Copa do Mundo no Brasil – I

 

 

INSTÁVEL VIBRAÇÃO

Oito dias já se transcorreram desde o início da Copa do Mundo de Futebol. Que balanço fazer? Em primeiro lugar, um alívio pelo mundo que não se acabou, como muitos acharam que ia. Sim, o complexo de vira-lata é algo forte neste país em que a tendência à idealização (em detrimento do trato horizontal com a realidade) impera, sabe-se lá por que; e, em função disso, temeu-se muito que, aqui chegando, o resto do mundo descobrisse as nossas “vergonhas”. Há alguns posts atrás, eu predisse que tudo ia dar certo, porque o país pode ter todos os defeitos que tem, mas também carrega qualidades que ninguém possui (o trabalho dos paulistas, o savoir-vivre dos cariocas, pra início de conversa).

Em segundo lugar, pôde-se sentir o espanto que é as ruas de nossas cidades sendo tomadas por hordas de estrangeiros. Isso gera uma instabilidade: as reações a atos de nossa parte (não estou nem falando em questões linguísticas) podem diferir daquilo que estamos acostumados no que tange ao trato com o próximo. O fato de as pessoas virem em grupos (em sua grande maioria) ou de os constituírem de imediato em função da identidade nacional é um pouco diferente de quando, numa situação de rua qualquer, nos deparamos com um “turista” ou dois. Por breves instantes, meio que ficamos na dúvida se são eles que estão nos visitando ou se somos nós a eles… Isso é bem interessante, porque se levado adiante, é uma chance para que todos tenhamos a oportunidade de nos deslocar sem nem mesmo termos que desembolsar grandes somas de dinheiro e pedirmos férias no trabalho (benditas sejam as folgas que a Copa tem proporcionado nessa esfera).

Em terceiro lugar, algo de pessoal: eu achei que meu dilema de torcer pelo Chile ou pelo Brasil (e, consequentemente “ser” uma coisa ou outra) estivesse pra lá de resolvido. Não sei se cheguei a mencionar, em algum momento deste blog – que já vai quase pro seu quinto ano – o fato de eu ser chileno de nascença (ambos meus pais o sendo, também), tendo chegado ao Brasil com a idade de sete anos. O que sei é que, a esta altura, me considero brasileiro, o que fica patente quando escrevo – aqui, ou em qualquer outro lugar – usando um “nós” para me referir ao Brasil e aos brasileiros, meus compatriotas. Mas eis que chega por cá a seleção do longínquo e desacreditado Chile e eis que essa seleção, em pleno Maracanã, derrota a encrencada Espanha, e eis que eu faço a besteira de ir ver esse jogo num simpático restaurante chileno que conheci há pouco aqui em Brasília e o que acontece? Um grito de gol (dois, na verdade), tão sonoro quanto primitivo, escapou de mim (tendo sido, inclusive, registrado pela equipe de um jornal local)…

Até agora, em resumo, tudo bem com a Copa. O Brasil deve caminhar para a próxima rodada, brasileiros e estrangeiros confraternizam(os) nos estádios e fora deles e eu vou lá tirando partido das vulnerabilidades de toda e qualquer identidade, à la Rimbaud. Só não pode o Brasil vir a jogar com o Chile. Se isso acontecer, quem porventura quiser ou precisar me encontrar, o mais provável é que consiga numa das cavernas da Terra Ronca, a cerca de uns quinhentos quilômetros a nordeste daqui.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
Esta entrada foi publicada em Fotografia, Ideias e condutas. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

One Response to Copa do Mundo no Brasil – I

  1. Carmen disse:

    Chi Chi Chi Chile
    Viva Chile!

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