Jovem e Bela, de François Ozon

ABANDONANDO O QUE NÃO EXISTE

François Ozon ataca novamente, com sua máquina de ruídos. Sim, esse que é, na atualidade, talvez o meu cineasta predileto, está de volta, com Jovem e bela, mantendo o alto ritmo de produção e causando estragos por onde passa. Há alguns meses atrás, inscrevi um ensaio que fiz sobre o cinema desse jovem cineasta francês no concurso de uma revista de cultura. Esse ensaio não foi selecionado, e eis agora a oportunidade de lança-lo a público, para aqueles que tiverem interesse maior no assunto: a transgressão enfim viável. O ensaísmo é deveras algo que exige um querer a mais, tanto por parte do leitor, quanto do escritor. No caso deste último, um tempo de maturação para os insights, o envolvente trato com hipóteses, a dispendiosa checagem dessas, quase uma filosofia e, em suma, um exercício bem diferente desta atividade a que me dedico, já vai para quatro anos, neste blog, e que consiste muito mais em instigar meus leitores a verem (ou não) os filmes que aqui comento.

Jovem e bela dá continuidade ao que considero ser a temática chave do cinema de Ozon: o gozo. No ensaio a que me refiro acima, aponto para o fato de que um cineasta que teve forte influência sobre Ozon, Fassbinder, foi também um cineasta do gozo, os filmes de ambos sendo carregados por uma energia erótica evidente. Só que o gozo fassbinderiano permaneceu circunscrito a uma lógica do todo – fálica, no linguajar psicanalítico – ao passo que o gozo dos filmes de Ozon é um que se rege por uma lógica que excede à necessidade do completo – daí que, por exemplo, o tema do matrimônio, neste último, seja, ao contrário de no primeiro (quando aparece quase como um obstáculo a ser permanentemente, mas nunca efetivamente, transposto), uma impossibilidade assumidamente real. Como diria Lacan: não existe relação sexual.

Mas, trazendo isso para o chão desse novo filme, temos o caso de uma jovem, bela e “estranha” adolescente de classe média abastada que, após experimentar o sexo, resolve adentrar o mundo da prostituição, passando a vender o seu corpo na cidade onde mora com os pais, Paris. O que é que ela procura? O dinheiro? Nada disso: ele se acumula numa pequena bolsa que ela esconde entre as roupas do seu guarda-roupas. O prazer sexual? Certo, mas, o que exatamente vem a ser isso? É isso o que nos induz a perguntar a sua quase indiferença ao se deitar com seus clientes (e inclusive com seu primeiro homem). Na verdade, o seu prazer parece residir na confluência dessas duas coisas acima, dinheiro e sexo.

O problema passa a ser que esse gozo é algo que a sociedade não aceita, de jeito nenhum – na voz, outrora tropicalista e, agora, de diva, de Gal Costa, por exemplo, em recente disco com músicas e produção de Caetano Veloso, ouvimos que essas duas coisas, sendo “formas de libertação”, não deveriam jamais se encontrar. Isso é uma tremenda fonte de eventual (pois eis que se trata de uma jovem, que ainda tem todo um futuro pela frente) infelicidade; algo que talvez nos jogaria de volta ao mundo trágico de Fassbinder. Mas eis que o acaso –  ah! esse cúmplice do gozo – entra na jogada. Não na forma de amor (e o que é o amor?), mas – para não revelar a trama – diria que através de um amor compartilhado.

Jovem e bela me fez lembrar um romance belíssimo que li há pouco, junto com o grupo de amigos que fazem parte de um intrépido e delicioso clube de leitura do qual participo: O filho de mil homens, do português Valter Hugo Mãe. A trama que envolve os personagens desse livro inicia-se no absurdo da incompreensão, no buraco negro do preconceito para, como aponta o crítico Silviano Santiago, aos poucos, na forma quase de ondas sucessivas que varrem uma praia, lentamente adentrar numa feliz aceitação das elementares diferenças. A incompletude, uma vez aceita, parece caminho seguro para a placidez, desde, contudo, que se faça uso de algo que Santiago também aponta: a honestidade. Quando se joga com essa, sim, fortes resistências aparecem, o mundo parece, às vezes, querer implodir, o caos ameaça se instaurar, mas há algo que, resistindo, consegue alcançar uma nova terra, de pura concórdia, de ausência de explicações.

A protagonista de Jovem e bela por vezes choca, até mesmo aos que já embarcamos na (e aderimos à) ruidosa máquina de Ozon. Ela tem um quê daquela mãe ex-viciada que engravida de um cara que morre de overdose logo no começo de O refúgio (2009) – e que não dá a mínima para a filha que nasce, deixando-a, logo no seu primeiro sopro de vida, para que o cunhado homossexual a crie. Mas, se conseguirmos enxergar a coragem posta em jogo por ambas essas jovens quanto a se manterem honestas consigo mesmas, poderemos ver, quem sabe, uma beleza absolutamente nova.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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