São Paulo x Rio

DESCENDO O PLANALTO COM RUBIK

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O ano que ficou pra trás terminou com duas visitas curtas – e por motivos diversos – a essas duas metrópoles que disputam eternamente no imaginário de um brasiliense inconstante e afoito (como eu) o título de futuro local de moradia: Rio de Janeiro de São Paulo. Quanta diferença entre uma e outra cidade, e entre elas e Brasília! A tal ponto de ter ficado absolutamente (mais) confuso quanto à imaginária pergunta inicial; mas, também, absurdamente confiante quanto ao sucesso do Brasil em 2014, quando irá sediar essa festa de arromba mundial que é a Copa do Mundo de Futebol. Surpreendente? Talvez, mas vamos aos motivos, não sem antes deixar claro que o que me interessa, nisso tudo, não é tanto o evento a vir, mas, é claro, este gigante pela própria natureza em que moro.

Quase tudo o que se vê hoje na TV e nos jornais e revistas deste país nos induz a evitar os grandes centros urbanos. Violência, tumultos, engarrafamentos, preços altos, poluição são sempre motivos para que se agradeça viver numa cidade “pacata” como Brasília. Sabe bem, quem nela mora, o quanto disso é mentira: ela já é a terceira maior metrópole brasileira e seus problemas se acumulam e crescem em escala geométrica. Aliado a isso, a atmosfera em que repousa, a do poder única e exclusivamente pelo poder, tinge nossos pulmões e artérias com tóxicos pouquíssimo estudados até o momento e, eu diria, altamente daninhos à saúde.

Piso então em São Paulo, cidade em que ando com desenvoltura, apesar de nunca ter lá morado. O interesse primeiro sendo um negócio, o tempo restante permitiu idas ao teatro, shows, restaurantes, cinema, exposições – o mesmo que no Rio, à exceção da praia. Saindo do Mercado Municipal, que está preparadíssimo para receber a qualquer um com seus quitutes, especiarias e frutas os mais variados, acabei caindo, sem querer, na 25 de Março, onde me lembrei de amigos que sucumbem, sem apelo, a um preço baixo. Ninguém fica órfão numa cidade que tem uma rua dessas – nisso, a atual novela das oito (em que o vilão, após ter sido desmascarado das mais diversas vilanias feitas, termina fazendo carreira por lá) pontua favoravelmente.

São Paulo tem o ritmo do empenho impresso em sua cédula de identidade. Não fosse assim, não teria um teatro como o do Sesc Pinheiros (Paulo Autran), em cuja coxia, durante três horas ininterruptas um público do qual fiz parte pôde ver uma peça como Puzzle, com direção de Felipe Hirsch. O texto dessa peça é uma espécie de colcha de retalhos derivada de trechos de textos de autores tendentes a malditos, como Reinaldo Moraes, que, ao repetirem à exaustão – e, assim, acabarem por tornar cômicas – certas situações de uma pornografia cotidiana, nos levam a um estado que beira a anestesia. Doses disso podem ser vitais para todo tipo de cidadão no mundo atual, em especial, eu diria, para aqueles que habitam cidades intoxicantes como Brasília.

Mas, talvez o episódio que mais me tenha feito sentir a marca do empenho paulistano tenha sido a nota estampada na grade fechada na entrada da Cantina Pascoale, na Vila Madalena, em que se anunciava que esse restaurante não abriria naquela noite devido à morte de sua chefe de cozinha, vítima de um acidente acontecido de manhã numa das marginais. Era uma nota de pesar profundo pela perda de uma profissional que, durante mais de uma década, foi responsável pelas massas e molhos deliciosos que essa cantina serve. Na correria de suas vias expressas, nas profundidades de seu movimentado metrô, São Paulo vê circularem mestres anônimos de todas as ordens, procedências, inclinações.

Passamos pro Rio, onde fiquei uma dúzia de dias, dentre os quais o do réveillon. Não levava planos comigo pra essa estada. Já andei bastante por lá, na minha adolescência, já que meus pais gostavam de acampar no camping do Recreio dos Bandeirantes – de onde nos deslocávamos para o centro da cidade quando havia algo interessante pra ver ou ouvir. Queria eu, desta feita, tão somente (e nostalgicamente), ver como se encontrava essa finis terrae carioca; o resto, seria com a vida, a me levar onde bem entendesse.

A cada passo que se dá no Rio, há algo a nos dizer que a vida vale a pena. É uma cidade, em primeiro lugar, com passado imperial. E o que isso quer dizer, para além das palmeiras com esse nome e os casarões e edifícios abalconados (diversos deles em Botafogo, onde fiquei) que lá ainda se veem? Creio que se trata de uma evidente majestade em tudo, algo que não se perde nem mesmo com geração após geração de governantes pífios, nem mesmo quando o poder em si e para si pegou suas malas e se mandou de lá.

A majestade está em cada ser que habita ou passa por aquela cidade. Principia pelos corpos, soberanos, que circulam em sintonia com o calor, ou seja, quase nus. Aos plebeus que se preocupem em como deverão se vestir: uma majestade pode adentrar onde quiser com uma mera bermuda ou canga (ou sunga e biquíni) e uns chinelos, o que importa é que esteja bronzeada e hidratada. Quanto a esse último quesito, não se duvide de que a cidade dispõe de recursos infindos, com suas lojas de sucos a cada esquina e seu chope a jorrar quase ininterrupto pelas brancas serpentinas de seus lendários e onipresentes bares.

Mas a majestade se estende para além dos corpos: ela acontece quando o banhista chega na praia e elege o lugar onde irá se bronzear e, de quebra, ver os demais corpos se bronzearem. Para cada um há um lugar, seu, inquestionável e, se for o caso, perene (como aquela propaganda de cerveja em que os corpos começam jovens e terminam meros esqueletos, porém igualmente felizes). Sua majestade está com calor? Dá-se um mergulho no mar. O mar está sujo? Não tem problema, foi pra isso que aquele antepassado de todos criou um jardim na beira de uma encosta, adjacente à floresta, onde correm sonoros riachos e pairam refrescantes sombras. Pintou uma fome? Bom, se esse era um ponto em que vossa majestade estava meio capenga de referências, saiba que agora está disponível um guia dos melhores bistrôs do Rio, assinado pelo mestre dos mestres dos guias sobre bistrôs (o de Paris quebrou um galhão, e o de Buenos Aires ainda quebrará, um dia), o carioca Alex Herzog. Nele, encontrará tesouros dignos somente dos mais empoderados monarcas – sendo que alguns se acharão bem ao alcance da sua mão, caso esteja na praia, num dos quiosques da orla de Copacabana.

Empenho, majestade, poder elevados a altíssimas potências; e uma distância respeitável entre uma vigência e outra. O que falta? Talvez, somente um revezamento, um giro, como os que damos naqueles cubos, em busca de que todas as suas faces fiquem de uma única cor (de Rubik). A Copa do Mundo de 2014 e seus desdobramentos são um puzzle que já está em andamento.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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