Segundo turno a partir do cinema

MARINA NÃO É MINHA JOANA D’ARC

O outro dia fui ver o último filme de Luc Besson, Lucy. Besson é autor de dois cults pessoais meus, ambos com o Jean Reno: Imensidão azul e O profissional. Coisa do final da década de oitenta e começo de noventa, século passado. Não havia gostado de nada do que ele, Besson, fez depois disso – e o próprio Reno sempre foi mesmo um ator limitado. Cinema francês em total sintonia com Hollywood e seu norte (apesar de tudo): a bilheteria. (Quando ainda surgia esse diretor, contudo, isso não estava 100% claro, ainda havia um quê de desafiador nos personagens outsiders.) Mas eis que a estrela de Lucy não é ninguém menos do que Scarlett Johansson: golpe baixo.

O filme é um legítimo Besson: Lucy é uma garota pra lá de comum que involuntariamente cai nas garras de uma máfia asiática prestes a lançar uma nova droga no mercado e precisando de “mulas” para transportá-la aos centros potencialmente consumidores. Diversos pacotes dessa droga são instalados cirurgicamente no seu abdômen e, antes mesmo dela embarcar, eles vazam, tendo como consequência uma overdose no corpo e na mente de Lucy.

Essa droga, conforme é explicado, é uma síntese de um composto químico que foi detectado nas mulheres grávidas e seria o responsável pela formação da inteligência no bebê. Lucy recebe uma descarga monstruosa disso e acaba se tornando um ser que progressivamente é capaz de tudo saber, tudo prever. Deus, em suma. Só que, para tanto – e disso ela se dá conta junto com um professor vivido por Morgan Freeman – ela necessita vencer o, digamos, ceticismo, que as células do seu próprio corpo passam a manifestar. É aí que reside a deixa para o que Besson sabe fazer de melhor (essa coisa do Profissional, de um único superdotado enfrentar batalhões, em corrida, também, contra o tempo), pois a única forma de superar esse auto-boicote é se enchendo de mais da mesma droga, que está com as demais mulas, monitoradas de perto pela máfia.

O filme despertou em mim o desprezo. Confirmou um veredito – o acima exposto. Contudo, saí dele com um incômodo adicional, que não consegui precisar naquele instante. Era ainda o primeiro turno da eleição e eu já sabia que era algo que passava pelo momento eleitoral que todos vivemos –e que, agora, se afunila rumo a algo quase intestinal.

Supondo que Lucy fosse um filme para pensar – e advirto que não o é –, ele carregaria consigo a questão da maior utilização de uma capacidade que se encontra hoje reduzida. Sendo mais explícito, ele aprofundaria, talvez, o mote, incerto, de que nós só usamos dez por cento da nossa capacidade intelectual. Seria, então, um exercício em torno daquilo que aconteceria caso fosse dado a alguém essa abertura de comportas – que, no caso, essa droga em dose cavalar, involuntariamente, provocou.

Pois bem, aproximo-me do ponto que tanto me incomodou ao sair do filme, que é a noção de que o conhecimento puro, em si, destacado de todo e qualquer base fisiológica ou orgânica – tal qual o que advêm da droga em questão –, seja algo a se perseguir, algo intrinsecamente bom. Aproximo-me mais ainda rememorando que a atual presidente brasileira, ao suceder o carismático Lula, foi apresentada como alguém com notável capacidade de gestão. Gestão, essa palavra tão em voga, o que é se não algo frio, que passa inteiramente pelo saber, nutrindo-se da informação? Dados e mais dados, é o que alimenta a gestão, e a presidente Dilma era, quando surgiu como candidata na sua primeira eleição (obtendo, inclusive, o meu voto no segundo turno), um poço de dados. Era o que faltava para que o Brasil adentrasse uma nova condição, para que deslanchasse, tal qual a Lucy do filme, o seu máximo potencial.

Se Lucy fosse mesmo um filme para pensar, penso que teria nos dito quanto ao engodo da fórmula que põe o conhecimento como caminho obrigatório para a felicidade. Essa última, sustento em consonância com alguns dos meus gurus, tem muito mais a ver com circunstância, coragem, aposta. O mundo não tem uma ordem, a não ser na ótica dos fundamentalistas, de todos os tipos – creio que esse termo, também tão contemporâneo, passa por isso: pela rigidez de algo que foi concebido no delírio de alguém – um “gênio” ou dois e, em seguida, estabelecido, por canais insuspeitos, como franchising –, mais do que no corpo – que é o local do gozo propriamente. Nada contra o delírio, partindo do pressuposto que todos o fazemos, mas o mundo está aí para que, além disso, nós lhe demos, permanentemente, um desenho, uma cor, um volume.

Em algum momento da minha vida, acreditei na política como essa instância maior e mais necessária da criatividade. Hoje, um pouco desiludido, continuo a crer que não estamos aqui para meramente chancelar o que é habitual, o que nos é apresentado socialmente como eterno. Por isso, acredito na arte. E vi, na candidatura de Marina Silva, uma ponta daquilo que já me fez um dia acreditar na política no sentido do que hoje me faz acreditar na arte ou, simplesmente, em mim (alô, Léo!).

O seu apoio ao candidato do PSDB, que em certo momento cri ser o limite máximo até onde poderia esticar meu apreço, minha concordância ao seu projeto por uma “nova política”, não me pareceu, da forma como ela o conduziu, determinar a sua “queima”, ao menos no que tange aos meus “domínios”. Vi como questão de circunstância, coragem, aposta.

Não sei, ainda, o que vou fazer no dia 26. Mas creio que o filme de Besson, ao reacender em mim o enfado em relação a tudo o que relaciona felicidade a conhecimento monolítico, poderá me ajudar.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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