Sangue de Boi, performance por José Eduardo Garcia de Moraes

BRASÍLIA TAMBÉM TEM SEU “BLOCK”, SÓ QUE “RED”

O Museu Nacional do Conjunto Cultural da República, essa meia esfera de cujas entrâncias saem dois anéis como os de saturno e uma rampa como só os discos voadores ostentam, criação de Niemeyer que hoje está sendo cobiçada, para desgosto da classe artística local, por interesses federais, já havia recebido, que eu saiba, ao menos uma performance de José Eduardo Garcia de Moraes. Foi há cerca de um ano, ano e meio atrás, por ocasião de outra mostra coletiva da arte feita na cidade. José Eduardo, a certa altura da abertura do evento, chegou com um conjunto de melancias, que cuidou de posicionar, com todo o cuidado, na cúspide da rampa, como se fizessem parte de um arsenal de balas gigantes que iriam funcionar na defesa do “castelo”, então sob sítio de não se sabe quem. Só que, uma vez enfileiradas, em vez de catapultá-las para longe, ou coisa parecida, esse artista simplesmente as fez, uma a uma, rolar rampa abaixo, para a estupefação daqueles que ainda chegavam à vernissage – e que tiveram que acionar um súbito gingado de quadris e pernas para não serem atingidos por uma dessas (lentas) frutas. Os vendedores de água de côco ou pipoca, posicionados bem no final do percurso das melancias em descenso, fizeram a festa, abocanhando-as e lhes dando um destino final.

Desta vez o aviso dizia que tudo ocorreria no semáforo mais próximo do museu, supostamente aquele que cuida do entroncamento do Eixo Monumental com a L-2 Sul, próximo à Catedral de Brasília, essa outra sublime criação de Niemeyer. E foi lá mesmo que, uma hora depois do previsto, já noite plena – e com uma grande expectativa do público ciente, que começava a se deslocar do interior da nave para essas coordenadas extramuros – o artista desembarcou no seu Citroën, subindo em cima da calçada, e começou a tirar, de dentro dele, seu novo conjunto de “objetos”: dezesseis garrafões do vinho tinto Sangue de Boi, embalados em plástico bolha. Depois dos abraços em alguns presentes começou a  desembalar os garrafões e, uma vez terminado, vestiu um paletó escuro e rumou, com uma bandeja prateada em mãos, para o centro da grande pista do Eixo Monumental. Era o início de tudo.

Tal qual quando se fixa num campo de futebol o ponto de onde se chuta o pênalti, a bandeja foi deixada na pista; o sinal abriu, os carros avançaram e, a essa altura, José Eduardo já estava na calçada, pegando o primeiro dos garrafões, cujo conteúdo, em seguida e assim que conseguiu de novo atingir o ponto em que estava a bandeja-agora-alvo, ele começou a despejar em cima do objeto prateado. A situação estava desenhada, os corações de todos, agora, partindo da doce familiaridade proporcionada por tudo o que tinha se apresentado até aquele momento, disparavam ao perceber que o artista, face ao forte fluxo de veículos (era o final de uma sexta-feira), tomava um cuidado mínimo; e que, quando chegava na marca que havia deixado, simplesmente erguia o garrafão e se importava somente de que o que dele jorrava atingisse a bandeja. Nenhum anteparo entre ele e os carros, a não ser o olhar assustado do público, a partir da calçada, que todo motorista atento (mas também só esses) é obrigado a perceber.

Essa é a arte de José Eduardo Garcia de Moraes, já comentada por mim em outro post – e da qual sou inteiro admirador. Cada performance sua consegue, parece-me, no breve lapso em que acontece, reunir o universo, juntando os seus mais díspares, mas totalmente representativos, elementos: sempre conjuntos mínimos, mas que, uma vez postos em contato, atravessam distâncias por demais extensas na cabeça de quem as assiste. Uma espátula, também prateada, era o quinto e último elemento – além da bandeja, dos garrafões, do líquido que deles jorrou e do tráfego de veículos – e ela certamente era um par para a fina bandeja, ambas indicando um serviço, algo tão comezinho, nesta corte que é Brasília, quanto os pratos importados e as garrafas de água Perrier que já fizeram parte de uma belíssima instalação sua, que teve lamentável fim na Câmara Legislativa do DF. Só que aquilo que estava sendo servido, em derrame, era vinho, não por acaso, em função de sua cor, equiparado ao sangue de um animal (mas também nós temos o sangue dessa cor).

Os carros, ônibus e, a certa altura, também as bicicletas a avançar perigosamente, parece-me que não eram o mero indício – inclusive explicado, pelos fotógrafos que lá estávamos, aos agentes do Detran que lá chegaram, incrédulos, por volta do oitavo ou décimo garrafão, limitando-se educadamente a formar uma barreira com a viatura em que estavam – de que a verdadeira arte tem sempre um componente de risco. Eles eram os elementos perfeitos para situar o que se via num presente, numa atualidade, configurando um contundente acréscimo – e está claro que não de uma maneira imediatista ou óbvia – a tudo o que aqui, nestas paragens, faz jorrar “rios” de “sangue”.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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2 Responses to Sangue de Boi, performance por José Eduardo Garcia de Moraes

  1. alfonso disse:

    Andrés: Excelente! Parabéns pelo comentário e pela fotografia!

  2. clea disse:

    Andrés,
    você me faz lastimar não ter visto a performance do artista,.Que na verdade não conhecia. Mas suas descrição mostra com arte a arte que perdemos. Parabéns pela matéria e pelas fotos. maravilhoso!

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