Conselho de Classe, de Cia. dos Atores

O TEMPO VIVIDO NA CASA

A fila para entrar na Sala Plínio Marcos do Centro Cultural Funarte se estendia ao longe, a tal ponto que alguns torcedores do time que iria jogar no estádio contíguo (o controverso Mané Garrincha) chegaram a se confundir e pensar que aquela fosse a fila pro jogo. Caso tivessem prosseguido no equívoco, teriam certamente lucrado mais do que ao terminar vendo o Vasco sendo derrotado pelo Vila Nova. Estava em cartaz uma peça fora de série, intitulada Conselho de classe, com a Cia. dos Atores, do Rio de Janeiro, abrindo o Festival Cena Contemporânea.

Escrever sobre teatro difere bastante de escrever sobre cinema ou sobre algum outro assunto “em pauta”. O teatro, normalmente (e ainda mais em festivais), é algo a tal ponto fugaz, que dificilmente funciona esse mecanismo, aqui posto em prática, de recomendação ou de alerta para que se veja um filme ou se pense num determinado assunto. No caso dessa peça, por exemplo, ela terá somente mais uma sessão, na noite de hoje, e depois só Deus sabe para onde rumará.

Esse incrível universo que é o teatro possui essa característica talvez única, de não ser tão facilmente reproduzível ou transferível de uma sala de exibição para outra, de um fórum de discussão para outro. A maior parte das ações de que um espetáculo desse gênero é feito (ainda que ao longo da sua apresentação, como na peça de ontem, haja uma variedade enorme de cenas) antecede ao encontro dos artistas com o público. É a construção dos mais diversos componentes, iniciando pela concepção e passando pela dramaturgia, encenação, figurino, cenário, iluminação, sonoplastia, trilha sonora até a maquiagem e contra-regragem, tudo isso sendo repetido à exaustão em ensaio atrás de ensaio.

É um esforço tão grande (e tão pouco valorizado) que deveria ter o direito de permanecer como realidade para muito além do que ele de fato permanece, uma vez encenado. Mas não, ele parece destinado quase que exclusivamente a ficar na memória daqueles poucos que frequentam as salas de teatro. Daí que se abra, a partir dele, um espaço para uma escrita que acaba por fugir da crítica propriamente (pelo menos daquela que tem por finalidade prestar um serviço de “utilidade pública”) para ser muito mais testemunhal.

Conselho de classe, com autoria de Jô Bilac e direção de Bel Garcia e Susana Ribeiro, é uma peça com encenação realista que se passa no ginásio de uma escola pública no Rio de Janeiro. Os personagens são quatro professoras que, aos poucos, chegam para uma reunião do tipo que dá título à peça, onde devem-se discutir os assuntos que dizem respeito à escola, com a presença do diretor e de representantes da comunidade, dos pais dos alunos e dos funcionários. Só que quem comparece, unicamente, além dessas quatro professoras, é um substituto da Diretora que, conforme vamos descobrindo ao longo da trama, se encontrava de licença médica, depois de ter sido atingida no rosto por um objeto atirado por alunos, durante o episódio que ficou conhecido como a “revolta do boné”.

A primeira particularidade a nos chamar a atenção, quebrando inteiramente com a “pegada” realista, é o fato de que todas as quatro professoras são vividas por atores homens, que se vestem como tal e que não fazem menção alguma da sua condição feminina, a não ser pelos nomes e personas que cada uma carrega. Assim, vamos somente aos poucos, quando uma se refere à outra, descobrindo que esses quatro personagens são mulheres. E que cada uma tem um tempo de “casa” e um olhar particular, único, para o que é vivenciado pelas quatro no duro dia-a-dia coletivo.

Uma delas, por exemplo, não nutre esperança alguma a não ser a de, por meio da venda in loco de produtos contrabandeados, complementar o mísero salário. Isso e mais a articulação política para ser, depois de anos servindo na escola, realocada para uma função na gestão da máquina burocrática maior, a Secretaria. Outra, que leciona Educação Física, acredita que, para administrar o caos que são esses jovens que frequentam a escola, somente recorrendo a regras que lhes incutam um sentido de que fazem parte de um todo. A de Educação Artística, por seu turno, vê o oposto e os apoia quando esses resolvem pôr em questão a proibição, por exemplo, do uso de bonés: é preciso reinventar o papel da escola, capacitando os alunos para o pensamento e para o futuro. Por último, a de Literatura (Brasileira) e responsável pela Biblioteca, que já tinha tempo suficiente para se aposentar, sendo capaz de ver razão em uma e outra elaboração e acabando por sofrer um ataque epilético como decorrência.

Damo-nos conta, paulatinamente, do quanto há de legítimo em cada uma dessas posturas, que não cedem, perante a outra, um milímetro sequer. A nos acompanhar, o pobre diretor substituto, que acaba estirado no chão do ginásio, depois de ter esperneado feito um animal que segue pro abatedouro, diante da intensidade do drama à sua frente. O buraco é muito mais embaixo em pelo menos dois sentidos: 1) porque os recursos (da educação, em nossa sociedade) são de todo insuficientes para uma paixão (pela educação, por parte desses profissionais) que é gigantesca e 2) porque esse drama não diz respeito unicamente ao ramo da educação e sim ao serviço público como um todo, onde o profissionalismo tem tão pouco reconhecimento, e, de mais a mais, à própria convivência humana, quando acabamos por perder, muitas vezes, a capacidade de ouvir uns aos outros. E o grande mérito de Conselho de classe é justamente o de não sucumbir, em momento algum, à tentação de se esquivar desse enorme e profundo buraco lançando mão de um recurso – muito fácil, já que os atores, todos, são comediantes de primeira – ao enfadonho besteirol que tanto se vê por aí no teatro brasileiro.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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2 Responses to Conselho de Classe, de Cia. dos Atores

  1. veronica disse:

    Adorei a peça, mas voce contou os segredos…

  2. Acho que não, Verônica. Para descobrir os segredos de uma peça, creio eu, somente indo lá e vendo como cada ator – e cada um desses outros profissionais que menciono no texto – resolve o que está no script.

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