O homem duplicado, de Denis Villeneuve

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UMA BRECHA CAVADA NO COTIDIANO
“Caos é ordem ainda indecifrada”: é com essa epígrafe que se inicia O homem duplicado, do canadense Denis Villeneuve, filme baseado num conto de José Saramago. Lema que poderia se aplicar a toda empreitada criativa – seja em arte, filosofia ou ciência, tal nos lembra um livro como O que é a filosofia?, de Gilles Deleuze –, no filme em questão funciona como uma espécie de boia que nos é, logo de cara, lançada, a fim, creio eu, de que não afundemos na experimentação formal – e milimétrica – que se segue. A história é a de um professor universitário que descobre ter um duplo, alguém igualzinho, fisicamente, a si; e que mora na mesma cidade. Situação kafkiana de por si, acrescida de um mal-estar que eu só me lembro de ter visto em Repulsa ao sexo, de Roman Polanski.
São essas algumas credenciais que nos levam para o lado do, hoje, talvez, pitoresco – e dificilmente comporiam algo que valesse a pena ver. Villeneuve é, possivelmente, de fato, o sucedâneo a contento de Polanski, haja vista o que se vê no outro filme recente dele, Os suspeitos – de extrema competência no que tange ao sinistro. Ambos esses cineastas parecem se sentir à vontade nos campos do diabólico. Contudo, creio que O homem duplicado apresenta elementos que nos catapultam para além da genialidade narrativa de um Polanski, fazendo-nos cair, talvez, no terreno ainda mais ácido de um Buñuel.
Quando, em O cão andaluz, ao iniciar sua carreira, esse cineasta espanhol mostrou uma lâmina a atravessar um globo ocular, intercalando essa imagem com a de uma nuvem a cortar, na mesma direção, a lua no céu, não se tratava de um mero exercício analógico a remontar para uma epistème renascentista (para não dizer que não falei do Foucault): isso estava em sintonia com o surrealismo (o codiretor desse filme é ninguém menos que Salvador Dali) e visava, como tal, uma quebra com uma construção que estava em marcha há mais de século: a de uma figura humana estritamente representada pela sua cabeça, pelo seu saber. Quem melhor explica isso é Eliane Robert Moraes em O corpo impossível; a questão que resta, para voltar a Villeneuve (e Saramago, quem sabe), sendo a de que o protagonista de O homem duplicado é um professor de história que não aguenta mais “ensinar”, aos seus alunos, sobre o controle que “as ditaduras” mantêm sobre a plebe porque a sua vida, em todos os aspectos – inclusive no sexual, com a sua rígida companheira –, é nada menos do que isso: um insosso, cotidiano, eterno, repeteco (ou seja: saber das coisas nada resolve).
Quando o duplo lhe aparece, vem representar justamente um caos, uma pequena chance para sair de uma vida administrada (fazendo aqui um pit-stop em Marcuse). E esse duplo, um ator de filmes de terceira que, de certa forma – obscura – já frequenta o ilícito, também percebe, eu diria, o mesmo. Esse último é casado com uma jovem esposa que espera um bebê, ambos vivendo, na intimidade, o calvário do ciúme. Eles também vivenciam a administração, só que num outro aspecto, em que a comunicação – desta feita mais presente – simplesmente abafa algo que está sempre prestes a explodir. O desespero e o desamparo é comum a todos, esse último tornando-se palpável a nós, espectadores, nas diversas tomadas da cidade onde o filme transcorre (Montreal?), cheia de prédios que nada dizem (apesar da pretensão), bem como na fotografia empregada, invariavelmente sépia. Não é à toa que num dos poucos – talvez o único – momentos em que ocorre troca entre um dos quatro personagens do enredo com o mundo externo, aquele em que um outro professor aconselha ao visivelmente infeliz colega a ida a uma locadora de filmes, esse só lhe pede que lhe sugira um filme que seja alegrinho (cheerful).
Uma vez invocado o caos, é claro, há lugar para todo tipo de pânico. Jake Gyllenhaal, o ator que vive o homem que dá título ao filme, arrebenta nessa incumbência, beirando, como disse acima, o feito de Deneuve no filme de Polanski. E somente assim, com essa explicação lógica, consigo eu estabilizar o impacto que a cena final consegue, tal qual a do globo ocular (que era, na realidade, de um cavalo) no filme da década de 1920, causar em qualquer um que assista a esse inquietante filme.
Cabe, ainda, uma nota final, apontando para a rarefação de que esse filme se imbui. Não há um elemento sequer que esteja lá à toa: tudo é milimetricamente de propósito. Até mesmo o que o professor, num segundo momento, ensina – a respeito de Hegel e o que, na História, tende a se repetir – não está lá pra ilustrar algo ou para preencher um vazio, mas para se somar ao quebra-cabeças. Filme esfinge, para bravos somente.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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3 Responses to O homem duplicado, de Denis Villeneuve

  1. Olhe só, nos reencontramos e justamente no post sobre O homem duplicado. Achei interessante que suas ideias sobre o filme batem muito com as minhas, só que tu usa referências filosóficas (que eu não as tenho), então eu me baseio no que eu acho que vi rsrs.
    Espero poder reestabelecer nosso contato e aproveito aqui para te passar o link do meu texto sobre o mesmo filme e daí trocarmos ideias. Abraço.

    http://eutoficandovelho.wordpress.com/2014/06/20/o-homem-duplicado/

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