47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (parte 2)

ADIRLEY QUEIRÓS E SEU CINEMA QUE NÃO BRINCA

Quarta noite da Mostra Competitiva. A expectativa era grande, de minha parte ao menos, para ver o novo longa de Adirley Queirós, Branco sai, preto fica, por dois motivos: 1) pra ver se não havia falhado, eu, em decretar, no último post, o alto nível do cinema brasileiro, depois de um chatíssimo, pedante até, Pingo d’água, longa exibido na terceira noite e 2) porque o primeiro longa desse cineasta do DF, A cidade é uma só?, tinha me impactado muito positivamente. E o que deu? Bem, que eu acho que vai ser (depois do que expus no meu post anterior) tarefa dificílima pro júri desta edição decidir qual será o vencedor do Troféu Candango para melhor longa. Filmaço!

Vamos, contudo, devagar. São necessárias algumas advertências, a primeira girando justamente em torno da afirmação feita acima, relativa à procedência desse filme. Disse que era um filme do DF, quando o costume leva a dizer “filme brasiliense”. Bom, acontece que Branco sai, preto fica é um filme integralmente feito (concebido, rodado e não sei até que ponto montado e finalizado) na cidade satélite da Ceilândia, na periferia de Brasília. Muitos irão se perguntar: poxa, mas o que o impede de ser considerado “de Brasília” (quando um filme é feito, digamos, em Campina Grande, ele não deixa de ser paraibano). Pois bem, é justamente isso o que o primeiro longa de Queirós, acima mencionado, abordou.

A Ceilândia é um complexo habitacional que foi formado a partir de um dos acampamentos operários que existiram no início da construção de Brasília, a Vila do IAPI. Essa vila ficava numa localidade próxima ao Plano Piloto e tinha a particularidade de ser visível a quem chegasse de avião na cidade, já que estava a esquerda de uma das rotas de descenso rumo à pista do aeroporto. Decidiu-se, a certa altura, que todos os seus moradores deveriam ser transferidos de lá e levados a uma área beeeeeeem mais distante, para além da cidade satélite (já existente), de Taguatinga. Deu-se a essa iniciativa o nome de Campanha de Erradicação das Invasões, cuja sigla era CEI, donde o nome de Ceilândia.

Quando os moradores dessa nova localidade se deram conta do retrocesso geográfico, reclamaram, ao que lhes foi dito que “a cidade é uma só”. Pois eis que, cerca de quatro décadas depois desse episódio, sendo a Ceilândia uma já consolidada periferia, com pouquíssimos serviços públicos à sua disposição e igualmente distante do centro, o primeiro filme de Queirós, um documentário, colocou um ponto de interrogação nessa afirmação, indicando que não, que uma separação clara existe; que Brasília é Brasília e Ceilândia, Ceilândia. Em outros termos, que há um apartheid determinado a partir do espacial – algo que já vinha sendo apontado há anos por geógrafos, só que, agora, eram os próprios moradores da Ceilândia a chamar a atenção pra isso, via o cinema.

Isso posto, o quê teria Queirós e os seus a nos dizer desta feita? Branco sai, preto fica seria um novo documentário, ou teria ele partido pra ficção, que já se deixava entrever no filme anterior, por meio do candidato fake que percorre a cidade atrás de votos? A resposta é a de que trata-se de uma ficção, com personagens que, no entanto, são, em muitos casos, resultado de um deslocamento somente leve, sútil, mínimo em relação aos seus intérpretes, os atores que vemos em cena. Algo como se a câmera documental andasse, antes de começar a filmar, meio passo para o lado, fazendo, com isso, com que o objeto filmado também se mexesse, deixasse de ser o que é (numa espécie de “dois pra lá, dois pra cá” cinematográfico).

Há, também, um deslocamento temporal: somos remetidos a um futuro não tão distante, em que os ceilandenses precisam de passaportes para ter acesso à capital (sendo que há, ainda, um outro tempo, ainda mais futurístico, do qual um dos personagens provêm, para tentar desfazer o que se fez nesse outro futuro). Mas há também um passado real, vivido de fato pelos atores que ora viraram personagens, que é de onde saem o título do filme e uma das marcas (reais, físicas) que ficou num dos personagens. Trata-se de um episódio em que, a Ceilândia já estabelecida, deu-se uma batida policial em grande escala num dos centros que os jovens de lá haviam criado para se divertir, uma casa de bailes.

Esse tempo passado é o único em que os personagens são tomados por sentimentos (nostálgicos, no caso). De resto, vamos aos poucos descobrindo que suas múltiplas habilidades – para muito além do drible que promovem nas mutilações impostas aos seus corpos pelo apartheid – estão todas a serviço de um plano, de uma revolução em que, novamente, está implicada aquela cidade da qual seus pais foram expulsos. As tecnologias, eles as dominam, isso está muito claro: nada há de impedir que eles tenham sucesso. E eis que, a partir dessa constatação, o ligeiro deslocamento a que me referi acima, pode, a qualquer instante se desfazer e nós, espectadores dessa envolvente trama, nos darmos conta de que isso que está sendo contado como futuro, é o mais rotundo dos presentes, uma vez que nada impediu Adirley Queirós, esse filho da Ceilândia, de realizar seu segundo e maravilhoso longa.

Uma última observação: não pude deixar de me surpreender com a correspondência entre o desastroso Pingo d’água e esse filme ceilandense. O primeiro, filmado em preto-e-branco, gira em torno de um grupo paulistano (apesar de o filme ser paraibano) às voltas com o processo criativo. É algo (esse processo) que não anda e, talvez, a esperança dos seus realizadores fosse a de que o filme – ao menos ele – desse conta de pôr alguma coisa em marcha, zigzageando experimentalmente entre “verdade” e “ilusão”. Leda ilusão (sem aspas). Há tempos não via algo tão enfadonho. Agora, como que para redimir a essa pretensiosa trupe, chega Queirós e sua turma de artistas da periferia e fazem aquilo que acabo de descrever. Como conseguem? Acho que a resposta a isso está no fato de que uma pretensão tão elevada como a que aparece no primeiro filme só pode vir a ser atingida por um grupo que, tendo vivenciado a vida no que ela tem de mais cruel, consegue se despojar de toda uma carga impeditiva de uma real, viva, comovente colaboração.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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