Eleições 2014 – declaração de voto

DESISTIR, NÃO

Está quase chegada a hora de dizermos qual o rumo que queremos que o Brasil tome nos próximos quatro anos. Temos um quadro eleitoral bastante rico, eu diria, onde uma terceira via se apresenta e incomoda não só aos dois principais adversários (palavra horrorosa, que merecia ser posta entre aspas, mas não o farei para não dar margem a leituras erradas), mas a todo o restante espectro de postulantes que, no fundo, como ficou claro no debate de ontem na TV Record, só reproduzem, de forma desidratada, posições e visões que já se encontram desabrochadas na bipolaridade até agora reinante na política brasileira pós-ditadura. A terceira via a que me refiro é a que traz o nome da ex-senadora Marina Silva como candidata a presidente; e eu pretendo, a seguir, expor os motivos pelos quais essa me parece a melhor alternativa para a eleição de domingo próximo.

Acho que o principal argumento que me leva a acreditar na proposta de Marina é justamente o que gira em torno da quebra da polaridade PT/PSDB. A esta altura do campeonato, quando a maior parte de nós já decidiu, a partir dos “n” (e cruciais) elementos que foram lançados nas ondas, bytes e impressos que atingem os nossos diversos aparelhos receptores – indo da corrupção à questão da aceitação das diferenças, passando pela preservação do meio ambiente e a condução da economia –, há forte tendência a afunilar tudo numa questão de esquerda vs. direita, como se aí estivesse a necessária dose de cal, o arremate com que poderemos tranquilamente realizar o nosso enterro do(s) “adversário(s)”.

Acho isso de uma pobreza atroz. Introduz, nessa discussão que é extremamente rica, variada, ampla, o componente suficiente de mediocridade. E o que é pior: o faz por meio da deslavada mentira. Eis, talvez, o ponto principal. Marina Silva não é agente da direita, não é representante dos bancos, não é lacaia do Silas Malafaia, como tampouco é uma xiita socialista e estatizante ou uma nova Collor – e todos os seus acusadores sabem disso.

Marina Silva é, ao meu ver, o que se salvou na política brasileira dos últimos 25 anos. Nesse período, tivemos, conforme nos mostra o filósofo Marcos Nobre, a instauração de um condomínio cuja convenção foi inteiramente desenhada por um partido que nunca saiu do poder, apesar de tê-lo ocupado, de pleno, por pouco tempo: o PMDB. Tivemos, é claro, a ascensão de um partido recém-criado, cuja plataforma se deu largamente em torno do combate à injustiça social (um outro nome para a corrupção?), mas que, uma vez ungido ao poder, aderiu sem maiores esperneios à convenção condominial, a qual nunca pretendeu fazer com que o país crescesse, tendo como horizonte a mera administração do (apertado) espaço das benesses (onde, por certo, estavam incluídos todos os dutos que fazem com que o dinheiro de todos acabe no bolso de alguns).

Sua (a de Marina) trajetória se deu dentro da temática da defesa do meio ambiente, onde, justamente, tem a devida ressonância a questão da responsabilidade – questão política por excelência. O mundo atual é um mundo sob ameaça, um mundo que precisa de soluções que vão além daquelas que o jogo político atual está capacitado a fornecer, com o seu costume de achar que o perigo está exclusivamente no imediato, no inimigo instalado do outro lado da mesma podre moeda. E o Brasil tem gente suficientemente capacitada para propor o novo, para desenhar saídas inovadoras, que minimizem o risco, que estamos todos correndo, de nos extinguirmos como espécie – e junto conosco a milhares de outras.

Essa é a elite de que Marina fala, com toda a razão: são pensadores de todas as origens, credos, estratos sociais e, acima de tudo, de todos os matizes ideológicos. Porque se há algo que já caducou quanto a seu a prazo de validade, isso certamente é essa tal de ideologia. Não precisamos dela; precisamos é de soluções inteligentes, de acordos em permanente revisão, de crença no impossível (outro nome para a capacidade de apostar), de ousadia e de humildade pra se reconhecer o erro quando ele ocorre.

Alguns, inclusive dentre os que simpatizam com a candidatura de Marina, argumentam que o cerne da questão estaria na alternância no poder. Nunca gostei dessa tese e não acho que uma boa defesa dessa candidatura deva passar por aí. Trata-se mesmo é do desafio de criar o novo, de sair de um pântano pegajoso, do qual a ética – esse elemento chave, no meu entender, para que possamos nos sustentar neste planeta daqui pra frente – está simplesmente ausente.

O fato de Marina Silva ser evangélica, confesso, foi algo que tive dificuldade em equacionar ao avaliar a minha adesão à sua candidatura. Sou ateu e tudo me leva a crer que continuarei a sê-lo. Contudo, isso não me impede de perceber que haja valor naqueles que, nessa esfera íntima que não deveria necessariamente aparecer quando o assunto é a política, julgam oportuno uma presença em suas vidas a lhes lembrar permanentemente a imperfeição que nos conforma. Questão de humildade – algo tão raro de se ver, em qualquer lide que seja. E, por último, sou levado a crer, a partir de tudo o que pude aprender com Foucault, que a ética é algo que se reveste, necessariamente, de um componente espiritual. É o espírito, ou a alma, o que nos leva a isso que é tão fundamental e que se resume em ter voz – e vice-versa. Se, para que a tenhamos, seja necessário que nos acudamos por um livro (ou vários, como parece ser o meu caso), pois que seja! É lícito, vale a pena!

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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