Belém – Parte II (final)

A REBOQUE DE NOSSA SENHORA

O Círio finalmente chegou e eu estava razoavelmente preparado para ele. Havia estudado o seu percurso na muito útil publicação sobre Belém do Guia Quatro Rodas, bem como ouvido muitos relatos sobre o que esperar. Emoção, acima de tudo; e uma imagem da santa que, denominada Peregrina (porque a imagem original não sai da Basílica, a não ser para uma breve aparição  na praça que fica logo em frente), iria, a partir da sexta-feira, percorrer bons quilômetros, seja de carro, seja de navio, seja, finalmente, a pé, nos braços dos devotos.

Providenciei ingressos para alguns pontos que julguei estratégicos. No navio que iria até Icoaraci, no sábado de manhã, para buscar a santa, entrei relativamente cedo e consegui garantir um bom lugar, somente até que, o navio repleto e quase prestes a zarpar, chega uma senhora que, a cargo de um senhor idoso e com dificuldades de locomoção e articulação verbal, me pede para lhe ceder o lugar. O senhor era um devoto fiel, estava na cara, e eu não tive como negar. Talvez tenha sido esse o único momento de estresse nos oito dias que passei em Belém, mas ele logo foi contornado quando a família que estava ao lado concordou em se espremer um pouco para que eu pudesse de novo me firmar na borda lateral da embarcação.

À noite, na chamada Trasladação da santa, também uma família me acudiu, mas desta vez numa situação em que se tratava de entender um pouco melhor o que estava à minha frente. Avó (uma senhora de 94 anos), filha e neta tomaram assento logo abaixo de mim, na concorrida arquibancada no final da Av. Getúlio Vargas, e a mais jovem delas, uma professora universitária da área de enfermagem, também fiel devota, narrou, com orgulho, o passo-a-passo, seus olhos (e os das suas duas acompanhantes) tão ou mais atentos quanto os meus a tudo, apesar das inúmeras vezes em que havia visto a mesma evolução. A torcida, muito parecida com a de um jogo de futebol, era para que tudo saísse conforme o esperado, sem tumultos ou incidentes que pudessem comprometer a passagem.

A bonita enfermeira me explicou que a universidade onde trabalha havia treinado cerca de 5 mil dos seus alunos  para a ocasião. Eram eles que a cada instante zuniam pra lá e pra cá, carregando em macas pessoas que haviam passado mal. No dia seguinte, domingo, por ocasião da procissão do  Círio em si, quando a imagem da santa é conduzida no trajeto inverso ao da noite anterior, e já no nível da rua, eu mesmo pude sentir a sensação de ser espremido pela multidão. Por sorte, foram somente alguns segundos.

A festa toda ocorreu em paz. Assim como os estudantes socorristas, havia todo um contingente de gente dedicada a auxiliar os promesseiros no seu trajeto. Uma parte desse, inclusive, havia feito promessa, justamente, de realizar tal função, e muitos chegavam com caixas e mais caixas de copos de água mineral, que ofereciam aos que estavam envolvidos diretamente com a corda (que simbolicamente puxa o carro onde está a santa e que teria, segundo reza a lenda, num determinado momento e a certa altura do trajeto, ficado atolado). A água desses copos também era despejada em cima de todos, aliviando o sufoco do calor e se misturando ao suor coletivo.

Alguma interferência do poder público nisso tudo? Não a notei. Eis o que mais surpreende, talvez. “Pra tudo há um jeito”, foi o que me disse o chefe de família que me cedeu parte do posto de observação que eu havia perdido no barco, como que a me tirar de um atoleiro fotográfico e pessoal.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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4 Responses to Belém – Parte II (final)

  1. Verônica disse:

    Que belas fotos, captei o espírito da coisa por meio de seu olhar… O que mais me chamou a atenção foi a história de ceder o lugar. Por tratar-se de uma festa de fé, em devoção à Mãe Divina Nossa Senhora, foi o único contato narrado com a energia que promove as virtudes que a fé divina desperta. A espiritualidade também é regida por leis naturais, curiosa e exaustivamente repetidas por mestres e sábios de várias tradições: dar para receber; não se impressionar com a aparência das coisas, pois nem tudo é o que parece ser; viver o momento com plena atenção. Toda essa concentração de energia em torno da fé e da devoção, irradia-se até mesmo para quem acha que está lá só fotografando e é colocado na posição de abrir mão do “controle” e do “conforto”, para descobrir, logo em seguida, que “para tudo dá-se um jeito” quando a alma não é pequena …
    Bjs,
    V.

  2. Dalva disse:

    Andrés, parabéns pelas e fotos e texto ! Já pensava em conhecer esta grande festa dos paraenses, e agora, depois de ler o seu relato e ver suas fotos aumentou minha vontade . Tb estive no Pará recentemente, em agosto, para conhecer mais um pedacinho desse imenso Brasil. Fiquei encantada com tudo que vi em Carajás, Belém, Ilha do Marajó, Alter do Chão, e apaixonada pelo Rio Tapajós ! Voltei dizendo até breve, pois ficou a certeza de que quero voltar. Voltarei para a Festa do Círio ! Abraços

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