carros –, e a ditadura militar – que estava nos seus estertores.

Tenho a notícia de que um livro foi lançado contando a mesma história, não sei se agora, simultaneamente ao filme; e tampouco saberia dizer se esse livro serviu de inspiração a Fontoura, ou se ocorreu o contrário – tendo o livro embarcado na ideia do cineasta. O que sei, com certeza, é que o que se vê ao longo de Somos tão jovens é o resultado da aproximação de maior alcance que jamais foi feita, e que provavelmente jamais virá a ser, ao coração desse fenômeno que foi Renato Russo e o universo que o cercou.

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Sou amigo de Carmen Manfredini, irmã de Renato, e de alguns dos outros personagens que também aparecem no filme e já conhecia muitas das histórias que nele são narradas: sei que foram colhidas junto a quem as viveu, que as frases que são ditas correspondem ao que realmente aconteceu – sempre freudianamente levando em conta, é claro, que toda reconstrução do passado é, na verdade, uma construção. Tendo conhecido pessoalmente esse artista, eu mesmo teria algo, ainda que mínimo, a acrescentar a esse rol, uma ou duas histórias que evidentemente não se distanciam do retrato, vivo, sincero e fiel – e bota fiel nisso, pois o ator que vive o papel de Renato, Thiago Mendonça, está simplesmente idêntico ao original, trejeitos e tudo – que foi feito nessa película.

Mas creio que esse filme merece ser visto por todo tipo de pessoa. Creio que os mais velhos têm que vê-lo, assim como os mais jovens. Por que motivo? Para mostrar aos mais novos uma Brasília pretérita em que os jovens, sem muitas perguntas, tomavam emprestado dos blocos onde moravam a energia elétrica na qual ligavam seus instrumentos e faziam shows bem no meio das superquadras? Para selar, pros mais velhos, com o selo da história, com “h” maiúsculo, aquilo que já lhes pareceu ser, quando ocorreu, apenas uma barulheira insuportável? Talvez.

Mas não. Somos tão jovens me parece ser uma reflexão sobre o que acontece quando se reúnem certas condições. Tem um quê de aula de química, quando nos são apresentados todos aqueles elementos e nos é mostrado que certas misturas desses provocam certas reações. No caso, de que elementos estaríamos falando? E qual a reação gerada? Comecemos pela última, exposta sucintamente no final do filme: milhões de cópias de discos vendidas ao longo do tempo.

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E os elementos? Bem, em primeiro lugar um poeta de verdade, um ser cuja sensibilidade se casou de forma feliz com o universo da palavra; e cuja coragem  e inteligência o levaram a procurar os instrumentos com os quais dar vazão, cust(ass)e o que custar, ao que resulta desse encontro. Em segundo lugar, uma família que, com tudo o que de tortuoso sempre irrompe nesse universo, deu apoio a esse ser estranho, disposto a ser músico de rock, quando o que se sonhava era que fosse diplomata e escutasse Bach. Em terceiro, os amigos, seres cuja procura não se distanciava da dele, uns ajudando aos outros nos desencontros em série que são a vida dos filhos de diplomatas, militares e burocratas de alto escalão, ninguém tendo muito bem “aonde ir”, depois de já ter ido a quase todos os lugares. Em quarto, um gênero musical, o punk rock, que aprofundava, levando-a à extrema concentração minimalista, a energia nascida com o rockn’roll. Por último, é claro, a ditadura e seus absurdos, mas já afrouxando a corda com que asfixiou a sociedade durante tanto tempo – 21 anos como nos lembra um outro filme em cartaz.

Há pouco tempo foi feito, pelo mestre do documentário Vladimir Carvalho, um filme que aborda o fenômeno do rock de Brasília dos anos ’80, intitulado Rock BrasíliaEra de Ouro. A maioria dos personagens que aparecem no filme de Fontoura, nesse outro, são entrevistados na atualidade e rememoram e reinterpretam, à sua maneira, os fatos acontecidos. É um belo filme, em que pinceladas panorâmicas do turbilhão ocorrido, nos anos ’80, no laboratório social em que vivemos aqui no Planalto Central, são oferecidas, em que uma aproximação ocorre. Agora, com essa abordagem ficcional dessa mesma realidade “documental”, temos, mais do que um panorama, uma gostosa e integral reprodução dessa experiência química passada; uma reprodução que, como toda experiência que se preze, não está livre de nos chamuscar.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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4 Responses to Somos Tão Jovens, de Antônio Carlos da Fontoura

  1. ricardo disse:

    Andrés! cara! muito agradecido a você por este post! assisti a esse filme semana passada com o João, meu filho, e foi uma experiência muito massa! e você me ajudou a entender/mostrar/falar/dizer/comunicar isso pra fora da minha cabeça, movimentou meu coração, e deixou esse dia feliz imediatamente. valeu, mmmmmi queriiiiiiiiiiiiido!

  2. Tina disse:

    Adorei a seguinte elaboração:

    “Em terceiro, os amigos, seres cuja procura não se distanciava da dele, uns ajudando aos outros nos desencontros em série que são a vida dos filhos de diplomatas, militares e burocratas de alto escalão, ninguém tendo muito bem “aonde ir”, depois de já ter ido a quase todos os lugares.”

    Tive amigos estrangeiros, que passaram por Brasília, que adoraria rever e nunca mais encontrei…e também brasileiros que estavam sempre de passagem.

    Mas a diplomacia também nos ofereceu a programação cultural das embaixadas. Muitos filmes estrangeiros bacanas. Na embaixada da França e da Alemanha, por exemplo, vimos muita coisa boa…

    Foi uma época interessante, em que Brasília era provinciana e cosmopolita ao mesmo tempo. Muita polícia na rua. Sensação de espaço e sufocamento…

    Quero ver o filme.

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