Copa do Mundo no Brasil – II

A CEGUEIRA É MAIS EMBAIXO

A Copa de 2014 no Brasil tem sido uma experiência pra lá de reveladora em muitos aspectos. Na minha primeira análise a seu respeito, no penúltimo post, chamei a atenção tanto para um aspecto cultural que tangencia o político – tendo a ver com o se valeu ou não a pena o investimento – quanto para um aspecto pessoal – a ver com o ato de torcer. Haveria desdobramentos para o que disse então, a partir do vivenciado no ínterim. Contudo, neste momento, logo após a derrota histórica sofrida diante da Alemanha, noto sobressair, de toda essa overdose de emoções, um tema que eu classificaria como antropológico.

Tem ele a ver, justamente, com a questão da emoção; e nasce da percepção de que essa característica “nacional” seria o grande diferencial a nos levar ao duplo strike de realizar a “Copa das copas” e o hexa. A estratégia, tanto do governo – ao ver que prazos não seriam cumpridos – quanto do Felipão – ao não tomar providências básicas quando se quer atingir um objetivo com seriedade – estava fortemente calcada nesse componente.

Admitamos – como, de resto, tudo nos força a tal – que a primeira dessas estratégias estava correta. Sim, bilhões foram investidos e o retorno está ainda por ser submetido a um balanço final. Mas tudo indica que, nesse cômputo, desde que se leve em conta aspectos relativos à eficácia simbólica – termo esse que foi bem reposto num artigo que li na Folha, por parte de um psiquiatra, que relacionou, com felicidade, o futebol moderno à tragédia antiga –, há êxito rotundo.

Mas, e a outra estratégia? Um primeiro ponto a esse respeito passa, creio eu, por dar-se conta de que foi – e continuará, por parte do seu principal autor – uma estratégia inconfessa. Felipão e os seus auxiliares irão jurar até a morte – como já estão a fazer – que todo o trabalho que fizeram teve um planejamento por trás, uma seriedade evidenciada por estatísticas e pela ciência. Nada de emoções. Entretanto, se fosse unicamente assim, como explicar as visitas da tal da psicóloga? E como não considerar o desabafo de um Thiago Silva, o capitão, ao defender a sua reação indisfarçadamente emocional na hora dos pênaltis contra o Chile? Como, por último, explicar os treinos do time, onde a ênfase recaia nos meros fundamentos?

É evidente que se contava com a emoção! Ela era a constante que faria com que todas as variáveis se curvassem. Não só as variáveis internas – embalando o clima na Granja Comary – como as externas – os demais times, que não teriam outra saída senão o reconhecimento de sua força. Como a emoção estava lá fora, tal qual uma inevitável bruma, e como ela era inteiramente “nossa”, não se viu motivo algum para lhe impor uma barreira, por mais mínima que fosse.

O “plano” funcionou, sofrivelmente, diante de seleções heroicas e embaladas por torcidas apaixonadas, que se deslocaram atrás de um sonho, mas mesmo assim seleções que compõem o baixo-clero do futebol. Diante da primeira seleção genuinamente preparada para levantar a taça, ou seja, de um conjunto que entende que a emoção, própria ou alheia, é um componente a mais entre inúmeros outros, o castelo de cartas ruiu, a bruma se mostrou tão inconsistente quanto cabe a uma bruma ser.

Teria como ter sido diferente? Falar em desfavor da emoção como estratégia pode até parecer uma defesa de que não se deva jamais fazer uso dela, de que psicólogos não cabem nesse ambiente e que os familiares do jogadores devem ser mantidos à distância ao longo da preparação. Não é nada disso. A questão me parece ser mais a de ter entendido, a tempo, que essa dimensão iria ser o contrário do que se supôs que seria: que o Brasil, como dono da casa, como, digamos, aquele que, teoricamente teria uma maior facilidade em pôr a mão na taça, deveria tomar, enquanto equipe seriamente comprometida com esse objetivo, providências redobradas para que essa hiperestesia não tomasse conta em Tersópolis.

Nos seus estudos sobre as práticas sexuais na antiguidade, Michel Foucault descreve a prescrição e a adoção de uma ascese sexual. Muita gente, a partir disso, que consiste num trabalho de história com implicações filosóficas (como sempre, nesse autor), acreditou que esse pensador estivesse, com isso, anacronicamente pregando algo parecido a fim de solucionar problemas modernos. Algo inteiramente anacrônico e em total falta de sintonia com a revolução sexual da qual somos felizes herdeiros. Só que não: a leitura atenta do que Foucault disse na sua trilogia intitulada História da sexualidade revela que tal prescrição, encontrada, por exemplo, num Platão, dizia respeito exclusivamente à classe dirigente. A percepção de que o sexo é uma força que tende à desmesura era o que levava a fazer com que, diante dela, aquela classe que dava as cartas, a fim de não perder, de vez, o controle – com consequências ruins para o conjunto –, se precavesse, praticasse algo de inverso ao que já era, de por si, uma tendência.

Como é que isso se traduziria para a difícil tarefa de conduzir uma seleção de ponta como a Brasileira? Ora, em primeiro lugar, penso eu, ao cortar todo tipo de vínculo com o mundo da publicidade, não só por parte do atletas (algo mais difícil, dado os contratos que muitos deles provavelmente já firmaram com antecedência), mas por parte da comissão técnica. Digo isso porque surpreendeu-me a quantidade de propagandas em que vi o Felipão aparecer, antes e durante a Copa (duvido que veja alguma daqui pra frente).

Um segundo ponto: manter a imprensa à distância. Eu acompanhei a série de reportagens que o Jornal Nacional fez com cada um dos 23 jogadores e achei muito legal saber da história pessoal de cada um. Reportagens ótimas, a quebrar a tendência geral da mídia em noticiar o que dá errado. Mas é preciso ver o quanto que tal iniciativa – certamente uma dentre várias outras na mesma linha – não ajudou a criar um sentimento, entre atletas e não-atletas, de que a vitória estivesse escrita nas estrelas.

Felipão e Cia., como saída, estão recorrendo a um tal de “apagão”, que teria perdurado ao longo de seis exatos minutos. Esse, talvez, seja o mais profundo e daninho de todos os erros por eles cometidos até agora. Apagões são acontecimentos aos quais nos acostumamos – espero que não com tanta frequência – a partir do universo da gestão elétrica, um dos diversos ramos de que uma gestão governamental é feita (e dos mais importantes nos dias atuais). É algo que é ruim, péssimo, mas não é fatal. Em futebol, numa Copa do Mundo, é a catástrofe (das catástrofes): é mortal, não tem perdão. Pra se chegar a tal, não basta que um acontecimento atípico, como num legítimo apagão, engatilhe sequências de panes com baixa probabilidade de ocorrência em sistemas de defesa que todos entendem ser vulneráveis. É necessário que se tenha ido além disso, desconstruindo trajetórias (essas mesmas que vimos no JN) a tal ponto de que profissionais consigam regredir ao amadorismo – e mesmo, dentro desse, a um dos seus níveis mais elementares (será daí a ênfase dada nos fundamentos?).

Acho bem mais dignas as meras desculpas dadas pelo David Luiz. E acho que se aceitarmos a teoria do apagão, vamos terminar por não entender nada, mesmo; e tudo o que de bom, pelo lado do simbólico, ganhamos nesta Copa, irá pelo ralo abaixo.

 

 

 

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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2 Responses to Copa do Mundo no Brasil – II

  1. Concordo plenamente. E além de tudo, uma copa sem grandes brilhos ou boas seleções. O melhor jogo foi Argélia X Alemanha; com méritos heroicos, estéticos e de muito talento para a seleção da Argélia. Mas o melhor de toda a copa foi o exemplo dos japoneses para todo mundo; quando juntaram o lixo do estadio, Para mim, a copa valeu apenas por este motivo.
    Bab Franca.

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